Quando a química é negligenciada: o risco invisível nas piscinas

A morte da professora Juliana Faustino Bassetto, de apenas 27 anos, após exposição a gases possivelmente liberados em uma piscina de academia, reacende um alerta importantíssimo: produtos químicos não são perigosos por natureza, mas tornam-se perigosos quando manipulados sem conhecimento técnico e sem respeito às suas propriedades.

O episódio, ainda sob investigação, aponta para a suspeita de uma mistura inadequada de produtos utilizados no tratamento da água. Em piscinas, os principais agentes empregados são compostos clorados, como o hipoclorito de sódio ou o dicloroisocianurato, cuja função é garantir ação bactericida e oxidante. Esses produtos, quando utilizados corretamente, são seguros e indispensáveis para a saúde coletiva. O problema surge quando há combinações indevidas.

Do ponto de vista químico, uma das hipóteses plausíveis em casos como esse envolve a liberação de gases tóxicos, especialmente o cloro (Cl₂) ou cloraminas. A mistura de hipoclorito com substâncias ácidas, por exemplo, desloca o equilíbrio químico e favorece a formação de gás cloro, altamente irritante para olhos, vias respiratórias e pulmões. Em ambientes fechados, a concentração pode se elevar rapidamente, aumentando o risco de intoxicação aguda.

Da mesma forma, a reação entre produtos clorados e compostos contendo amônia pode gerar cloraminas, gases igualmente irritantes e potencialmente perigosos. É importante compreender que o tratamento de piscinas não se resume a “colocar cloro”. Antes da aplicação de qualquer desinfetante, é necessário avaliar parâmetros como pH, alcalinidade e concentração de cloro residual.

Se o pH estiver fora da faixa ideal (entre 7,2 e 7,6), o hipoclorito pode perder eficiência ou reagir de maneira indesejada. Além disso, o excesso de produto ou a adição simultânea de substâncias incompatíveis pode desencadear reações perigosas.

O que nunca deve ser feito?

  • Misturar produtos químicos sem orientação técnica;
  • Utilizar substâncias fora da indicação do fabricante;
  • Armazenar produtos em recipientes improvisados;
  • Manipular compostos concentrados em ambientes fechados sem ventilação adequada.

Estes são erros que, infelizmente, ainda ocorrem tanto em ambientes domésticos quanto comerciais.

Não se trata de demonizar os produtos utilizados no tratamento de água. O cloro, quando corretamente aplicado, é responsável por evitar surtos de doenças e garantir segurança sanitária. O que precisa ser enfatizado é a responsabilidade técnica. Piscinas de uso coletivo devem ter acompanhamento profissional habilitado, com controle rigoroso dos parâmetros físico-químicos da água e registro adequado das aplicações.

A tragédia recente não é apenas um acidente isolado; é um lembrete de que a química exige conhecimento, planejamento e respeito. Produtos químicos são ferramentas poderosas. Podem promover saúde, higiene e qualidade de vida. Mas, quando mal-empregados, podem produzir exatamente o oposto.

Que este caso sirva como alerta: segurança química não é excesso de zelo, mas sim obrigação. Em um país onde o acesso à informação é amplo, não há justificativa para improviso quando se trata de substâncias potencialmente tóxicas. A pergunta que permanece é simples e urgente: estamos tratando a química com o respeito técnico que ela exige ou ainda insistimos em subestimá-la?

 

*Marco Aurélio da Silva Carvalho Filho é doutor em Química, professor universitário e docente na Uninter.

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Créditos do Fotógrafo: Banco Uninter e Gustavo Fring/Pexels


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