O brilho da morte que obrigou o mundo a rever seus protocolos
Autor: Ketlyn Laurindo da Silva - Estagiária de Jornalismo
Em setembro de 1987, um dos maiores acidentes radiológicos do mundo teve início em Goiânia, após dois jovens encontrarem uma cápsula metálica abandonada entre os escombros do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Sem informação sobre o risco, o material foi levado e posteriormente vendido a um ferro-velho da região.
A cápsula continha o isótopo radioativo Césio 137, que acabou circulando por cerca de 16 dias antes de as autoridades identificarem a contaminação. Durante esse período, o material foi manuseado por diversas pessoas, provocando a disseminação da radiação e deixando um amplo número de vítimas.
Segundo dados do Governo de Goiás, sete pontos principais de contaminação de pessoas e do meio ambiente foram identificados e isolados. Cerca de 112.800 pessoas passaram por monitoramento médico, após exposição direta ou indireta ao material radioativo. Os tratamentos variaram conforme o grau de contaminação, e os primeiros óbitos ocorreram entre quatro e cinco semanas após a exposição.
Quatro mortes foram oficialmente confirmadas em decorrência do acidente: Leide das Neves Ferreira, de seis anos; Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos; Israel Batista dos Santos, de 20 anos; e Admilson Alves de Souza, de 18 anos. Os dois últimos trabalhavam no ferro-velho onde a cápsula foi desmontada.
Além das vítimas humanas, o acidente resultou em graves impactos ambientais, diversas casas localizadas nas áreas contaminadas precisaram ser demolidas durante o processo de descontaminação, e animais que tiveram contato com o material radioativo foram sacrificados por risco à saúde pública. Esses fatores evidenciaram a real dimensão da tragédia, que ultrapassou o sofrimento humano e atingiu profundamente o ambiente urbano e social da região.
O episódio do Césio 137 segue sendo referência mundial sobre os riscos do manuseio inadequado de materiais radioativos e a importância da fiscalização e do descarte correto desses resíduos.
O tema foi debatido no programa Saúde em Foco, apresentado por Barbara Carvalho, que recebeu as professoras Evelyn de Oliveira e Paola da Costa Rosa, da Escola Superior de Saúde Única (ESSU), para esclarecer os impactos do episódio e as diferenças entre acidentes radiológicos e nucleares.
Durante a entrevista, a professora Paola comparou o acidente de Goiânia com a catástrofe nuclear de Chernobyl, ocorrida em abril de 1986, na Ucrânia. Segundo a docente, apesar de ambos envolverem radiação, os eventos possuem naturezas distintas.
“A distinção é que o acidente nuclear acontece em ambiente de usina, onde há reatores nucleares. Já os acidentes radiológicos ocorrem fora das instalações nucleares, geralmente em ambientes urbanos, envolvendo fontes utilizadas na medicina, na indústria e na pesquisa”, explicou a professora.
A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) era a autoridade competente para licenciar a compra, o transporte, a produção, o uso e o descarte de fontes radioativas, conforme a Lei 6189 de 1974 em vigência no período do acidente.
“A CNEN solicitava que fosse feita uma notificação em caso de instalação, movimentações, descomissionamento, que é desativar. Mas sem aviso, não tinha fiscalização. Acabava funcionando quase como uma autorregulação. Existia uma legislação, mas que não era vista com seriedade”, explica.
A professora comenta que após o ocorrido em Goiânia, órgãos nacionais e internacionais passaram a ter um controle muito mais abrangente do que apenas era previsto em lei. Até mesmo na fabricação de equipamentos e fontes.
“Por exemplo, o Césio teve essa problemática porque ele era em formato de pó. Então, quando violaram a cápsula, o material dissipou e espalhou. Atualmente já não é mais permitido fazer esse tipo de material em forma dispersível, é permitido apenas vitrificado, metalizado ou cerâmico”, comenta.
Paola conta como na época não existia um plano de emergência para aquele tipo de calamidade, o que existia era o plano de emergência para a usina de Angra dos Reis que envolvia o Comitê de Coordenação Geral e com representantes de ministérios federais e estaduais, e grupos técnicos como o Grupo Executivo para Controle de Emergência (Gece). Assim como outros planos de contingências, porém não havia nada que previsse um evento da magnitude do que ocorreu com o césio.
De acordo com a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), o símbolo universal de perigo (trifólio), passou a ser usado como sinal de perigo radioativo no final da década de 1940.
“Achavam que era um símbolo de ventilador, hoje em dia existe outro símbolos que é o trifólio, uma caveirinha e um bonequinho correndo, demostrando o perigo da radiação”, comenta Evelyn
Ela acrescente a dificuldade que a população no geral tem em entender o risco de manusear um objeto radioativo, acrescentou também que no caso de Goiânia a peça já estava parcialmente desmontada algo que complicou a percepção dos envolvidos.
O legado de Goiânia
Quase quatro décadas depois, o caso de Goiânia segue como referência mundial quando o assunto é segurança envolvendo materiais radioativos. O episódio expôs falhas no controle desse tipo de substância e levou a uma revisão internacional das regras de fiscalização e descarte.
“Antes do acidente de 1987, as regulamentações eram frágeis no que diz respeito ao controle da radiação utilizada na medicina e na indústria em todo o mundo”, afirma Eliana Amaral, Diretora de Segurança Radiológica, de Transporte e de Resíduos da AIEA.
Faltavam mecanismos mais rígidos para rastrear esses materiais ao longo de todo o processo, da utilização ao descarte, além de medidas capazes de impedir o acesso indevido.
Após a tragédia, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) passou a adotar normas mais rigorosas e reforçou a importância da transparência na comunicação de ocorrências semelhantes. Também houve avanços nos protocolos de monitoramento, transporte, resposta a emergências e armazenamento de resíduos. As mudanças influenciaram diferentes países e impulsionaram discussões sobre a substituição gradual de materiais de maior risco, como o cloreto de césio utilizado em alguns equipamentos médicos. Apesar dos avanços, especialistas apontam que ainda existem desafios, principalmente pela dificuldade de encontrar alternativas igualmente eficazes para determinadas aplicações.
Em tempo
Atualmente a Secretaria do Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), através do Centro de Excelência em Ensino, Pesquisas e Projetos Leide das Neves Ferreira (CEEPP-LNF), realiza o monitoramento dos transtornos crônicos das 1.143 pessoas classificadas como vítimas do acidente com o Césio 137. Assim como as seis mil toneladas de rejeitos radioativos, que hoje estão armazenados em depósitos em Abadia de Goiás.
Assista ao programa completo no canal do YouTube da TV Uninter.
Autor: Ketlyn Laurindo da Silva - Estagiária de JornalismoEdição: Larissa Drabeski
Créditos do Fotógrafo: Governo de Goiás





