Do céu de Barcelona ao chão de Pernambuco: o que é grandeza na arquitetura?
Autor: * Andressa Muñoz Slompo
Na cidade de Barcelona, na Espanha, a icônica obra da Sagrada Família recebeu uma importante atualização: um guindaste instalou a última peça de uma cruz branca no topo da torre que representa Jesus Cristo, o que deixou a igreja com uma altura total de 172,5 metros, tornando-se a mais alta do mundo. Enquanto isso, do outro lado do oceano, uma casa simples no interior de Pernambuco, no Brasil, ganhou destaque internacional ao vencer o Building of the Year 2026, uma importante premiação da arquitetura, definida por voto popular. O que essas duas obras arquitetônicas têm em comum? O que, para nossa sociedade, significa “grandeza” quando falamos em arquitetura?
A construção da Sagrada Família começou em 1882, tendo como um de seus principais arquitetos Antoni Gaudí. A instalação da última torre representa um marco técnico, mas também simbólico, principalmente porque o ano de 2026 marca o centenário da morte de Gaudí. Em cada detalhe de sua minuciosa arquitetura, a igreja conta a história de Jesus, e até a sua altura foi calculada de forma que fosse o maior ponto da cidade, porém, sem que ultrapassasse a altura dos maiores morros da região, para que a obra do homem não fosse maior do que a da natureza. É pura poesia em forma de edificação.
Já o prêmio internacional Building of the Year 2026, do ArchDaily, um dos maiores portais de arquitetura no mundo, colocou o Brasil em evidência, com uma obra do tamanho da vida real. Com mais de 120 mil votos oriundos de mais de 100 países, a Casa de Mainha (Mom’s House), do Studio Zé, venceu na categoria “Houses” justamente por ser simples e eficiente, apostando em maior conforto, menor gasto e com objetivo claro de melhorar a qualidade de vida de quem mora ali. Por se localizar em uma região de clima quente, ao invés de depender de soluções caras, a residência foi reformada com estratégias simples para fazer o ar circular melhor, deixar a casa mais clara e fresca com o uso eficiente de janelas, sombras, priorizando materiais locais e soluções de baixo custo de manutenção.
E é aí que as duas histórias se encontram. De um lado, a grandeza é medida em metros na paisagem da cidade, e, de outro, ela é mensurada em bem-estar, saúde, economia e dignidade no dia a dia. Vale a provocação: por que admiramos tão rápido o que é monumental, mas demoramos a valorizar o que melhora a vida de forma silenciosa, especialmente em países quentes e desiguais, onde uma casa mais fresca e ventilada chega a ser questão de saúde e qualidade de vida?
Basta olhar os demais projetos vencedores do prêmio do ArchDaily, em sua maioria são obras arquitetônicas modernas e com características visuais bem marcantes e diferentes do padrão que costumamos ver nas paisagens das cidades brasileiras, em oposição ao vencedor brasileiro. Se a Sagrada Família nos faz olhar para cima, a Casa de Mainha nos convida a olhar para dentro, para o ar que circula, a luz que entra e a casa que funciona. E isso, mais do que arquitetura, é conversa sobre futuro, cidade e qualidade de vida. Faça o teste na sua cidade, no que mais te chama a atenção na arquitetura: o impacto visual ou o impacto na vida real?
*Andressa Muñoz Slompo é Arquiteta e Urbanista, especialista em Arquitetura Sustentável e coordenadora de cursos de Pós-graduação em Arquitetura e Design na Uninter.
Autor: * Andressa Muñoz SlompoCréditos do Fotógrafo: Rodrigo Leal/Banco Uninter e Chait Goli/Pexels


