Os mitos e as verdades sobre quem vive com a dislexia

Autor: Nayara Rosolen - Estagiária de Jornalismo

A dislexia é um transtorno de aprendizagem específico de leitura e escrita, a dificuldade está em compreender e reconhecer os símbolos gráficos, em memorizar o que se lê e automaticamente em escrever. Isso gera obstáculos no momento dos estudos e o ato de aprender se torna um desafio ainda maior para essas pessoas.

“São problemas de transmissão neuroquímica, ou seja, é uma comorbidade que acontece no processo cerebral, mas em pontos do cérebro, porque é importante a gente lembrar que a aprendizagem não acontece em uma única área. E quando esse processo neuroquímico não acontece, ele simplesmente faz com que essa criança tenha esse distúrbio para ler e escrever”, explica a professora Karyn Lemos, da Escola Superior de Educação da Uninter.

Muitas vezes o distúrbio é confundido com outros como a discalculia, dificuldade de aprendizagem matemática, a disgrafia, alteração da escrita, entre outros. Também é erroneamente visto como falta de inteligência, rotulando essas pessoas com palavras pejorativas como “burras”, “preguiçosas” ou mesmo “inconsequentes”. Mas a verdade é que a inteligência é normal, os aspectos motores são normais, essas pessoas apenas levam um tempo maior de assimilação.

Por esses e outros motivos, o diagnóstico efetivo não é fácil, além de poder ter outras comorbidades agregadas. É necessária uma investigação feita por profissionais qualificados e específicos da área. E isto pode ser feito de duas formas. Primeiro pelo psicopedagogo institucional, que trabalha na escola e não faz uma ação individual, mas sim com toda a turma, criando vínculo, desenvolvendo um processo com atividades lúdicas e observando ações das crianças no dia a dia, que podem apontar essa dificuldade.

Em um segundo momento, caso haja a identificação do problema em uma criança em especial que não consegue acompanhar, ela é encaminhada para um psicopedagogo clínico, que vai fazer uma ação interventiva a partir de uma avaliação diferenciada, com instrumentos clínicos, apoio de uma equipe multidisciplinar para chegar a um diagnóstico e aí o início de uma intervenção para o ensino de acordo com as necessidades daquele indivíduo.

“Essa avaliação envolve questões cognitivas, emocionais, psicomotoras, para saber onde é que estão essas deficiências da criança, mas não só as deficiências. Uma das intervenções que a gente tem que pensar dentro da sensibilidade como educador de compreender isso, é principalmente entender quais são as potencialidades dessa criança, desse jovem, porque um dos problemas da dislexia está na autoestima”, pontua Karyn.

Essa baixa autoestima pode somar a outros transtornos psicológicos, ao perceber que é diferente das outras crianças, quando não tratada de maneira adequada. A criança em processo de alfabetização que possui dislexia é muito visual, então é necessário trabalhar com materiais em que a criança possa visualizar e fazer conexão da imagem com a escrita. Muito importante o uso de outros suportes que não só a leitura, como o áudio, a música, os jogos, as imagens de vídeos e animações. Tudo isso para o incentivo da aprendizagem.

“É um mito dizer que uma criança com dislexia nunca vai aprender a ler. Ela vai aprender a ler, só que ela tem o tempo dela, e se o professor não trabalha a flexibilização curricular e a adaptação para que a gente possa trabalhar essas dificuldades também na escola, em conjunto com a família, fica muito difícil”, afirma a profissional.

Segundo Karyn, não é um processo muito rápido, mas a partir do momento que está sendo investigado, atividades já podem começar a ser trabalhadas. Não é necessário um laudo na mão para uma ação quando uma dificuldade já é percebida. “O laudo é apenas consequência e aí a gente precisa ver se tem outras comorbidades envolvidas. Tudo isso passa por uma avaliação psicopedagógica”.

Há também o caso de diagnósticos tardios, quanto o indivíduo já passa pela fase adolescente ou até adulta, pois este é um assunto que não se discutia e muito menos se trabalhava há algumas décadas.

A professora indica o filme “Como letras na terra” para aqueles que querem entender como é a vida de uma pessoa com dislexia. O longa indiano de 2007 conta a história do menino Ishaan que sofre do transtorno, mas nem a escola e nem a família conseguem enxergar o que acontece para tamanha dificuldade nos estudos, dando severas punições. Até que o professor Nikumbh descobre, por também ter passado pelo mesmo, e o ajuda tomando um rumo diferente.

Karyn ainda cita várias personalidades muito inteligentes que tiveram dislexia e ainda assim se tornaram mundialmente reconhecidas por seus trabalhos, como o físico Albert Einstein, o artista Leonardo Da Vinci, os inventores e empresários Steve Jobs e Thomas Edison, entre outros. Provando que o estigma de que pessoas com dislexias não possuem inteligência é uma inverdade.

“Vamos valorizar essas pessoas, não vamos simplesmente rotular. Todo mundo tem essa mesma potencialidade, inclusive quem tem dislexia. Sabendo trabalhar de uma forma correta, com observação, com boa intervenção, com profissionais competentes para isso, com certeza essa criança tem a tendência de ter uma qualidade de vida muito maior, tanto socialmente, quando psicologicamente e até mesmo profissionalmente”, finaliza.

O tema foi assunto central de uma live transmitida na página do Facebook da Escola Superior de Educação da Uninter e que continua disponível para os interessados, com o título Intervenções psicopedagógicas em crianças com dislexia.

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Autor: Nayara Rosolen - Estagiária de Jornalismo
Créditos do Fotógrafo: Gerd Altmann/Pixabay


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