Migração venezuelana muda a rotina das escolas públicas de Boa Vista (RR)
Autor: Madson Lopes - Assistente de Comunicação
Fugindo de uma longa crise econômica, todos os anos centenas de famílias venezuelanas cruzam a fronteira do Brasil e se estabelecem em Boa Vista, Roraima. As crianças e adolescentes que migram com elas precisam atravessar outra fronteira caso queiram permanecer na escola: a da língua – um desafio que envolve, além do esforço próprio, a necessidade de preparar as escolas municipais, destino da maior parte desse público.
Em sua pesquisa vinculada ao Programa de Pós-Graduação de Doutorado Profissional em Educação e Novas Tecnologias da Uninter, Francisca Silva e Silva, 38 anos, investigou como as escolas municipais de Boa Vista vêm se adaptando a essa realidade e de que forma os professores do 1º ano do ensino fundamental utilizam recursos digitais para auxiliar na alfabetização e integração dos alunos.
Para esses, os desafios à educação já começam pelo acesso. Embora Boa Vista tenha registrado um crescimento de 18,3% no número de escolas públicas entre 2019 e 2025 (22 unidades a mais), a pesquisa mostra que, no último ano, cerca de 1.400 crianças e adolescentes imigrantes venezuelanos em idade escolar, abrigados na Operação Acolhida, estavam fora da rede de ensino.
Criada pelo governo federal em 2018, a Operação Acolhida presta assistência humanitária aos migrantes e refugiados venezuelanos em situação de vulnerabilidade. Contudo, o acesso à escola depende da capacidade da rede pública de ensino. De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), que acompanha a situação, a falta de vagas, de transporte público escolar e de informações às famílias, além do excesso burocrático na efetivação das matrículas, estão entre as causas de tamanha evasão escolar. Dados analisados na tese mostram que Boa Vista absorveu 186.490 imigrantes venezuelanos entre 2010 e julho de 2025.
*Os dados de 2025 são do primeiro semestre.
Na sala de aula, os desafios vão desde barreiras linguísticas até questões de infraestrutura e vulnerabilidade social extrema. Para a tese, Francisca entrevistou 23 pessoas, entre professores, coordenadores pedagógicos e gestores de duas escolas públicas municipais, e ouviu diferentes relatos sobre como lidam com a situação.
Sala de aula de Babel
Cabe ao migrante aprender a língua do país para onde se muda. Mas o trabalho de Francisca questiona como lidar com essa situação em contextos migratórios desencadeados por crises humanitárias. De que forma uma cidade deve agir ao receber um grande contingente de pessoas em tão pouco tempo? Na ponta, esse é o desafio e a essência dos questionamentos dos professores ouvidos pela pesquisadora.
“Das turmas em que eu ministro aula, a gente tem percentuais superiores a 60%, 70% de alunos que são imigrantes”, disse um dos entrevistados, avaliando que a maior dificuldade de comunicação parte mais dos professores do que dos alunos, pois estes compreendem com mais facilidade o português. Mas, no caso de alunos em período de alfabetização (crianças de 6 anos, em sua maioria), é necessário ensinar tudo do zero: “Porque eles não falam a língua. Então a gente tem que ensinar a falar, a escrever e a ler”, disse outro entrevistado.
Há relatos ainda de quem pede ajuda das próprias crianças para auxiliar na interpretação. “Quem consegue já se comunicar melhor na língua portuguesa ajuda aquele [que não consegue]. Eu mesma peço ajuda a eles: ‘vai lá, fala com ele em espanhol para mim’”, revelou uma professora. A situação escancara a necessidade da inserção do ensino bilíngue, que no país está restrito às escolas privadas e ao ensino da língua inglesa.
A pesquisa mostra que há algumas iniciativas nesse sentido, mas pontuais e de cunho geral. A Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC) oferece capacitações sobre como trabalhar com o público migrante. Mas não existe na rede de ensino um programa institucional estruturado de capacitação para o ensino do espanhol ou para o bilinguismo voltado aos professores.
Para além das dificuldades pedagógicas, esses profissionais convivem diariamente com a vulnerabilidade desse público, o que também transforma o ambiente escolar. Uma professora relatou que a maioria dos alunos migrantes de sua turma vive em um dos abrigos da Operação Acolhida na cidade. “São crianças que às vezes vêm sem comer, porque não deu tempo. Ela ficou na fila para comer, não deu tempo, veio assim mesmo […] foi para a fila de tomar banho, não deu tempo de tomar banho, vem suja.”
Tecnologia do encontro
Diante desse cenário, Francisca propôs em sua tese o que chamou de Framework de Intersecção. É uma proposta que conecta, em seis categorias, práticas pedagógicas, uso intencional das tecnologias e suporte institucional para garantir uma educação mais qualificada e inclusiva. Um dos pilares estabelecidos diz respeito ao acolhimento sistemático. A pesquisadora defende que a criança e sua família precisam se sentir seguras e pertencentes ao novo ambiente antes que lhes sejam cobrados conteúdos.
Frente à barreira linguística, a tese articula, entre outros pontos, uma proposta voltada à obrigatoriedade de tradutores e intérpretes de espanhol para apoio diário; também à oferta de cursos voltados ao contexto do refúgio e ao ensino bilíngue, capacitando não apenas docentes, mas todo o corpo administrativo. Softwares educativos em português e espanhol, além de recursos multissensoriais que traduzem fonemas e conceitos abstratos em imagens, também entram para somar ao trabalho desses professores.
Em grande medida, as escolas já estavam improvisando soluções parecidas. Na tese, Francisca mostra, por exemplo, professores utilizando Smart TVs, Data Shows e Chromebooks para projetar vídeos com traduções simultâneas, além de aplicativos de jogos educativos. Mas são iniciativas isoladas. O Framework, no entanto, sistematiza essas práticas a fim de nortear políticas públicas e orientar escolas de fronteira. “O que o trabalho fez foi trazer a voz desses professores sobre essas práticas que já acontecem”, disse a pesquisadora.
Nascida em Bom Jardim, no Maranhão, aos 10 anos Francisca mudou-se com sua família para Boa Vista. Graduada em Pedagogia, ela assiste há quase três décadas ao entra e sai de imigrantes, por vezes se sentindo parte deles. Essa experiência norteou toda a sua trajetória acadêmica e seu olhar para a educação.
Servidora pública no cargo de pedagoga da Universidade Federal de Roraima, no mestrado, debruçou-se sobre a formação da identidade de professores que atuam em áreas rurais. Em 2022, quando ingressou no doutorado profissional da Uninter, não teve dúvidas de que iria investigar a realidade dos professores de sua região frente a crise migratória.
No dia 29 de abril, fez um trajeto que muitos venezuelanos que passam por sua região também fazem todos os anos: a linha aérea entre Boa Vista e Curitiba. Acompanhada da mãe e do padrasto, ela defendeu, na sede da Uninter — Unidade Batel, sua tese intitulada “Panorama das Práticas Docentes sobre a Utilização de Tecnologias no Trabalho com Alunos Imigrantes e Refugiados do 1º Ano do Ensino Fundamental em Boa Vista-RR”.
“Foi muito emocionante. Quatro anos de trabalho intenso, difícil segurar as lágrimas”, disse, emocionada. “Esse momento presencial foi importante para marcar minha passagem de doutoranda para doutora. Espero que o título possa trazer muitas oportunidades. Agregou muito conhecimento pessoal e para a comunidade acadêmica.”
Autor: Madson Lopes - Assistente de ComunicaçãoEdição: Larissa Drabeski
Créditos do Fotógrafo: Kauã de Freitas









