Mounjaro, perucas e redes sociais: quem está no controle dos seus desejos?
Autor: Sheron Mendes*
O que poderia existir em comum entre um rei francês do século XVIII e um medicamento contemporâneo usado para emagrecimento? À primeira vista, absolutamente nada. No entanto, ambos denotam a forma como nossos desejos são moldados socialmente.
No século XIX, o filósofo Arthur Schopenhauer formulou uma observação que continua desconfortavelmente atual. No ensaio “Sobre a Liberdade da Vontade”, ele afirma que o ser humano pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer. Em outras palavras, acreditamos escolher nossos desejos, mas muitas vezes apenas respondemos a forças que surgem antes da reflexão consciente.
Décadas depois, o pensador francês René Girard ofereceu uma explicação para esse fenômeno. Segundo sua teoria do desejo mimético, os seres humanos não desejam objetos de forma isolada. Desejam aquilo que veem outras pessoas desejar. Não são os objetos ou “coisas” em si, mas sim o que elas representam. Não é o Mounjaro, ou o Labubu, os livros de colorir Bobbie Goods, mas sim o que eles simbolizam, o status e pertencimento atrás deles.
Quando Luís XIV, associado ao refinamento e ao poder de Versalhes, adotou o uso de grandes perucas, o acessório rapidamente se tornou símbolo de status. A nobreza passou a imitá-lo. Em seguida, a burguesia. Em pouco tempo, a peruca havia se espalhado por toda a sociedade europeia. O que começou como distinção transformou-se em padrão. E quando todos passaram a usar peruca, o símbolo perdeu sua função original.
Esse mesmo processo se repete hoje em uma escala incomparavelmente maior. A diferença é que, no lugar da corte de Versalhes, temos as redes sociais. E no lugar de um rei, temos sistemas algorítmicos capazes de amplificar determinados modelos de comportamento.
A economia digital é organizada em torno da atenção. Plataformas repetem imagens, narrativas e estilos de vida que geram engajamento. O economista Robert Shiller descreve esse fenômeno como caixas de ressonância sociais, ambientes onde ideias e tendências são continuamente reforçadas até se tornarem dominantes.
Quando milhões de pessoas são expostas repetidamente às mesmas referências visuais, surge um fenômeno cultural conhecido como convergência: diferentes indivíduos passam a perseguir o mesmo ideal. Corpos, rostos e estilos de vida começam a se aproximar de um padrão comum.
Se no passado a imitação social já influenciava comportamentos, a cultura digital transformou esse processo em algo contínuo e amplificado. Aquilo que antes se espalhava lentamente agora circula em escala planetária. A história das perucas de Versalhes mostra como símbolos sociais nascem, se expandem e perdem significado quando se tornam universais. A diferença contemporânea é que hoje, os ciclos culturais possuem uma velocidade de mudança e alcance absurdas.
Quando desejos são continuamente moldados dentro das mesmas caixas de ressonância digitais, a diversidade simbólica diminui. E, sem diversidade, a criatividade começa a enfraquecer.
A distância entre Luís XIV e o feed das redes sociais pode parecer grande. Na prática, ela manifesta apenas duas versões do mesmo fenômeno: a tendência humana de desejar aquilo que todos estão aprendendo a desejar. E quando todos passam a desejar o mesmo, dissolve-se, pouco a pouco, uma das forças mais férteis da experiência humana: a singularidade.
(*) Sheron Mendes é Bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em Educação na UNINTER.
Autor: Sheron Mendes*Créditos do Fotógrafo: Banco Uninter e cottonbro studio/Pexels


