O assédio velado: quando o silêncio também agride

Autor: * Karla Kariny Knihs Krefer

Mariana levou semanas preparando aquela ideia. Na reunião da equipe, levantou a mão para apresentá-la, mas não conseguiu terminar a frase. “Depois a gente vê isso”, disse um colega. Minutos depois, outro funcionário apresentou praticamente a mesma proposta. Desta vez, todos ouviram com atenção. Houve comentários, elogios, sem gritos ou insultos. Ainda assim, algo ali era violência. Ela saiu da reunião com aquela sensação difícil de explicar, como se tivesse sido diminuída diante de todos, mas sem conseguir apontar exatamente o que havia acontecido.

Situações como essa acontecem todos os dias nos ambientes de trabalho e, na maioria das vezes, passam despercebidas. Não deixam marcas evidentes, não provocam escândalos e raramente aparecem em registros formais. Ainda assim, podem representar uma forma de violência organizacional, também conhecida como assédio velado.

Diferentemente do assédio aberto, que se manifesta de maneira explícita, o assédio velado opera por meio de atitudes sutis e aparentemente banais. Entre os sinais mais comuns estão a interrupção constante da fala de um colega, a desvalorização recorrente de suas ideias, comentários irônicos sobre sua capacidade profissional, a exclusão de reuniões ou decisões relevantes e até a atribuição sistemática de tarefas irrelevantes, que reduzem sua participação no grupo.

Isoladamente, cada um desses comportamentos pode parecer trivial. O problema surge quando se tornam repetitivos. Ao longo do tempo, pequenas atitudes passam a construir um ambiente de trabalho hostil, no qual a vítima é gradualmente deslegitimada diante dos demais.

Esse processo costuma produzir um efeito particularmente perverso: a dúvida. A pessoa passa a questionar a própria percepção. Pergunta se interpretou mal a situação, se está exagerando ou se o problema, afinal, está nela mesma. É justamente essa ambiguidade que torna o assédio velado tão difícil de identificar e, sobretudo, de denunciar.

As consequências, porém, são concretas. Ambientes profissionais marcados por práticas abusivas podem gerar ansiedade, queda de autoestima, insegurança no desempenho das atividades e, em casos mais graves, quadros de esgotamento emocional e depressão.

Para o trabalhador, um dos maiores desafios é a produção de prova. Como o assédio velado raramente ocorre de forma explícita, torna-se fundamental registrar episódios sempre que possível: guardar mensagens, anotar datas e situações ocorridas e identificar eventuais testemunhas. Esses registros podem ser decisivos caso seja necessário formalizar uma denúncia.

Também é essencial buscar apoio. Conversar com colegas de confiança, procurar o setor de recursos humanos ou utilizar canais internos de denúncia são caminhos que ajudam a romper o isolamento frequentemente vivido por quem enfrenta esse tipo de situação. Ainda assim, a responsabilidade não pode recair apenas sobre quem sofre a violência.

O assédio velado não é apenas um problema individual; é, sobretudo, um problema cultural. Combatê-lo exige políticas institucionais claras de prevenção, códigos de conduta efetivos, treinamentos sobre comportamento profissional e canais seguros para o relato de práticas abusivas. Ambientes de trabalho saudáveis não se constroem apenas pela ausência de conflitos, mas pela presença ativa do respeito.

E, muitas vezes, o primeiro passo para isso é aprender a enxergar aquilo que, por muito tempo, foi tratado como invisível. Reconhecer o assédio velado é o primeiro passo para combatê-lo.

Quando pequenas agressões cotidianas deixam de ser naturalizadas, abre-se espaço para ambientes de trabalho mais saudáveis, colaborativos e verdadeiramente profissionais.

Karla Kariny Knihs Krefer é advogada trabalhista e professora da Escola Superior de Gestão Pública, Política, Jurídica e de Segurança da Uninter.

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Autor: * Karla Kariny Knihs Krefer
Créditos do Fotógrafo: Pexels


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