A vantagem começa no berço: por que o futuro da IA depende das nossas crianças

Autor: Olívia Resende*  

O relatório Futuro dos Empregos 2025 aponta que algo em torno de 92 milhões de postos de trabalho – cerca de 8% da força de trabalho mundial de hoje – podem desaparecer até 2030. A principal razão seria o avanço da automação e o uso cada vez mais intenso de inteligência artificial em atividades que antes eram feitas por pessoas.

Enquanto o mundo debate os impactos da inteligência artificial nas profissões e na economia, um ponto decisivo tem recebido menos atenção que é o desenvolvimento das crianças.

O relatório The Human Advantage: Stronger Brains in the Age of AI, do World Economic Forum em parceria com o McKinsey Health Institute, publicado em janeiro de 2026, desloca o foco da tecnologia para o cérebro humano, e afirma que a verdadeira vantagem competitiva começa na infância.

O estudo apresenta o conceito de brain capital, que integra saúde cerebral e habilidades cognitivas e socioemocionais como ativos econômicos estratégicos. No caso das crianças, o argumento é direto, investir cedo gera os maiores retornos.

Evidências citadas no relatório indicam que cerca de metade dos transtornos mentais se manifesta até os 14 anos, o que reforça a importância da prevenção e do cuidado precoce. Além disso, condições relacionadas ao cérebro representam aproximadamente 24% da carga global de doenças, segundo estimativas consolidadas. Ignorar a infância significa perpetuar custos sociais e econômicos no futuro.

A neurociência já demonstrou que os primeiros anos de vida são marcados por intensa plasticidade cerebral. Pesquisadores como James Heckman, prêmio Nobel de Economia, vêm defendendo há décadas que investimentos na primeira infância apresentam taxas de retorno superiores às realizadas em etapas posteriores da vida.

O relatório converge com essa visão ao tratar saúde mental, nutrição adequada, ambiente seguro e estímulos consistentes não apenas como políticas sociais, mas como estratégia macroeconômica.

Outro ponto central é o desenvolvimento das chamadas brain skills: autorregulação, pensamento crítico, criatividade, flexibilidade e capacidade de aprender continuamente. Em um cenário de automação crescente, e onde a Inteligência Artificial tende a dominar, essas competências se tornam ainda mais valiosas.

A inteligência artificial pode processar dados, mas não substitui empatia, julgamento ético e capacidade de adaptação. E essas habilidades começam a ser construídas na infância, nas rotinas organizadas, nas interações familiares e na qualidade das experiências escolares.

Defendo que o relatório acerta ao recolocar a criança no centro da agenda econômica. Se queremos sociedades mais produtivas e resilientes, precisamos tratar a infância como prioridade estratégica. Isso implica ampliar políticas de saúde mental, apoiar famílias, qualificar a educação infantil e promover ambientes seguros e estimulantes.

A tecnologia continuará avançando em ritmo acelerado. A pergunta é simples e urgente: estamos investindo com a mesma seriedade no desenvolvimento das crianças que irão viver, e liderar, esse futuro?

*Olívia Resende é especialista em Educação Financeira, Economista, mestre e doutora em Administração, além de professora do Centro Universitário Internacional Uninter.

 

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Autor: Olívia Resende*  
Créditos do Fotógrafo: Rodrigo Leal/Banco Uninter e Imagem gerada por IA/Microsoft Copilot


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