Folia nas ruas, impacto no planeta
Autor: Sandra Lopes*
O Carnaval é a grande festa popular no Brasil, uma das maiores celebrações culturais do planeta, uma explosão de música, dança e ocupação criativa do espaço público. Entretanto, por trás do brilho, das fantasias e da folia, persiste um problema que se repete a cada ano: o impacto ambiental provocado por milhões de foliões nas ruas.
Esse cenário se torna ainda mais preocupante quando se considera que o Brasil já é o campeão de geração de lixo da América Latina e do Caribe. Segundo levantamento da International Solid Waste, até 2030 o país deve gerar cerca de 100 milhões de toneladas de resíduos por ano, respondendo por aproximadamente 40% de toda a produção do continente.
Essa realidade nos lembra da urgência de repensar grandes eventos populares. Basta observar o que ocorreu há dois meses, na virada do ano. No Rio de Janeiro, o Réveillon, visto como um “ensaio geral” para o Carnaval, gerou 1.250 toneladas de resíduos, sendo 625 toneladas apenas em Copacabana, segundo a Comlurb, exigindo uma operação ampliada com mais de 5 mil garis. No Paraná, equipes da Sanepar recolheram 8,8 toneladas de recicláveis e descartáveis nas praias, 3 toneladas acima da média diária de 10 dias de operação em Pontal do Paraná, Matinhos e Guaratuba. Em São Paulo, o pré-Carnaval de 2025 também foi marcado pelo grande acúmulo: quase 3 mil garis por dia removeram 227,7 toneladas de lixo após a passagem dos blocos, evidenciando o impacto crescente da folia sobre o ambiente urbano.
Dados locais que refletem um problema global. A geração de resíduos no mundo deve alcançar 3,4 bilhões de toneladas em 2050, um aumento de 70% em relação a 2016, quando o volume era de cerca de 2 bilhões de toneladas. Ou seja, o que se vê nas ruas durante grandes festas é parte de uma crise ambiental muito maior, impulsionada por padrões de consumo excessivos e descartáveis.
Todo evento tem um padrão de consumo. No Réveillon, predominam embalagens, latas de alumínio, garrafas de vidro, copos descartáveis, restos de alimentos e plásticos diversos. No Carnaval, não é diferente: o ciclo se repete, infelizmente. Especialistas em sustentabilidade alertam que plásticos e itens não recicláveis compõem grande parte dos resíduos recolhidos e têm forte impacto ambiental, podendo levar séculos para se decompor.
Nas cidades litorâneas, o problema se torna ainda mais crítico. Grande parte do lixo deixado nas praias acaba sendo levada para o mar, comprometendo ecossistemas e a fauna marinha, além de impedir que banhistas usufruam desses espaços para lazer e convivência familiar. O que começou como uma festa de alegria momentânea se converte em um passivo ambiental de longo prazo.
No Carnaval, fantasias e adereços chamam atenção pelo brilho, glitter e pelas cores, grande parte desses materiais é feito de plásticos e microplásticos que contaminam o meio ambiente. O glitter tradicional, por exemplo, é um microplástico altamente poluente, com impacto direto na água e na vida marinha. Os microplásticos são partículas com dimensões entre 300 micrômetros e 5 milímetros que persistem no ambiente por muitos anos e se espalham facilmente por meio das marés, afetando toda a cadeia marinha.
Algumas atitudes simples podem tornar o Carnaval mais sustentável: utilizar garrafas reutilizáveis para hidratação, optar por brilhos biodegradáveis feitos em casa com algas marinhas, amido de milho, gelatina, corantes alimentícios e pó de mica, reutilizar fantasias, escolher abadás e adereços mais ecológicos e reduzir o consumo de descartáveis. Afinal, o que importa é a diversão, não o desperdício.
Mas a verdadeira mudança depende da soma de esforços entre gestores públicos, foliões, artistas, organizadores e comerciantes. Reduzir o consumo é tão importante quanto dar a destinação correta aos resíduos gerados em eventos como o Carnaval.
Festejar não deve significar degradar. O Carnaval pode — e precisa — evoluir para refletir um país que busca modernidade, responsabilidade e respeito ao ambiente em que vive. O Brasil merece um Carnaval que continue lindo, mas que agora também seja sustentável.
Sandra Lopes é Mestre em Gestão Ambiental, professora e Coordenadora de cursos de Pós-Graduação na UNINTER.
Autor: Sandra Lopes*Créditos do Fotógrafo: Rodrigo Leal/Banco Uninter e Microsoft Copilot (IA)


