DIREITOS E CIDADANIA

Negra, cega e com uma voz de resistência para transformar

O Fórum Social Mundial (FSM) acontece todos os anos desde 2001 no Brasil e mobiliza entidades e movimentos sociais do mundo todo. O encontro promove a discussão de assuntos de interesse público, de forma a possibilitar debates aprofundados, troca de ideias e a busca por soluções para problemas sociais globais. A edição de 2018 do Fórum, que aconteceu de 13 a 17 de março em Salvador (BA), trouxe o lema “Resistir é criar, resistir é transformar”.

Entre as expositoras desta edição estava a técnica de enfermagem Leila Lima, representando o Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e de Baixa Visão. Ela passou a fazer parte da organização por ser cega do olho direito e de um glaucoma no olho esquerdo, que vem se acentuando nos últimos dois anos. Por causa do agravamento da doença, Leila começou a fazer o acompanhamento de operação e mobilidade para tentar se adequar à perda visual gradativa que vinha sofrendo.

Para se preparar da melhor forma para o Fórum Social Mundial, ela procurou o Instituto Paranaense de Cegos, onde fez algumas adaptações e um curso de braile. Leila conta que, no começo da adaptação, chegou a ser questionada por familiares e amigos que viam de forma pessimista essa procura por ajuda. Mas ela estava decidida.  “Tenho que me preparar para o meu futuro. Eu nunca vi uma pessoa de baixa visão recuperá-la, mas vejo com frequência elas ficarem cegas”, destaca.

Foi a partir desse momento que ela começou a procurar por mais questões ligadas à inclusão. Leila, que é também aluna do curso de Ciência Política da Uninter, conheceu o FSM através das mídias sociais e do Morhan (Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase), do qual faz parte desde 2009. Ela conta que recebeu o convite para participar do Encontro Nacional do Movimento de Mulheres Cegas em dezembro de 2017, também em Salvador, e que isso a levou a participar do fórum.

A estudante comentou que no encontro houve muita troca de conhecimentos, o que a preparou para o FSM. Já no fórum, ela participou de alguns grupos de trabalhos relacionados à saúde, à mulher e ao 8M, onde seu foco era relacionado às pessoas com deficiência. Leila também conta que o Fórum Social acontece em contraponto ao Fórum Econômico Mundial e busca o enfrentamento à globalização e ao neoliberalismo, e a discussão de políticas públicas. “Você vê ali questões sociais do mundo inteiro sendo debatidas. Pessoas da região árabe discutindo a sobre a guerra, petróleo. Os indígenas, com crescimento do agronegócio e madeireiras. Enfim, pessoas ligadas a todas as situações sociais”, completa.

Nada sobre nós, sem nós!

O Fórum Social Mundial  busca um futuro cheio de possibilidades e mudanças. Um governo democrático que discuta políticas públicas com a participação do povo. Seu lema, ‘Um novo mundo possível’, traz a esperança daqueles que acreditam na transformação social por meio da ação conjunta.“A gente tem nesses espaços a oportunidade de levar qual é a verdade dentro de cada problema social. É uma soma de questões a ser enfrentada”, diz Leila.

Após debater várias propostas, Leila propôs que levassem as ideias adiante e, em conjunto com os participantes da tenda que discutia inclusão, elaboraram  a Carta de Salvador. “Essa carta pontua todas as questões que o fórum se manifesta em repúdio contra a discriminação de pessoas com deficiência. Pretendemos ter o máximo de divulgação e que as pessoas conheçam as questões sociais debatidas no mundo”, acrescenta.

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Autor: Jaqueline Deina - Estagiária de Jornalismo
Edição: Mauri König
Créditos do Fotógrafo: Arquivo pessoal

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