Tecnologia é aliada na prática do consumo sustentável

Autor: Sandy Lylia da Silva – Estagiária de Jornalismo

Vivemos em uma sociedade de modelo capitalista que nos convida a consumir a todo o momento. Somos incessantemente bombardeados com mensagens de estímulo ao consumo de bens e serviços que vão muito além da satisfação das necessidades básicas, despertando desejos e sonhos.

No pós-guerra, o mundo ocidental viu surgir o American Way of Life, um estilo de vida típico da sociedade norte-americana que associava a felicidade à realização de desejos de consumo. Com a prerrogativa de mantermos a economia ativa, passou-se a produzir e a consumir cada vez mais.

Segundo Jailson Araújo, doutor e mestre em direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e professor da graduação e da pós-graduação em Direito da Uninter, o progresso da sociedade de consumo melhorou muito a qualidade de vida, mas não de todos. “O avanço tecnológico muitas vezes acaba não sendo compartilhado por questões sociais, de natureza política e econômica. A camada menos favorecida da população acaba ficando alijada desta parcela do consumo, que é essencial à uma vida digna”, diz ele.

Convidado pela colega Bruna Isabelle Simioni Silva, também professora de Direito da casa, Jailson conversou sobre a relação entre novas tecnologias e consumo sustentável. Segundo dados divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dos 214 milhões de habitantes do Brasil, 35 milhões não possuem acesso à água potável e 100 milhões não possuem saneamento básico. Em uma escala mundial, três em cada dez pessoas não têm acesso à água potável e seis em cada dez não possuem saneamento básico, segundo dados de 2019 da Organização das Nações Unidas (ONU).

Enquanto alguns usufruem da possibilidade de consumir cada vez mais, vivendo imersos em produtos descartáveis fabricados sob a regra da obsolescência programada, outros ainda não têm o básico para sobreviver. “O consumismo é o lado pernicioso do consumo, é o consumo na sua face doente, pois ele se caracteriza pelo excesso, pelo desperdício, pelo exagero.  Você não pensa antes de consumir, não avalia a real necessidade, diferente dos nossos antepassados, que viveram em um outro tipo de modelo econômico em que cada aquisição era planejada e o que era adquirido tinha longa durabilidade”, afirma o docente.

A indiferença com o descarte dos materiais, sem a devida reflexão de que até  processos de reciclagem necessitam de recursos naturais, como água e energia elétrica, é uma das facetas dos impactos ambientais gerados por hábitos de consumo desenfreados. “As pessoas procuram adotar um padrão de vida superior a sua possibilidade financeira para consumir algo que de não precisam, usando o dinheiro que não têm, para impressionar pessoas desconhecidas ou de quem não gostam”, afirma o convidado, citando a frase de Dave Ramsey.

Na vida online, o incentivo ao consumo encontra mais um aliado. O rastreamento de dados de navegação e localização pessoais é cada vez mais utilizado como ferramenta para o direcionamento de publicidade. “Segundo pesquisa do Instituto Akatu, 70% dos norte-americanos reconhecem que muitos dos problemas do mundo relacionados ao meio ambiente são consequências do seu consumo intenso. 91% deles acham que seu modo de vida gera resíduos demasiados e 85% acreditam que são necessárias grandes alterações em seu modo de vida para proteger o meio ambiente”, cita Jailson.

Ter a compreensão da dimensão do problema é o primeiro passo. Mas como podemos evoluir do consumismo, para o consumo consciente e sustentável?

Para Jailson, devemos saber identificar as reais necessidades de consumo e aquelas que são advindas do marketing. Evitar os excessos e escolher marcas comprometidas com a sustentabilidade, compreendendo que todo consumo gera impactos ambientais, e repensar sobre a origem dos produtos, incluindo a alimentação.

Ele também ressalta o exercício de comportamentos de curto e longo prazo, que visam garantir uma postura consciente perante o consumo. De curto prazo, os comportamentos de eficiência, como economizar energia elétrica, água e praticar a reutilização e o conserto dos bens materiais. Também os comportamentos de reflexão, como o planejamento da compra de alimentos e vestuário, solicitação de nota fiscal para o retorno correto de tributos ao Estado e a leitura atenta do rótulo antes da decisão da compra.

Os de longo prazo são os comportamentos de solidariedade, que vão desde a correta separação e destinação de resíduos, passando pela compra de produtos locais e fabricados com material reciclado, a adesão à alimentação orgânica e o boicote às empresas sem compromisso com o desenvolvimento sustentável.

A tecnologia é recurso fundamental para garantir escolhas sustentáveis, podendo ser utilizada de várias formas, seja pelo acesso às informações de procedência dos produtos, por aplicativos ou escaneamento de códigos QR, ou para denúncias e compartilhamento de informações sobre manufaturas que desrespeitam as legislações vigentes. “O empresário quer continuar no jogo, quer sua marca respeitada e cobiçada, mas isso só é possível se ele tiver um bom posicionamento no mercado e uma boa percepção de valor dos consumidores em relação a sua marca. O surgimento de boicotes, reclamações e divulgação de notícias ruins gera impactos econômicos negativos, fazendo com que ocorra toda uma readequação para se ajustar ao mercado novamente”, afirma o professor.

Entre os aplicativos voltados à promoção do consumo sustentável, destacam-se os de etiquetagem veicular, consumo de energia doméstica, incentivo à troca e venda de itens usados, de localização de feiras orgânicas e os de descarte adequado de resíduos. “Plantit”, que ensina o cultivo de alimentos orgânicos em casa, e o “Moda Livre”, que mostra como as marcas de vestuário enfrentam e combatem o trabalho escravo, divulgando rankings e relatos de ocorrências, são bons exemplos.

“O consumidor é protagonista deste processo, ele detém o poder, mas também tem o direito e o dever de buscar informações relacionadas à responsabilidade socioambiental dos fornecedores, pois a partir daí conseguimos comparar não somente preço e qualidade, mas uma característica nova, que é esse engajamento. Fornecedores que não se adaptem aos consumidores mais exigentes e conscientes serão excluídos do mercado”, aponta Jailson.

Praticar um consumo de menor impacto, evitando o desperdício e adotando práticas de consumo racional, eficiente e solidário, são formas efetivas de se cuidar do meio ambiente. “Não temos que nos preocupar em deixar um planeta melhor para nossos filhos, temos que deixar filhos melhores para o planeta”, conclui Jailson.

A transmissão deste debate, que ocorreu no dia 07.04.2022 pelo Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), fez parte do curso de extensão “O uso de novas tecnologias para a promoção do consumo consciente e sustentável”.

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Autor: Sandy Lylia da Silva – Estagiária de Jornalismo
Edição: Larissa Drabeski
Revisão Textual: Jeferson Ferro


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