Com vida mais longa, quais são os direitos dos idosos e o papel de educadores e empregadores?

Autor: Nayara Rosolen - Estagiária de Jornalismo

A terceira idade tem ocupado cada vez mais espaço em ambientes de educação, seja retornando para concluir o ensino básico através da Educação de Jovens e Adultos (EJA) ou ingressando para cursos de níveis técnico ou superior. Muito se deve à expectativa de vida cada vez mais alta e à necessidade de se manter por mais tempo no mercado de trabalho. Ou mesmo pela realização de sonhos que precisaram ser adiados. Outro ponto importante do ensino para os idosos é a qualidade de vida que novos saberes podem gerar.

“Munir o cérebro de qualquer informação, de novos conhecimentos, não vai elevar apenas o grau de aprender algo, mas também a prevenção de demências. Esse é um dos primeiros pontos e um dos mais fundamentais em relação a parte da saúde para a população idosa”, conta o professor Cristiano Caveião, da Escola de Saúde da Uninter.

Todo cérebro humano possui a chamada reserva cognitiva, que é a capacidade de armazenar habilidades adquiridas ao longo da vida e que ajuda na resistência do surgimento do Alzheimer, por exemplo, uma das doenças mais temidas em relação ao envelhecimento. Caveião diz que essa reserva precisa ser estimulada o tempo todo, desde a infância, para que se possa envelhecer da forma mais saudável e diminuir a possibilidade do desenvolvimento de patologias desse tipo.

Além de uma alimentação saudável e a prática constante de exercícios físicos, retornar aos estudos ou se manter sempre buscando novas informações e desenvolver novas habilidades são algumas das maneiras de estímulos muito importantes. Muitas pessoas passam a vida toda se dedicando ao trabalho e as relações familiares com a criação dos filhos, por isso encontra esse tempo de dedicar-se a si mesmo e ao ensino após a aposentadoria, que se torna um período de se reinventar.

“Eu tenho que buscar outras atividades para estimular o cérebro. Estimular a mente o tempo todo é bem importante, pensando que os idosos podem se sentir muito mais valorizados quando estão estudando, desenvolver a parte intelectual. Tudo isso vai ajudar também com o processo de envelhecimento. Envelhecer não é tão fácil, não é tão simples, nós enfrentamos vários percursos ao longo da vida”, conta Caveião.

Para que essa experiência tenha o resultado desejado, o profissional pontua a importância do apoio e colaboração da família nesse período. Seja ajudando no uso das novas tecnologias, caso seja um curso a distância, ou então na adaptação com a turma em sala de aula, quando presencial, já que essas pessoas dividem espaço com outras de diferentes idades e modos de viver e agir. A educação se transforma com o tempo, a realidade encontrada já não é a mesma que ele vivia no ambiente de ensino quando jovem.

“Muitos idosos se sentem sozinhos, muitas vezes a família não está próxima, não tem contato com a família. Quando ele volta a estudar, amplia-se a rede de contato, faz novas amizades, tem com quem conversar. Na questão da interação com uma pessoa mais jovem, existe aquela troca de experiência. E isso acaba deixando o idoso mais feliz e também a se sentir mais inserido”, explica a professora Marjorie Pereira, que atua na EJA da Uninter, pela Escola Superior de Educação.

Outros benefícios que podem ser notados para a terceira idade é a vida social mais ativa, a inter-relação que ajuda a ampliar as questões afetivas, a independência e autonomia que esse idoso adquire, refletindo assim na confiança que ele conquista em outras atividades do dia a dia. Tudo isso diminui a possibilidade do desenvolvimento da depressão, doença que costuma atingir essa faixa etária por se encontrarem sem muita utilidade após o desligamento do trabalho.

Simone Oliveira, egressa do curso de Pedagogia do polo Uninter em Porto Velho (RO) e que trabalha na área de educação, chama a atenção para o papel do docente e das instituições nesse processo, que é bem diferente do tratamento que é voltado aos jovens. Ela diz que é preciso entender a integralidade do ser humano, que o idoso não vai apenas buscar aprendizado, mas também para socializar, aumentar o campo de conhecimento, por outros motivos que devem ser compreendidos pelo professor em sala de aula.

“Eu acho que a gente anda muito enganado com os novos idosos que a gente tem. O Brasil até então era considerado um país de jovens e isso não é mais verdade. Os novos idosos não estão mais segregados, eles estão querendo aprender, estão buscando principalmente a educação superior. A gente tem que pensar muito bem como vai fazer esse acolhimento, como usar uma metodologia adequada e se dedicar, porque o ritmo é diferente”, salienta.

Caveião ainda destaca que envelhecer é para todos, “mas o fator idade jamais vai ser problema para quem tem vontade de aprender alguma coisa nova. [A terceira idade] é uma extensão, uma vida que eu preciso levar de forma muito mais ativa e saudável, não só para a parte do corpo, mas também para a própria mente.”

O mercado de trabalho para o idoso

Se as oportunidades e vagas de emprego estão escassas, para a terceira idade essa situação se torna um pouco mais crítica. Existe uma cultura construída na sociedade de que o papel do idoso é ficar em casa depois de se aposentar, viajar, cuidar dos netos e dar vez para os mais jovens trabalharem. Essa característica repercute em muito preconceito quando os mais velhos precisam se recolocar no mercado de trabalho, mas é notável um número cada vez maior dessas pessoas ativas e produtivas.

“A parte a discussão do idoso no mercado de trabalho tem dois pilares. Um é o direito a trabalhar. Se ele precisa, se ele não precisa, se ele quer trabalhar, se ele está em condições, se isso vai fazer bem para ele, ele tem todo o direito. Porém, existe uma parcela e cada vez mais crescente não só no Brasil, mas no mundo, de idosos que precisam trabalhar para continuar sobrevivendo”, explica a professora Neiva Hack, do curso de Serviço Social da Uninter.

Neiva explica que as mulheres acabam sofrendo mais. Isso porque elas vêm da cultura do homem provedor do sustento e elas, como donas do lar, ficando desprotegidas em muitos casos, seja por romper a relação em determinado momento ou pelo marido encontrar dificuldades no momento de receber aposentadoria. Sem experiência no mercado de trabalho, elas se vêm sem condições de gerar renda. Apesar de poder contribuir com a previdência como dona do lar, essa informação não é tão transparente para a população e muitas desconhecem o direito.

O risco da precarização do trabalho na velhice também é muito maior. Muitos daqueles que conseguem voltar a exercer a profissão após aposentados, encontram barreiras por não absorverem todo o histórico que carregam, ocupando espaços inferiores, com salários reduzidos.

“Isso é bastante contraditório, porque a gente tem vivenciado recentemente várias reformas da Previdência que cada vez mais postergam a aposentadoria, cada vez mais se diz que eu preciso trabalhar por mais anos, eu preciso ter um número maior de contribuições para que eu consiga conquistar o direito à aposentadoria, e isso no Brasil é incompatível com a realidade de mercado”, pontua Neiva.

A profissional observa outros países, como na Europa, que já vêm vivenciando esse envelhecimento demográfico há algumas décadas e podem servir de exemplo na discussão e aplicação de uma “economia de longevidade”, que não percebem o idoso como um “peso” para a Previdência, mas pessoas que podem ser muito ativas e que também consomem serviços, movimentam o mercado econômico. Para ela, “infelizmente no Brasil ainda temos muito a amadurecer nesse sentido”.

Maristela Melo, professora e orientadora educacional do polo de Porto Velho, acredita que é preciso fazer uma desconstrução pensando no idoso e que uma das fontes de longevidade é a educação.

“Quanto mais você estuda, tem uma qualificação profissional melhor, você fica mais tempo no mercado de trabalho. É muito importante você ser estudante a vida inteira, porque a educação traz muitos benefícios à saúde, mas também nesse projeto de trabalho futuro. Tem que ter muitas atitudes e projetos, políticas públicas para a saúde melhorar, para a educação como um todo. A gente tem que realmente valorizar esse ser idoso”, diz Maristela.

Neiva explica que as empresas trabalham esse processo com a terceira idade de duas formas. A primeira com a contratação de idosos para atividades mais simples. Outras desenvolvem a preparação para a aposentadoria dentro de programas de saúde educacional e de qualidade de vida, com o descobrimento de novos talentos, novas possibilidades de atuação, sejam remuneradas ou não. Mas a professora destaca que as políticas públicas também têm papel fundamental.

“O governo tem atuado nas reformas que dizem que a pessoa tem que continuar trabalhando por mais tempo, mas tem agido muito pouco no sentido de possibilitar de fato que esse trabalho exista. Não dá para só sobrecarregar o empregador ou colocar toda a responsabilidade [na empresa]. Existe um papel importante do poder público, porque é ele quem vai definindo quais são as prioridades, quais são as estratégias. A gente não está falando de um favor, nós estamos falando de um direito”, afirma.

Todos esses temas acerca da vida do idoso foram abordados em lives que aconteceram através da página do Dacebook da EJA Uninter, com os temas Os benefícios de estudar na terceira idade e Terceira idade e os desafios do mercado de trabalho. Para maior inclusão, elas contaram com o intérprete da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), Renato Pajewski.

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Autor: Nayara Rosolen - Estagiária de Jornalismo
Edição: Mauri König
Créditos do Fotógrafo: Andrea Piacquadio/Pexels e reprodução Facebook


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