Mauri König, o mestre do jornalismo investigativo

Autor: Juliane Lima - Estagiária de Jornalismo

O trabalho do jornalista envolve a busca permanente por informações que sejam de interesse público. Muitas vezes, a exposição destas informações tem o poder de causar desconforto entre os poderosos. Em alguns casos, o jornalista assume riscos e se coloca em situações perigosas. Quem entende muito bem essa dinâmica é o profissional que se dedica ao método de infiltração, o jornalista investigativo.

Mauri König, jornalista paranaense com três décadas de atuação profissional, é um especialista na área investigativa e conhece muito bem os dilemas de “se infiltrar” em busca de evidências. Profissional destemido, as reportagens de König já o colocaram em perigo muitas vezes – ele já foi ameaçado por políticos, por policiais e traficantes, já teve de se mudar em definitivo de cidade por causa de ameaças e também foi obrigado a se exilar do país por um tempo, também devido a ameaças.

Mas as reportagens também renderam a König 38 prêmios nacionais e internacionais de jornalismo. Entre os mais importantes estão o Maria Moors Cabot Prize, o mais antigo do mundo em escala global, concedido pela Columbia University em reconhecimento à carreira profissional do laureado. Ele recebeu ainda o CPJ International Press Freedom Awards e o Global Shining Light Award, concedido pela Global Investigative Journalism Network, entidade que congrega entidades de jornalismo investigativo de mais de 70 países. No Brasil, König venceu os principais prêmios da profissão.

Depois de 27 anos dedicados ao jornalismo diário, escrevendo para veículos como o Estado de S. Paulo, Folha de Londrina, Gazeta Mercantil, O Estado do Paraná, Gazeta do Povo e Folha de S. Paulo, König começou a lecionar no curso de Jornalismo na Uninter em outubro de 2015. Tornou-se também o editor deste portal, o Uninter Notícias. Imerso na vida acadêmica, percebeu a necessidade de buscar qualificação e decidiu iniciar o mestrado, na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). “Percebi que precisaria associar essa minha vivência prática a um conhecimento teórico, um conhecimento acadêmico, então resolvi fazer o mestrado”, diz.

O tema da pesquisa foi “Os limites éticos do jornalismo de infiltração”. Naturalmente, envolvia muito da relação pessoal que König tem com o tema. Mas esta escolha também se deu porque ele já viveu dilemas éticos ao usar o método de infiltração em campo, e não encontrou material de apoio sobre o assunto. Por isso, decidiu investigar o tema para que suas reflexões pudessem ser úteis para outros jornalistas da área.

Em dois dos quatro livros que já escreveu sobre jornalismo (Narrativas de um Correspondente de Rua, de 2008, e O Brasil Oculto, de 2012), ele expõe os métodos que utilizou para chegar às fontes, em suas viagens pelos extremos do Brasil.  Segundo König, quando decidiu apresentar abertamente os métodos que utilizava, ele ficou exposto ao julgamento do público quanto aos dilemas éticos que envolvem a atividade da infiltração.

O uso de microcâmeras, gravações escondidas e ocultação da identidade profissional são algumas das estratégias que os jornalistas empregam nas infiltrações em campo. Mas aí entra um questionamento: existe um limite ético no emprego desses métodos para conseguir informações?

Segundo König, o artigo 5º da Constituição Federal estabelece que é direito do cidadão ter informações daquilo que diz respeito a ele. Porém, no mesmo artigo, no inciso X, consta que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. É justamente em torno da discussão sobre a fronteira que separa estas duas garantias previstas na Constituição que paira o dilema ético do jornalismo de infiltração.

A atuação profissional do jornalista é amparada pelo código de ética deontológico, que nega a mentira em qualquer hipótese. Porém, König constatou durante sua pesquisa que na prática os jornalistas usam muito mais uma filosofia utilitarista, em que o profissional age esperando algum tipo de consequência, ou seja, nesse caso, prevalece a lógica do ditado “os fins justificam os meios”.

Para König, o limite do jornalismo de infiltração é muito mais o limite legal do que o limite ético. “Se temos no primeiro plano uma violação ética, mas a punição seria apenas moral agindo daquela maneira, muitos decidem pagar este preço e agem mesmo que seja antiético. Mas há um ponto em que existe um limite legal, aí os jornalistas costumam parar, porque vão sofrer uma sanção material. Podem ser presos em razão daquela ação, ou podem ter um dano material, ter de pagar uma indenização”, diz o pesquisador.

Em sua pesquisa de mestrado, König realizou entrevistas com 9 jornalistas investigativos do Grupo RBS e que fazem uso frequente do método de infiltração em suas reportagens. O Grupo RBS é o único veículo de comunicação no Brasil que possui um núcleo dedicado exclusivamente ao jornalismo investigativo, e por isso foi o objeto empírico escolhido para a pesquisa.

Segundo a coordenadora do Programa de Mestrado em Jornalismo da UEPG, Paula Melani Rocha, que também foi orientadora da pesquisa de König, o trabalho deve se tornar referência para os estudantes de jornalismo. “Eu acredito que o jornalismo investigativo é diferente da prática do jornalismo convencional, e ele trouxe essa experiência para o projeto de pesquisa. Isso é um ganho”, avalia Paula.

A pesquisa também contou com a co-orientação do coordenador do curso de Jornalismo da Uninter, Guilherme Carvalho. A banca de avaliação do trabalho foi formada ainda pelos professores Felipe Pontes e Hebe Gonçalves, com participação via teleconferência do jornalista e pesquisador Rogério Christofoletti, da Universidade Federal de Santa Catarina, um dos mais respeitados pesquisadores da ética jornalística na atualidade.

König era o único especialista do curso, cujo quadro docente agora é formado apenas por mestres e doutores. A dissertação foi aprovada com louvor pela banca avaliadora e em breve estará disponível para consulta no banco de teses e dissertações da CAPES.

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Autor: Juliane Lima - Estagiária de Jornalismo
Revisão Textual: Jeferson Ferro
Créditos do Fotógrafo: Manoel Áureo Germano


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