Dia das Mães: a cultura empresarial inclusiva precisa olhar para as mães atípicas
Autor: *Rosemary Domingues Suzuki
No Dia das Mães empresas costumam celebrar histórias inspiradoras e reforçar discursos sobre valorização da maternidade. Mas, passada a data, uma pergunta permanece: que apoio real o mundo do trabalho oferece às mães quando a maternidade foge do padrão romantizado?
Falar de cultura empresarial inclusiva de verdade, como exige o avanço do debate sobre ESG, implica ir além das homenagens e encarar uma realidade ainda pouco discutida: a das mães atípicas, as mulheres que cuidam de crianças com deficiência, autismo ou condições de saúde e desenvolvimento que exigem acompanhamento contínuo. Elas estão nas empresas, nos times e nas lideranças intermediárias, mas seguem amplamente invisíveis nas políticas corporativas.
Os dados ajudam a dimensionar essa realidade. Segundo a ONU Mulheres, no Brasil as mulheres dedicam o dobro de horas ao trabalho de cuidado não remunerado em comparação aos homens, mesmo quando estão no mercado formal. Essa desigualdade se intensifica quando há uma criança com deficiência ou condição crônica na família. O Censo TEA Brasil 2022, do Instituto Lagarta Vira Pupa, revela que mais de 80% das mães de crianças autistas são as principais ou únicas cuidadoras, acompanhando rotinas intensas de terapias e consultas, geralmente em horário comercial. Soma-se a isso o dado da PNADC/IBGE, que aponta mais de 11 milhões de lares chefiados por mães solo no país.
Não se trata de falta de comprometimento profissional. Trata-se de um modelo de trabalho que não foi desenhado para a realidade dessas famílias e a invisibilidade tem custo. Estudos indicam que mães de crianças com deficiência têm maior probabilidade de reduzir jornada ou deixar o emprego, enquanto pesquisas na área da saúde apontam níveis elevados de exaustão emocional entre cuidadoras. Para as empresas, isso se traduz em perda de talentos, aumento do turnover, absenteísmo e contradição entre discurso e prática no ESG social.
Nesse contexto, é preciso afirmar com clareza: flexibilidade não é privilégio, é estratégia de inclusão. Publicações da Harvard Business Review mostram que ambientes mais flexíveis apresentam melhores níveis de engajamento, produtividade e permanência. Para mães atípicas, flexibilidade é condição para continuar trabalhando.
Empresas que avançam nessa agenda adotam práticas como flexibilidade real de horário, trabalho remoto por necessidade familiar, planos de saúde com cobertura ampliada, ajustes de agenda em períodos críticos, apoio psicológico e capacitação de lideranças. Nada disso exige romper com a legislação brasileira, mas exige maturidade na gestão de pessoas e coerência com o ESG social.
Celebrar o Dia das Mães sem discutir essas condições é manter a inclusão no campo do simbólico. Essas mulheres não pedem privilégios; pedem condições de trabalho que não penalizem a existência de filhos com deficiência, autismo ou condições que exigem acompanhamento contínuo.
Talvez o maior gesto que as empresas possam fazer nesta data seja transformar homenagens em políticas e discursos em prática.
*Rosemary Domingues Suzuki é administradora, pós-graduada em Gestão Internacional, Gestão da Qualidade, Educação Superior e Liderança e Desenvolvimento humano e ESG. É gerente de Projetos Sociais do IBGPEX, na Uninter. Coordenadora Voluntaria da campanha O Amor Contagia realizada em 2020 para a arrecadação de fundos para enfrentamento à COVID-19 no estado do Paraná.
Autor: *Rosemary Domingues SuzukiCréditos do Fotógrafo: Pexels


