WhatsApp trocará número do telefone por @usuario: o que muda para nós?

Autor: Luis Gonzaga de Paulo*

A Meta, empresa dona do WhatsApp, está anunciando para junho uma grande mudança na plataforma de mensagens instantâneas: a adoção de identificadores de usuários, o @usuario, como é utilizado em redes sociais como o Facebook e o Instagram, também da empresa. Essa alteração vai permitir trocar mensagens sem expor o número de telefone. A novidade promete mais privacidade, sobretudo em contatos com desconhecidos, empresas e serviços.

A modificação tende a reduzir a circulação indevida do seu número de telefone, dificultando golpes, spam e abordagens abusivas. Na prática, a novidade é esta: o número do telefone continua lá, sendo exigido para criar a conta, mas passa a ficar menos exposto nas interações. O próprio WhatsApp já informa, hoje, que não há como esconder totalmente o número no uso comum do app, embora em alguns primeiros contatos com empresas ele possa ficar oculto por padrão. Com o uso do novo identificador, a ideia é ampliar a camada de proteção para que a conversa comece pelo @usuario, e não mais pelo número do telefone.

Porém, como em toda mudança, existem novos desafios, oportunidades e riscos: ao aproximar o funcionamento do WhatsApp ao das redes sociais a Meta torna mais fácil integrá-lo com seus outros serviços, o Instagram e o Facebook, viabilizando um modelo de anúncios personalizados que já existem naquelas redes. O seu número ficará protegido de desconhecidos, grupos e empresas — e dos golpistas.

Os golpes ficam mais difíceis, pois boa deles parte começa porque alguém obteve os números de forma ilegal, como os vazamentos. Em 2022, quase 500 milhões de números do WhatsApp foram expostos, segundo o portal Tecmundo. Sem usar o número esse risco tende a diminuir.

Aquelas mensagens indesejadas (spam) também perdem força: não será possível conseguir seu número a partir do seu identificador (@usuario) para repassar a terceiros. Isso não significa que o incômodo do telemarketing vá desaparecer, porque as mensagens e ligações indesejadas que você recebe no celular vêm de bases de dados que já circulam por aí há anos. Ou seja, o seu número já consta em inúmeras listas que nada têm a ver com o WhatsApp. Operadoras, cadastros em lojas e apps de desconto continuam coletando telefones por conta própria. Passar a usar um ID de usuário não muda esse cenário.

Para a Meta, a oportunidade já está no radar: a empresa já vem testando a unificação da identificação sem o número de telefone no WhatsApp com o Instagram e o Facebook em um modelo chamado Meta Accounts Center ou Central de Contas Meta. Isso resulta em uma chave valiosa para rastrear e validar o comportamento dos usuários: quais canais segue na plataforma, com quais anúncios interage, o que curte nas redes sociais.

O resultado é bom para a multinacional. Quem antes comprava a lista de números de telefone para fazer as ligações passará a pagar para enviar os anúncios. O telemarketing abusivo não desaparece — ele se profissionaliza e vira publicidade paga dentro do ecossistema companhia. Já para as operadoras de telefonia celular isso é uma perda: seu número de telefone não terá o mesmo valor como identificador comercial. Você continuará pagando o plano de dados, mas quem poderá ganhar com a sua interação nas redes é a Meta.

A mudança promete ser positiva, pois os usuários devem ficar mais protegidos contra vazamentos de número e contatos indesejados, reforçando a privacidade. Esconder o número do telefone para os desconhecidos reduz uma exposição que sempre foi problemática. Menos gente vendo seu número significa menos chance de ele ser copiado, revendido, reaproveitado em cadastros paralelos ou combinado com outros dados para ser usado em golpes e fraudes.

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) sempre nos lembra que vazamentos de dados pessoais alimentam fraudes, golpes e uso indevido de informações. Portanto, se o número circular menos, há um ganho real de privacidade. Não é uma revolução: é o que chamamos, no ramo da segurança da informação, de “redução de superfície de ataque” — o que já é um grande avanço.

Mas isso não significa o fim dos golpes nem do spam: já sabemos que o mundo do crime tende a se adaptar rapidamente, podendo usar nomes falsos, perfis parecidos com os de empresas reais e links maliciosos para tentar nos enganar.

No dia a dia, a principal vantagem será dar mais controle sobre quem consegue iniciar uma conversa. Ou seja, o WhatsApp pode ficar mais seguro para o usuário — e mais valioso para a Meta. A grande pergunta é se essa troca entre privacidade e conveniência vai compensar, ou se vai apenas mudar o tipo de incômodo que sofremos diariamente, bem como possibilitar uma nova maré de golpes e fraudes contra os quais teremos que aprender a nos defender.

* Luis Gonzaga de Paulo é mestre em computação e especialista em segurança da informação, além de coordenador dos cursos de Ciência de Dados, de Redes de Computadores e de Segurança da Informação na Uninter.

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Autor: Luis Gonzaga de Paulo*
Créditos do Fotógrafo: Sunrise/Pixabay


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