O caminho de volta: a Polilaminina e o novo primeiro passo da neuroregeneração brasileira
Autor: (*) Anderson Roberto Benedetti
Uma notícia ‘milagrosa’ tem dominado as perspectivas da população e trazido de volta os olhos dos brasileiros para a ciência nacional, justamente pela realização do que antes era um abismo intransponível. A pesquisa da Polilaminina, liderada pela pesquisadora carioca Dra. Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, representa um dos maiores saltos da neurobiologia moderna. O que parecia ficção científica tornou-se uma possibilidade concreta, graças a uma molécula desenhada nos laboratórios públicos do Rio de Janeiro, que é capaz de regenerar movimentos em casos de rompimento medular.
Tal feito advém de uma proteína comumente encontrada em nosso organismo, a laminina. A poli[muitas]lamininas é um composto gerado em laboratório que forma uma lâmina, a qual serve de caminho para os axônios – ‘braços’ dos neurônios, responsáveis pela comunicação do cérebro com o corpo, crescerem de forma direcionada e com mais eficiência.
Essa técnica é usada pelo organismo no desenvolvimento embrionário. Nosso corpo utiliza a laminina natural para guiar os neurônios até seus destinos, formando o sistema nervoso. Essa é a arquitetura original da vida. O desafio sempre foi que, no sistema nervoso adulto lesionado, a proteína não se organiza mais da mesma forma, e o corpo responde ao trauma criando uma cicatriz rígida que impede qualquer reconexão. Quando ocorrem lesões, os axônios se desenvolvem sem direção e descoordenados, dificultando a conexão do sistema nervoso funcional.
Com anos de estudos, a pesquisadora brasileira conseguiu “sintetizar” essa sabedoria embrionária. Ao polimerizar a laminina, sua equipe criou um andaime biológico que oferece aos neurônios o caminho de volta. Em testes com camundongos e primatas, os resultados foram históricos: animais que haviam perdido o movimento dos membros voltaram a caminhar e a manipular objetos, provando que o sistema nervoso “machucado” ainda mantém a capacidade de se regenerar, desde que receba o estímulo correto.
O mesmo foi observado em testes com seres humanos. Pacientes que haviam sofrido lesão grave na medula e receberam a polilaminina até 72 horas após o trauma apresentaram resultados promissores. Em alguns casos, pessoas sem expectativa de recuperação motora voltaram a sustentar os membros e hoje levam uma vida funcional.
O avanço da polilaminina projeta a ciência brasileira no cenário internacional e poderia gerar retorno científico e econômico. Contudo, cortes no financiamento à pesquisa a partir de 2016 levaram à renúncia da patente internacional, expondo a fragilidade do apoio institucional. Ao negligenciar investimentos de longo prazo, o país perde soberania tecnológica e transfere ao exterior conhecimento estratégico construído ao longo de décadas.
A Polilaminina inaugura uma nova abordagem terapêutica ao empregar os próprios mecanismos da vida para enfrentar lesões até então consideradas irreversíveis. Se os ensaios clínicos confirmarem os resultados observados em modelos animais e nos primeiros pacientes, o impacto será global.
Diante desse cenário, a possibilidade de a pesquisadora brasileira figurar entre os indicados ao Nobel de Medicina deixa de ser mera conjectura. O episódio expõe, contudo, um dilema recorrente: o país que produz ciência de ponta ainda falha em garantir os investimentos necessários para preservar sua propriedade intelectual e sua soberania tecnológica.
(*) Anderson Roberto Benedetti é biólogo. Docente da Área de Geociências da Uninter.
Autor: (*) Anderson Roberto Benedetti