Reduzir a jornada é urgente. Mas quem está conduzindo esse debate?

Autor: *Aline Mara Gumz Eberspacher

 A proposta do fim da jornada 6×1, seis dias de trabalho para um de descanso, reacendeu um debate necessário no Brasil: afinal, quanto tempo devemos dedicar ao trabalho e quanto devemos preservar para viver?

É inegável que o brasileiro trabalha muito. Em uma sociedade capitalista, o trabalho não é apenas meio de subsistência; é também identidade, pertencimento e reconhecimento social. É por meio dele que o indivíduo conquista autonomia financeira, realiza projetos e contribui para o desenvolvimento do país.

Reduzir a carga horária pode representar um avanço civilizatório. Mais tempo livre significa mais qualidade de vida. Em um país que enfrenta baixos índices de leitura, alto sedentarismo e problemas de saúde ligados ao estresse, ampliar o tempo de descanso pode fortalecer vínculos familiares, favorecer a participação na educação dos filhos, estimular a prática de atividades físicas e o investimento em formação pessoal. Uma sociedade que descansa melhor pode produzir melhor.

Contudo, a forma como o debate vem sendo conduzido merece reflexão. A proposta ganhou força na Câmara dos Deputados, onde 513 parlamentares deliberam sobre medidas que impactam milhões de trabalhadores brasileiros. Trata-se de uma decisão estrutural, com efeitos sobre empresas, trabalhadores, produtividade, custos e até a organização das cidades.

Empresas podem enfrentar aumento de despesas com novas contratações. Trabalhadores comissionados podem ter sua renda impactada. Há também aqueles que, por diferentes razões, preferem jornadas mais extensas. Generalizar uma solução sem considerar múltiplas realidades pode gerar distorções.

Mais do que discutir apenas a quantidade de horas trabalhadas, é preciso discutir o método. O Brasil é uma democracia, e decisões que alteram profundamente a dinâmica social e econômica não podem ser impostas de forma vertical. É essencial envolver empregadores, empregados, sindicatos, especialistas e a própria sociedade em um diálogo amplo e transparente.

Não se trata de rejeitar a redução da jornada, ao contrário: ela é urgente. Falar em equilíbrio entre vida pessoal e profissional deixou de ser um luxo discursivo e passou a ser uma necessidade social. A questão central não é se a jornada deve ser reduzida, mas como o poder público está contribuindo, de forma concreta, para que isso se torne viável.

É preciso deslocar o debate do campo da retórica para o da responsabilidade. Reduzir a jornada exige planejamento, diálogo com os setores produtivos, revisão de modelos econômicos e políticas públicas consistentes. Onde está esse projeto estruturado? Onde está a escuta ativa da sociedade?

Este é o momento de o governo agir com maturidade democrática, e maturidade implica abandonar posturas paternalistas e decisões impostas de cima para baixo. Tratar a população como adulta significa reconhecê-la como parte do processo decisório, não como mera destinatária de medidas prontas.

Se queremos avançar, precisamos discutir não apenas a redução da jornada, mas o modelo de desenvolvimento que estamos dispostos a construir. Democracia não é apenas votar; é debater, negociar e compartilhar responsabilidades.

*Aline Mara Gumz Eberspacher é Doutora em Sociologia pela Université Paul Valéry (Montpellier III – França) e Coordenadora dos cursos de Pós-graduação do Centro Universitário Internacional Uninter.

Incorporar HTML não disponível.
Autor: *Aline Mara Gumz Eberspacher
Créditos do Fotógrafo: Rodrigo leal/Banco Uninter e energepic.com/Pexels


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *