Telas e pressa à mesa: por que comer no automático engorda e faz mal
Autor: Ingrid de Paula Ferreira*
Usar o celular e comer pode ajudar a ganhar peso e também interfere na saúde. Isso porque o organismo leva um tempo para sinalizar que o estômago está cheio. No cenário contemporâneo, a refeição virou um meio de “ganhar tempo”. Seja pela rotina exaustiva ou pela distração das telas, o ato de comer rapidamente, a chamada “alimentação apressada”, consolidou-se como um hábito nocivo e com impactos profundos na saúde.
Muita gente aproveita a hora do almoço para responder mensagens ou rolar o feed das redes sociais. No entanto, o que parece produtividade é um gatilho para problemas de saúde. Comer rápido e distraído desconecta o corpo da mente, impedindo que o organismo processe a nutrição adequadamente.
A desconexão cérebro-estômago torna o smartphone um vilão da saciedade. Principalmente, porque o uso do celular à mesa cria uma “cegueira nutricional”. Quando os olhos focam na tela, o cérebro fica tão ocupado processando dados que “esquece” de notar a comida. O principal problema reside no hiato de comunicação entre o sistema digestório e o sistema nervoso central.
O mecanismo de saciedade não é instantâneo. Segundo estudos da neurofisiologia, o processo depende da liberação de hormônios como a colecistocinina e a redução da grelina (o hormônio da fome). O cérebro leva, em média, 20 minutos para sinalizar que o estômago está cheio. Ao ignorar esse tempo, consome-se uma carga calórica superior à necessária, favorecendo o ganho de peso e a obesidade, que acomete 25% da população brasileira, segundo dados recentes da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas (Vigitel).
Comer rápido tem um impacto na digestão e na glicemia do organismo e por isso, o estômago paga a conta. Isso ocorre porque a digestão começa na boca e mastigar pouco enviando partículas grandes de alimento ao estômago, sobrecarrega o órgão, reduzindo a eficiência das enzimas. Além disso, comer rápido ou falar enquanto usa o celular faz com que se engula muito ar (aerofagia). Esse combo de “comida mal mastigada + ar no estômago” é a receita certa para o desconforto.
Do ponto de vista metabólico, comer rápido causa picos de açúcar no sangue (glicemia) mais acentuados. Pesquisas publicadas em periódicos como o Journal of Epidemiology associam a velocidade da ingestão ao aumento da resistência à insulina, elevando o risco de diabetes tipo 2. O corpo, em estado de alerta, transforma a nutrição em estresse fisiológico, resultando em:
- Azia e refluxo: o ácido gástrico sobe para o esôfago, causando queimação.
- Inchaço e gases: sensação de estufamento logo após comer.
- Sobrecarga do pâncreas: devido aos picos bruscos de açúcar no sangue.
Os profissionais de nutrição buscam orientar e resgatar o conceito de Mindful Eating (comer com atenção plena). Desligar as telas e focar no sabor e na mastigação não é etiqueta, é uma intervenção clínica. Comer devagar permite que a química da saciedade atue e melhore a absorção de nutrientes.
Guardar o celular não é “frescura”, é uma necessidade fisiológica. Mudar o ritmo da garfada e afastar as notificações são passos simples para cuidar do corpo. É urgente reeducarmos nosso olhar para que o ato de comer volte a ser um momento de presença, e não apenas uma resposta mecânica à pressa do cotidiano.
*Ingrid de Paula Ferreira é nutricionista, com especialização em Nutrição Clínica
Professora de Nutrição no Centro Universitário Internacional – UNINTER
Autor: Ingrid de Paula Ferreira*Créditos do Fotógrafo: Rodrigo Leal/Banco Uninter e Andres Ayrton/Pexels


