Remake de Pantanal é atualização do próprio Brasil, afirma pesquisadora

Autor: Gustavo Henrique Leal - Estagiário de Jornalismo

A atualização da telenovela Pantanal, que hoje ocupa o horário nobre da televisão brasileira, é uma reapresentação da primeira versão, exibida em 1990. O retorno da trama às telas neste ano de 2022 repagina também diversos temas de cunho social, como orientação sexual, violência doméstica, mudanças dos biomas, entre outros, para acompanhar também a atualização do próprio público.

De acordo com o índice medidor de público das emissoras do Brasil, o Painel Nacional de Televisão, a telenovela chegou a atingir 30 pontos de audiência durante o mês de junho. Outra informação que chama a atenção é que pelo menos 35,7% da população já a assistiu, nem que seja um minuto da trama retratada, englobando aproximadamente 76 milhões de brasileiros. As telenovelas no Brasil tiveram início em 1951, na antiga TV Tupi, e antes quem realmente tinha a atenção do público eram as radionovelas.

Uma das características das novelas brasileiras é utilizar temas contemporâneos em suas tramas. A professora e doutora em Ciências da Comunicação Flávia Suzue Ikeda utiliza a expressão “permeabilidade do real” para descrever esse fenômeno. A versão de Pantanal de 1990, por exemplo, tinha conexão com preocupações ecológicas da época. Por causa dessa característica, a novela sofre algumas mudanças por conta do tempo.

Podemos descrever as atualizações da novela por dois lados: o primeiro são as questões artísticas e estéticas; alguns personagens vão estar ligados a temas que realmente têm a ver com sua história, porém o final da novela vai ser parecido ou quase igual à trama de 1990. A outra atualização é a luta das representatividades, por buscar representar mais raças, gêneros e questões sociais dentro da novela.

A mudança do urbano para o rural também chama a atenção nas novelas, pois somos acostumados a acompanhar as tramas sempre no eixo Rio-São Paulo, dentro das cidades. Isso se deve muito pela concentração da produção audiovisual nessa região a partir da década de 1970. Com Pantanal, há uma quebra disso, se desenvolvendo no Mato Grosso, no Complexo do Pantanal. A estética citada também acaba se ligando com o exotismo do lugar e a um realismo fantástico da trama, como a transformação de alguns personagens em animais, a exemplo de onças e sucuris.

A pesquisadora ainda cita a novela Beto Rockfeller, de 1968, e explica como ela trouxe o olhar modernizante, com um ritmo mais urbano e contemporâneo. “A gente teve um processo de urbanização e industrialização forte no Brasil, então a telenovela partia ali do final da década de 60, que urbanizou as tramas, as deixou atuais e aproximou do Brasil. Desde então, a gente tem essa tradição de retratar um Brasil modernizante, essa virada de 60 pra 70 foi aquilo que chamaram do milagre econômico da ditadura”, explica.

Com todos esse panorama, o Brasil desenvolveu uma telenovela diferente, com narrativa própria e genuinamente brasileira, tendo um ápice do “abrasileiramento” das telenovelas. O que hoje se destaca na “novela das nove” é o crescimento digital, muito relacionado aos jovens. “Pantanal é uma novela que está tendo uma presença digital muito grande dos fãs, surpreendentemente jovens que estão ali se reconectando com a telenovela. Talvez o fato de os atores da Juma [Alanis Guillen] e do Joventino [Jesuíta Barbosa] serem atores declaradamente bissexuais e com vidas mais livres e que falaram muito disso na mídia [tenha estimulado a repercussão]. Talvez isso seja uma forma também de atualizar a telenovela, para além da própria narrativa”, conclui a doutora.

A conversa sobre Pantanal e as representações de Brasil nas telenovelas foi mediada pelos professores Clóvis Teixeira Filho e Edna Chimenes no programa Hipermídia, da Rádio Uninter. Confira a íntegra do episódio clicando neste link.

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Autor: Gustavo Henrique Leal - Estagiário de Jornalismo
Edição: Arthur Salles - Assistente de Comunicação Acadêmica
Créditos do Fotógrafo: Divulgação e reprodução YouTube


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