Como a guerra no Irã desafia a supremacia global dos EUA

Autor: Madson Lopes - Assistente de comunicação

Passaram-se pouco mais de sete semanas desde o início dos ataques dos EUA e de Israel ao Irã. Desde então, a nação persa soma 3.468 mortos, segundo informações divulgadas no último dia 18/04 pela Fundação dos Mártires do Irã. Os números e a violência empregada explicam por que Trump batizou a missão de “Fúria Épica”, mas escondem o possível fracasso de sua investida militar contra o país. Pelo menos essa é a avaliação dos professores de relações internacionais da Uninter, Natali Hoff e Rafael Pons.

Durante o programa Observatório de Conjuntura, da Escola Superior de Gestão Pública, Política, Jurídica e Segurança da Uninter, veiculado no YouTube no dia 6 deste mês, os professores analisaram os cenários possíveis para o fim do conflito e como essa guerra evidencia o declínio hegemônico norte-americano.

Os Estados Unidos iniciaram os ataques ao Irã em 28 de fevereiro deste ano sob o argumento de destruir o programa nuclear do país para impedir que desenvolvessem armas atômicas. Israel integra a missão por ver uma oportunidade de enfraquecer seu principal inimigo da região. Trump afirmou que as ações poderiam inclusive derrubar o regime, caso ele fosse enfraquecido, mas não é esse o cenário que se desenha.

Embora tenha matado o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, ainda nos primeiros dias, até o momento o regime permanece sólido e sob a nova liderança do filho de Khamenei, Mojtaba Khamenei. Além disso, não há registros de manifestações populares pedindo a queda do governo, tampouco evidências de que os ataques tenham destruído o programa nuclear iraniano.

No último dia 7, os países negociaram um cessar-fogo de duas semanas e, nesta terça-feira (21/04), o estenderam por tempo indeterminado. Enquanto não chegam a um acordo, o Estreito de Ormuz — por onde passa 20% do petróleo consumido no mundo — permanece com restrições: por dentro, impostas pelo Irã, que dificulta a passagem de navios estrangeiros; e por fora, pelos EUA, que interrompem a saída de navios iranianos.

As interrupções e a instabilidade na região elevam o preço da commodity, o que, para os professores, pode provocar crises inflacionárias e impactos econômicos severos em diversos países. Para Natali, o custo de uma guerra prolongada para os EUA é ainda maior em recursos e desgaste político. Ela lembra que o aparato bélico norte-americano é feito para demonstrar capacidade tecnológica, não para ser utilizado em conflitos longos. 

“A gente está falando de aviões que custam milhões, quando não bilhões de dólares. De equipamentos, mísseis defensivos e ofensivos que são caríssimos e até mesmo lentos de se produzir, porque são muitas vezes bastante artesanais. Então você precisa saber qual é o seu fim e quais as melhores maneiras de usar o seu recurso para chegar lá. E isso não existe nesse conflito”, diz Hoff.

Se falta estratégia de um lado, do outro o Irã mostra que aprendeu a lidar com o inimigo superior. A professora explica que o país utiliza a estratégia de escalada horizontal, que consiste em fugir de um conflito bélico aberto e expandi-lo para novos campos, especialmente o econômico.

“O Estado mais poderoso, que deveria ter a escalada da guerra nas mãos, hoje não tem, porque ele depende das ações iranianas voltadas ao Golfo Pérsico e ao Estreito de Ormuz, que têm impactos econômicos e podem ter impactos políticos muito significativos para ele [Trump] em casa”, avalia Hoff.

Limite norte-americano e rearranjo global 

Para o professor Rafael Pons, esta guerra mostra que o cenário global caminha para uma transição de ordem cujas características ainda não estão totalmente definidas, mas que já expõe o declínio relativo dos EUA e o limite de sua supremacia bélica frente a potências médias.

Exemplo disso, segundo ele, é o fato de potências da região, como Egito, Arábia Saudita e Turquia, se recusarem a servir de plataforma para ataques americanos. Catar, Emirados Árabes Unidos e Iraque também se indispuseram em relação ao apoio às tropas norte-americanas. Até mesmo o Reino Unido, um dos maiores aliados da Casa Branca, recusou oferecer bases localizadas em diferentes regiões; e a Itália negou o pedido para utilização de base aérea na Sicília.

“Os americanos estão relativamente perdendo a sua capacidade de exercer hegemonia. Eles continuam com seu status de superpotência mundial, mas cada vez mais vêm perdendo a capacidade de estabelecer consensos, de promover lideranças na construção de uma ordem internacional. Na verdade, eles vêm fazendo exatamente o oposto”, explica Pons.

Nesse cenário de declínio norte-americano e surgimento de uma nova ordem global, caracterizada sobretudo por um sistema no qual o poder econômico e político está disperso entre múltiplos centros, tanto Pons quanto Natali avaliam que os países estão cada vez mais adotando estratégias pragmáticas.

“O movimento hoje dos países é de não alinhamento ativo [com nenhum polo de poder]. Basicamente, uma estratégia de sobrevivência das potências médias, tendo em vista esse ambiente internacional cada vez mais volátil”, diz Pons.

“Os Estados Unidos precisam começar a entender que eles não operam mais sozinhos dentro do contexto da ordem internacional, que eles vão ter outros Estados que vão rivalizar quando os seus interesses acabarem colidindo, como é o caso da China, que mostrou isso muito bem no tarifaço”, conclui Hoff.

Assista à análise completa dos professores no canal ESGPPJS Uninter no YouTube.

 

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Autor: Madson Lopes - Assistente de comunicação
Edição: Mauri König
Créditos do Fotógrafo: Canva IA e reprodução Youtube


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