Festival Curitiba Vibra África dá voz à cultura e à luta dos povos africanos
Autor: Tiago Polonha - estagiário de jornalismo
Ser uma voz para aqueles que não são vistos foi o que motivou o ator, cantor e modelo congolês Blaise Musipere a criar o Festival Curitiba Vibra África, evento importante na cena cultural curitibana, que dá destaque à cultura de tantos povos que chegam ao Brasil. Curitiba recebe muitos imigrantes, que muitas vezes enfrentam preconceitos e desprezo, portanto o festival é o momento de luta e de representatividade que esses povos precisam. Musipere esteve no Papo Castiço, programa da TV Uninter para contar um pouco sobre sua chegada, o preconceito enfrentado e como a arte se tornou refúgio e voz para tantos.
O Festival Curitiba Vibra África é uma celebração festiva e alegre, onde cada cultura é valorizada e celebrada, com músicas, roupas e comida típica, trazida por imigrantes que carregam consigo sua história, suas lutas e superações. Para Musipere, muitos africanos nem sabem que existe um dia da África no Brasil, não conhecem seu passado, não vivem sua cultura. Por isso o ator reforça que cada imigrante precisa partilhar seus conhecimentos e sua forma de ver o mundo: artistas, cozinheiros, alfaiates, professores. Cada imigrante traz consigo um passado rico.
Musipere chegou ao Brasil em 2008, com apenas 21 anos, como refugiado da guerra que já dura mais de 30 anos na República Democrática do Congo. Veio para o país ao ganhar uma bolsa para estudar economia, mas diante das dificuldades com a língua, deixou o estudo e começou a se dedicar à arte. Enfrentou no Brasil muito racismo e ouviu de pessoas frases desmotivadoras. “Nossa, você que vem da África, o negro que vem da África, vem aqui. Os negros aqui não conseguem nada. Você acha que você vai conseguir alguma coisa?”, eram frases comuns no seu dia a dia.
Em 2013, Musipere conseguiu seu primeiro papel na televisão, na Malhação da Rede Globo. Depois desse, emendou outros trabalhos, no qual destaca a novela Órfãos da Terra, de 2019, uma vez que viu na trama da novela um pouco de sua história. “[A trama] identifica, não só eu. Identifica o ucraniano que deixou a Ucrânia, identifica o afegão que deixou Afeganistão, identifica o sírio que saiu da Síria, identifica o africano como eu, congolês, que saiu do Congo. Ou seja, identifica todos nós, e até os brasileiros”.
Em 2022, após o choque sofrido com o assassinato de seu conterrâneo Moïse Kabagambe na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o ator percebeu que seu trabalho podia ir além e assim se tornou uma voz para todos os africanos e imigrantes na luta contra o preconceito e o racismo. Para Musipere, o conhecimento cultural é uma importante arma contra qualquer tipo de discriminação. Todo migrante aprende a cultura do país, mas também traz a sua cultura para partilhar. E quando se conhece essas culturas, todo mundo consegue conviver melhor.
Por isso, ele criou o Festival Curitiba Vibra África e o Sarau dos Migrantes, que além dos povos africanos, celebra outros povos que buscaram refúgio aqui no Brasil. Assim, ele vê na arte uma potência para superar preconceitos. “Eu sou artista, então vou me jogar na minha música, na minha arte. Dar o meu melhor e ficar feliz com isso. Eu acho que a arte é isso, né? Arte, se você for em qualquer lugar do mundo, a arte é a mesma. (…) Isso que eu falo que eu luto mesmo para mostrar essa diversidade para as pessoas que arte é isso, o bonito da arte mistura as pessoas, mistura culturas. É isso que faz a beleza do Sarau dos Migrantes e do festival do Vibra África.” Para o criador do festival, é um dia para todos viverem a África, as comidas, as danças e a cultura e é também o momento da população preta reivindicar seus direitos e sua ancestralidade que ao longo da história sempre foi atacada e apagada.
A próxima edição do festival Curitiba Vibra África acontecerá na UFPR no dia 23 de maio e a entrevista completa com Blaise Musipere pode ser conferida no youtube da TV Uninter:
Edição: Larissa Drabeski
Créditos do Fotógrafo: Reprodução Youtube



