Marina driblou preconceitos para brilhar no futebol feminino
Autor: Gabriela Jung - estagiária de Jornalismo
Os primeiros toques de Marina Toscano Aggio em uma bola de futebol aconteceram quando o mundo não incentivava a presença feminina no esporte. Quando ela nasceu, a modalidade era proibida para as mulheres no Brasil, em virtude de um decreto-lei do então presidente Getúlio Vargas, que, durante mais de quatro décadas, tirou delas o direito de praticar esportes “incompatíveis com as condições de sua natureza”.
Mas Marina não só persistiu na modalidade, como se tornou campeã. E agora usa sua trajetória como inspiração para ensinar outras pessoas.
A prática do futebol feminino somente seria regulamentada e permitida pelo Conselho Nacional de Desportos em 1983, quando Marina tinha dois anos, e o Brasil já era três vezes campeão mundial no futebol masculino.
Enquanto a modalidade ainda se desenvolvia no país, ele teve de enfrentar os olhares inquisidores de seus vizinhos, na pequena cidade de Iretama no interior do Paraná, que não viam com bons olhos o envolvimento de uma menina com o mundo do futebol. Mesmo sendo a única menina na escolinha de futebol da qual participava, ela não se deixou abalar e com o apoio da família seguiu o jogo.
Com passagens pela Seleção Brasileira, times no Brasil e na Europa, Marina conquistou ao todo 15 títulos, sendo 10 títulos nacionais e 5 internacionais.
“Eu fui muito feliz nesses momentos […] É sempre uma emoção, né? É algo que a gente não explica, porque a gente trabalha incessantemente para estar na seleção, insistentemente, dia a dia, sol a sol”, recordou Marina.
De lá para cá, o cenário do futebol feminino no Brasil mudou. E a vida de Marina também.
Até 2030, o futebol feminino deve ser um dos cinco principais esportes do mundo até 2030, de acordo com relatório divulgado pela Nielsen Sports. A projeção aponta um crescimento de 38% na base global de fãs, o que atingiria mais de 800 milhões de pessoas. Além disso, os acordos de patrocínio para a Copa do Mundo Feminina de 2023 triplicaram em relação ao torneio de 2019.
Em julho de 2027, o Brasil sediará a 10ª edição da Copa do Mundo Feminina da FIFA pela primeira vez, tornando-se também o primeiro país sul-americano a receber o torneio.
Mas Marina não irá vivenciar esses momentos de dentro de campo: a futebolista encerrou sua carreira como jogadora em 2014. À época, com pouco mais de 30 anos de idade, elaenfrentou um novo desafio. Aposentada e sem vínculo trabalhista com o Ferroviária, clube que defendia à época, apostou em uma transição de carreira.
“A vida (enquanto atleta) é curta, entre 15 e 20 anos, até 25 anos no esporte de rendimento. Eu sempre pensei que eu deveria estudar um pouquinho mais”, revela.
De lá para cá, Marina se especializou em docência no ensino superior, fez mestrado profissional em processo de ensino, gestão e inovação e sempre direcionou suas pesquisas para o tema que amou sua vida inteira, o futebol feminino. Com tamanha bagagem, a ex-jogadora agora é também professora da Uninter nos cursos de Educação Física e secretária de esportes do município de Iretama, sua cidade natal.
Marina trouxe sua perspectiva sobre a força da mulher no futebol feminino além das quatro linhas em entrevista para o programa Papo de Arquibancada, transmitido no dia 27 de março, e apresentado por Renata Cristina da Central de Notícias Uninter (CNU). Nomes das gestoras Leila Pereira (Palmeiras) e Marianna Líbano (Coritiba) surgem como exemplos de mulheres que galgaram seus espaços dentro da prática esportiva, não por serem mais competentes que outras, mas por terem oportunidade de fazê-lo. Marina ainda credita ao desenvolvimento de políticas públicas boa parte da evolução do futebol feminino nos últimos 30 anos.
“A mulher por si só, às vezes não consegue, mas quando existe toda uma vertente institucional fazendo e alavancando isso, com certeza a mulher busca o seu espaço e ela constrói uma trajetória profissional nesse espaço”.
Para ela, tudo isso só foi possível porque sempre se preocupou com o que faria no pós-modalidade e aproveitou as oportunidades que o esporte a proporcionou:
“Quando eu fiz a minha graduação, foi por meio do futebol, eu não paguei nada. Eu fiz pós-graduação também por meio do futebol e também não paguei nada. Vivi em outros países, aprendi outras línguas, vivi em outras culturas, porque o esporte ele dá essa oportunidade”, avalia.
Durante sua transição de carreira, precisou se reconstruir enquanto profissional e se consolidar como docente, pois apesar de sua formação e especializações, não tinha experiência na área da educação. Há 10 anos como docente da Uninter, ela reconhece que as experiências na área de esporte de rendimento são valiosas e fundamentais na construção do conhecimento dos alunos da graduação, que através da partilha da sua vivência podem compreender o que acontece dentro de campo e em seus bastidores.
Em diversos pontos na sua trajetória, Marina experenciou o subdesenvolvimento da modalidade em comparação à prática masculina, desde o preconceito até as questões trabalhistas. E reconhece a causa disso na trajetória do esporte no país, que por tanto tempo privou as mulheres de acessá-lo, pois apesar de a lei focar na prática, impactava diretamente ao fomentar uma cultura de desencorajamento da presença feminina nos estádios, seja como torcedora ou profissional.
Nesse contexto, o atual momento da mulher na sociedade e no esporte se torna reflexo daquilo que historicamente lhes foi tirado e resultado de muitas lutas em diversos campos sociais. Ao apresentar essa linha do tempo, a professora reconhece que nos dias atuais podemos ver uma grande evolução em comparação à sua época de atuação, visto que atualmente a Fifa implementou políticas que enaltecem a prática feminina e obriga os clubes masculinos a ter a modalidade feminina também.
Assista à entrevista completa no canal da TV Uninter no Youtube.
Autor: Gabriela Jung - estagiária de JornalismoEdição: Larissa Drabeski



