Como fica a baixa produtividade do trabalhador brasileiro com o fim da escala 6×1?
Autor: *Andressa Bueno Serigato Meneghelli
Em ano eleitoral tramita no Congresso a proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1, com redução da jornada semanal de 44 horas para 36 horas a partir de maio de 2026. A medida reacende um debate recorrente no Brasil: afinal, a redução da carga horária pode comprometer a produtividade de um país que, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), ocupa a 94ª posição entre 184 economias?
Empregadores e especialistas afirmam que a redução da jornada de trabalho será mais um fator agravado ao custo de mão-de-obra, que já é considerado alto no Brasil, comprometendo ainda mais a competitividade da economia brasileira. Esse aumento no custo hora do trabalhador, segundo especialistas, será repassado aos produtos e serviços, ou seja, será o consumidor quem pagará essa conta. Uma outra consequência com o fim da jornada é o aumento da pejotização com o crescimento da informalidade em respostas às demissões de trabalhadores.
A produtividade é convencionalmente avaliada pela produção gerada por hora de trabalho. No entanto, analisar esse indicador isoladamente, ignorando o contexto em que o trabalhador produz e outros fatores que influenciam a produtividade desse trabalhador, pode levar a conclusões equivocadas. Exigir maior produtividade do trabalhador sem fornecer os recursos e condições adequadas de trabalho significa reproduzir uma lógica mecanicista ultrapassada, que ignora o elemento humano em suas necessidades e os fatores estruturais que influenciam o desempenho econômico.
Estudos indicam que um trabalhador nos Estados Unidos alcança uma produção aproximadamente três a quatro vezes maior do que a de um trabalhador no Brasil. Essa disparidade não indica falta de dedicação individual, mas reflete variações significativas nas variáveis de produção: investimento em tecnologia, capital, desenvolvimento de habilidades e ambiente geral de negócios. No Brasil, máquinas desatualizadas, automação limitada, infraestrutura inadequada, logística cara e sistemas tributários complexos diminuem a eficiência sistêmica das empresas e, consequentemente, da mão de obra.
A educação e o desenvolvimento profissional são variáveis críticas para a produtividade, particularmente no contexto da digitalização e da inteligência artificial. No entanto, eles representam apenas uma fração da equação. A mobilidade urbana ineficiente, por exemplo, faz com que milhões de trabalhadores diariamente passem várias horas em deslocamentos exaustivos, comprometendo a saúde, níveis de energia e, consequentemente, a produtividade geral desses trabalhadores. Some-se a isso a instabilidade macroeconômica geral que desestimula investimentos produtivos, perpetuando assim o ciclo de baixa produtividade.
Nesse sentido, o debate sobre o fim da escala 6×1 não pode ser reduzido à ideia de que menos horas significam menos produção. Países com maiores níveis de produtividade frequentemente apresentam jornadas médias menores que a brasileira. Além disso, estudos mostram que descanso adequado, equilíbrio vida-trabalho e saúde mental influenciam diretamente o engajamento e o rendimento dos trabalhadores.
As negociações setoriais sobre o trabalho aos domingos e a reorganização dos horários de trabalho já estão em andamento, indicando uma evolução gradual na cultura trabalhista brasileira. Em vez de representar uma ameaça, essa transição pode simbolizar a modernização das relações trabalhistas, mudando a ênfase de meras horas de trabalho para resultados e bem-estar dos trabalhadores.
Portanto, a baixa produtividade observada no Brasil não decorre de um trabalhador que produz pouco, mas de um sistema que oferece condições insuficientes para produzir mais e melhor. Reduzir a jornada, isoladamente, não resolverá o problema — mas também não é sua causa. A verdadeira agenda da produtividade exige investimento em tecnologia, infraestrutura e qualificação para o desenvolvimento de habilidades dos trabalhadores. Uma força de trabalho dotada de condições de vida e de trabalho superiores provavelmente demonstrará maior produtividade.
*Andressa B. Serigato Meneghelli é administradora e mestra em Administração. É professora no Curso Superior de Tecnologia em Gestão de Recursos Humanos da Uninter.
Autor: *Andressa Bueno Serigato MeneghelliCréditos do Fotógrafo: Pexels
