Ritmos que reconectam corpo, ancestralidade e resistência

Autor: Icaro Palha - estagiário de jornalismo

Se a palavra falada é o fio que tece a memória, o corpo negro é o território onde essa história ganha movimento e ritmo. Nas tradições de matriz africana, a separação entre mente e corpo é inexistente: a dança, o toque do tambor e o gesto são linguagens tão sofisticadas quanto a escrita, funcionando como tecnologias de preservação de existência.

É sob essa perspectiva que o segundo episódio de Sankofa – O Futuro é Ancestral, série especial do programa Papo Castiço da TV Uninter, mergulha nos universos da música e da dança em Curitiba. O programa revela como o Maracatu, o Samba e os Bailes Black se configuram como portais de memória, capazes de reconectar o presente às raízes interrompidas pelo processo de colonização.

Para a professora e pesquisadora de samba Juliana Barbosa, essas manifestações ocupam o lugar de espaços de sociabilidade fundamentais para a reconstrução de uma comunidade que foi historicamente dilacerada. Segundo ela, se o ensino formal muitas vezes reproduz o memoricídio – o apagamento sistemático da cultura de um povo – ao ignorar o protagonismo negro, o samba surge como contranarrativa política e pedagógica. “O samba conta outra história”, afirma Juliana, ao lembrar que, enquanto livros didáticos celebravam a benevolência da abolição, as escolas de samba já denunciavam o racismo estrutural e celebravam a beleza da negritude sob uma ótica afirmativa e soberana.

Essa função de escola de vida também se reflete no Maracatu de Baque Virado. Segundo Rodrig Melo, presidenta do Maracatu Aroeira, a manifestação é uma herança direta das coroações de reis e rainhas do Congo, mantida viva pela irmandade negra. Além da percussão e da dança, o grupo funciona como um centro de capacitação e apoio mútuo. “Virar o baque é dobrar, é inventar em cima do básico”, explica Rodrig, reforçando que a prática fortalece o indivíduo mental e espiritualmente.

Yohana Rosa, porta-estandarte do grupo, complementa essa visão ao descrever a dança como um estado de criação que celebra a vida em espaços, por vezes, negada. Para ela, o toque do tambor possui uma dimensão temporal profunda: “quando o tambor toca, ele não está só chamando as pessoas que estão circulando, está chamando a ancestralidade também”. A música e o festejar aparecem também como ferramentas de cura e emancipação nos ambientes urbanos contemporâneos.

Brenda Santos, idealizadora de “Um Baile Bom”, define os bailes black como tecnologias ancestrais que criam “brechas no tempo”.Em Curitiba, onde a invisibilidade da população negra ainda é um desafio, esses eventos surgem como espaços seguros de liberdade e construção de autoestima. “A trilha serve para embalar o corpo que está abrindo esse portal da memória”, afirma Brenda, destacando que o gesto da dança, assim como no Candomblé, conta uma história e permite que o corpo negro ocupe seu lugar de direito, com dignidade e alegria.

Para mergulhar nessas narrativas de resistência e celebração, assista à adição completa deste e dos demais episódios da série Sankofa – O Futuro é Ancestral disponível no canal da TV Uninter no Youtube.

 

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Autor: Icaro Palha - estagiário de jornalismo
Edição: Larissa Drabeski


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