Guerras na Ucrânia e Afeganistão movimentam a imprensa mundial nas últimas semanas

Autor: Arthur Salles - Estagiário de Jornalismo

A região leste da Ucrânia está em guerra desde 2014, em um confronto entre o exército do país e grupos separatistas pró-Rússia. O conflito teve início após a anexação da península da Crimeia por Moscou, capital russa, e antes gerida por Kiev, capital ucraniana. O referendo que garantiu a reunião do território aos russos é considerado ilegal pela Resolução 68/262 da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), entendendo a península como uma região ucraniana sob ocupação russa.

A tensão entre os dois países vem sendo acirrada desde então, fazendo do cenário local um laboratório de conflitos de escala maior. A possível adesão da Ucrânia à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a aliança de Kiev com os Estados Unidos e a União Europeia põem em jogo a soberania russa na porção leste da Europa. A região ainda abre disputa como um ponto de conexão entre a Rússia e outros países europeus, com a presença estratégica do Mar Negro como interesse político-geográfico.

Entre o final de março e meados de abril deste ano, tropas militares da Rússia foram destacadas em peso na fronteira com a Ucrânia. A movimentação, definida pelo Kremlin como um exercício militar sem representar ameaças, foi encarada pelos ucranianos e seus aliados como um possível estopim para uma guerra aberta entre as duas nações. A Ucrânia, que recebe apoio político e militar dos Estados Unidos e da Otan, ainda acusa a Rússia de financiar e prover armamentos aos rebeldes que querem a independência da região de Donbass, onde as disputas acontecem com maior intensidade.

A União Europeia estima que a Rússia tenha enviado mais de 100 mil soldados à região fronteiriça. O Kremlin nega a intenção de dar início a uma guerra e ainda aponta os ucranianos como causadores do alarde. Especialistas afirmam que o destacamento de forças serviu como um aviso dos russos sobre sua intenção de manter o controle político no local, rejeitando a influência americana e europeia no cenário. A escalada de tensão se deu num momento em que o Kremlin enfrenta sanções impostas pela Casa Branca e pelo novo presidente Joe Biden.

“Esse tipo de operação sinaliza, como aconteceu em 2013 [ano de turbulência entre Rússia e Ucrânia], para uma nova configuração nas relações internacionais. Já foi um pouco espantoso em 2013 porque existia uma tendência de que os Estados Unidos seriam esse grande país que conseguiria uma coordenação na forma como a segurança internacional ia ser gerida dentro do sistema internacional”, explica André Frota, professor do curso de Relações Internacionais da Uninter.

Na última semana, o ministro de Defesa da Rússia, Sergei Shoigu, anunciou que os militares iniciariam sua retirada da fronteira. O governo russo qualificou as atividades como “satisfatórias” e “necessárias” diante da acusação recente de que forças da Otan aumentaram sua presença na mesma região.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos aponta que, desde 2014, o conflito civil já matou mais de 14 mil pessoas e feriu outras 27 mil. Segundo o órgão, 2 milhões de residentes do leste ucraniano teriam abandonado seus lares, enquanto cerca de 3,5 milhões de civis necessitariam de ajuda humanitária.

“Em 2013 tivemos, quando a Rússia anexa a Crimeia, uma evidência clara de que o mundo seria organizado por potências regionais e não apenas por uma potência global, como a gente imaginava na transição do século 20 para o 21”, complementa Frota.

A ocupação dos EUA no Afeganistão

Outro marco na mudança das relações internacionais na virada dos séculos foram os atentados de 11 de setembro. Neste ano, a presença americana em solo afegão completará 20 anos, sendo a guerra mais longa já travada pelos Estados Unidos.

As tropas norte-americanas invadiram o território afegão numa ofensiva contra o grupo islâmico Talibã, oponente do governo oficial do Afeganistão e que protegia as ações da Al-Qaeda. Mais informações sobre o conflito podem ser lidas aqui, em texto publicado pelo Uninter Notícias no ano passado.

Com o mesmo discurso de seus antecessores, Biden garantiu que as tropas estadunidenses deixarão o país do Oriente Médio até 11 de setembro deste ano. “É hora de encerrar a guerra mais longa dos Estados Unidos. É hora de as tropas americanas voltarem para casa”, disse o presidente em pronunciamento na Casa Branca em 14.abr.21.

O que antes havia sido definida como data limite para o retorno dos militares tornou-se o dia inicial da evasão: 1º de maio. Hoje, o país conta a presença de cerca de 2,5 mil soldados norte-americanos, o menor número desde 2001. O auge do conflito, em 2011, chegou a registrar 98 mil combatentes americanos, segundo o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

A expectativa gerada pelo comunicado foi mista. Enquanto parte dos analistas defende a saída dos Estados Unidos, argumentando que o país causou mais instabilidade e terror ao Afeganistão do que segurança, outra parcela crê que a retirada das tropas possa insurgir as forças talibãs numa ofensiva maior na guerra civil. O grupo, que defende a instituição de um novo poder no país e se comprometeu a não acobertar células extremistas como a Al-Qaeda, hoje possui uma forte presença em vilarejos e comunidades nos arredores das grandes cidades afegãs, essas sob controle do governo oficial.

“Nesse momento, o interesse dos Estados Unidos é de se voltar para dentro e usar o dinheiro que estava sendo despendido nesse contingente de tropas internacionais para ajudar os americanos a se recuperarem da pandemia”, argumenta Frota.

O professor do curso de Ciência Política da Uninter Luiz Domingos Costa traça um paralelo com a Guerra do Vietnã. O país asiático foi ocupado pelos americanos entre 1965 e 1973, numa guerra civil que se estendeu de 1959 a 1975. O conflito tem a estimativa de 4 milhões de vítimas vietnamitas, cambojanas e laocianas (de países vizinhos ao Vietnã). Os Estados Unidos contabilizam 58 mil soldados mortos. A invasão gerou críticas aos americanos, correspondendo a uma rejeição de 60% à época, segundo o instituto norte-americano de pesquisa Gallup.

“Esse tipo de intervenção parece sempre gerar mais problemas do que soluções. Ao longo dos 20 anos, o objetivo principal, que era acabar com o Talibã, não se alcançou, gerou problemas locais que não existiam e para países aliados”, diz Domingos Costa.

A Guerra do Afeganistão já contabiliza 3.577 soldados mortos na coalizão liderada pelos Estados Unidos, de acordo com o site de rastreamento iCasualties. O país norte-americano é o que conta com mais baixas entre as nações do bloco: 2.452. O número de civis afegãos mortos devido ao conflito é de mais de 35 mil, segundo a ONU. Um estudo publicado em 2018 pelo Instituto Watson, da Universidade Brown (EUA), aponta que cerca de 150 mil pessoas tenham morrido como consequência da guerra em território afegão.

A conversa entre os professores foi promovida pelo programa Mundo In the News em 22.abr.21. A realização é uma parceria entre a Rádio Uninter e os cursos de Jornalismo e Relações Internacionais da instituição. O programa trata das principais manchetes do noticiário internacional e vai ao ar quinzenalmente, às 18h das quintas-feiras. Para assistir ao episódio, clique aqui.

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Autor: Arthur Salles - Estagiário de Jornalismo
Edição: Mauri König
Créditos do Fotógrafo: Defence Imagery/Pixabay e reprodução


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