Escola de Pais do Brasil orienta e direciona cuidadores nos desafios da educação

Autor: Nayara Rosolen - Jornalista

O uso de aparelhos eletrônicos conectados à internet ganhou espaço no cotidiano das famílias à medida que as tecnologias avançaram. Hoje, a exposição às telas é intensa e intergeracional. Mas se por um lado facilitaram a comunicação e o alcance às informações, também ocupam lugar em rodas de debates acerca dos prejuízos que a utilização indiscriminada pode causar, principalmente na educação de crianças e jovens.

Impor limites e entrar em acordos de convivência relacionados ao uso das tecnologias é um dos maiores desafios que os pais e cuidadores encontram atualmente. É o que afirma a vice-presidente da Escolas de Pais do Brasil (EPB) nacional e diretora de Congresso, Seminário e Eventos da EPB Curitiba (PR), Marlene Pereira, e a diretora Pedagógica, de Divulgação e Relações Públicas, Carolina Oliveira, também da seccional da capital paranaense.

“Os pais estão viciados. Reclamam dos filhos, mas estão dando um exemplo nada saudável para as crianças. É uma coisa boa, desde que sirva para você e não que você seja servidor, dependente dela”, explicam.

Para a diretora da Escola Superior de Educação, Humanidades e Línguas (ESEHL) da Uninter, Dinamara Machado, ao longo da história as crianças sempre foram entendidas como miniaturas dos adultos. “Por consequência, o sujeito de direito na infância e legitimado socialmente, conseguiu visibilidade nas políticas públicas e em muitos lares recebeu aparelhos tecnológicos para ocupar seu tempo”, afirma.

“O sequestro da infância, pela troca da manipulação das telas, resulta no Transtorno de Déficit de Natureza (TDN), e apenas o tempo histórico dos próximos anos contarão como teremos este sujeito de direito inserido na sociedade globalizada e líquida, que cobra por saúde emocional”, salienta Dinamara.

A TDN se trata da ideia de que as crianças passam menos tempo ao ar livre, em contato com o mundo natural, e o resultado disso reflete em uma ampla gama de problemas físicos e comportamentais devido a essa desconexão (veja mais). Basta ir a um restaurante ou espaços de convívio coletivo para observar a dispersão e desconexão entre as pessoas, ainda que próximas fisicamente. Os pais utilizam os aparelhos eletrônicos para a distração dos filhos e, dessa forma, cada um se concentra em uma tela diferente.

“A criança está aprendendo que, quando chega a uma mesa de refeição, é cada um na sua. Não aprende também a respeitar e cuidar dos mais velhos. Se a criança é cuidada, aprende a cuidar. Se eu não cuido do meu filho e terceirizo inclusive a educação dele, que vínculo afetivo estou construindo? Nenhum. Quando eu ficar velho, com muita sorte, e se tiver recurso, ele me coloca em uma casa de repouso. A gente faz essa reflexão com os pais, de que ninguém vai dar o que não se tem”, garante Marlene.

Benefícios e prejuízos do excesso de telas

É fato que as telas também apresentam benefícios, principalmente por meio da educação a distância (EAD), que oferece recursos educacionais, personalização da aprendizagem, interatividade e colaboração. No entanto, os professores Élcio Miguel Prus, Karyn Teixeira de Lemos e Renata Burgo Fedato, que atuam na ESEHL, alertam para a necessidade da atenção, orientação e acompanhamento da família.

Especialista em EAD e Novas Tecnologias, Élcio relaciona o excesso de tempo nos dispositivos com os desafios do acesso a conteúdo inadequado, dependência que afeta o desenvolvimento social e emocional e o impacto na saúde mental devido à exposição ao cyberbullying e pressão das redes sociais. De acordo com o profissional, os prejuízos podem aparecer na forma de distrações, isolamento social, problemas de concentração e desigualdade de acesso.

“A internet é a nova ‘rua’ em que as crianças estão desprotegidas quando não há supervisão de um adulto. Muitos jogos e acessos às redes sociais podem causar uma certa ‘dependência’ na qual a criança ou o jovem sente a necessidade de estar constantemente, seja para não perder nada ‘importante’ ou conseguir conquistas em jogos. Isso pode afetar os estudos ou outras atividades e exercícios que proporcionam uma vida mais saudável. Muitas vezes esses conteúdos estão carregados de cyberbullying ou que afetam diretamente a autoestima e, mutas vezes, eles não sabem lidar com isso”, alerta Karyn, que é mestre em Educação e Tecnologias Digitais.

Por isso, Élcio acredita ser importante alguns acordos de convivência, com uma comunicação clara, assim como definir regras para estabelecer limites de tempo e conteúdo. O profissional também mostra ser importante a modelagem de comportamento, monitoramento, revisão periódica e educação contínua, com incentivo da responsabilidade.

“É importante explicar aos jovens e crianças sobre o porquê desses limites serem estabelecidos, para que se tornem corresponsáveis pela sua própria segurança e saúde mental. E que também priorizem outras atividades para o desenvolvimento integral. Para crianças pequenas, a supervisão e orientação é fundamental. Cabe às famílias o incentivo às atividades saudáveis que priorizem a convivência, o diálogo e o tempo juntos”, complementa Karyn.

Especialista em Alfabetização e Letramento e mestre em Educação, Renata Burgo também é mãe e diz que um dos maiores desafios dos pais é o medo de ‘perder’ o filho para o mundo que se mostra atrativo e chamativo. Portanto, diz que os cuidadores devem adotar a postura de ser mais tecnológico para acompanhar as crianças e estar ao lado no momento de utilizar estas ferramentas.

“Recentemente meu filho afirmou que dormir tarde fazia bem ao corpo, dizendo que um médico tinha dito. Logo, fizemos o trabalho de pesquisa para ver se esta ‘opinião’ estava de acordo com pesquisas científicas já desenvolvidas. É claro que encontramos argumentos que derrubavam a fala, mas o tempo que dediquei ao meu filho, de pesquisa, de leitura e elaboração de um raciocínio baseado em argumentos e fatos, não é nem rápido nem fácil”, conta.

Em outro momento, o filho quis mostrar a Renata a matemática e seus símbolos de forma que cada um possuía poderes como em um jogo. “Tão logo assisti junto com ele e aproveitei para que ele fizesse a tarefa junto comigo, pois se tratava do mesmo assunto […]. Creio que assim, envolvidos e interessados, consigamos favorecer o uso da tecnologia em benefício próprio”, diz a profissional.

Renata mostra que participar do mundo tecnológico e incentivar momentos conectados e desconectados é importante. Da mesma forma, proporcionar ambientes e momentos coletivos para que utilizem os dispositivos, limitar o tempo e instalar aplicativos de acompanhamento nas redes. “Todas essas atitudes podem favorecer a boa utilização da tecnologia e das telas”, conclui a professora.

Na EPB, Marlene e Carolina afirmam que, em rodas de conversa e ciclos de debate, é possível observar a dificuldade que os pais têm em colocar limites e estabelecer os acordos de convívio. Por isso, para além das palestras e bate-papos promovidos, a organização busca munir pais e cuidadores com materiais complementares educativos e informativos, que se adequem à realidade de cada caso.

“Contribuímos para a reflexão dos pais, de que podem fazer diferente e melhor. Não adianta dizer que está errado. Eu particularmente digo que deixou de acertar, porque não tinha todas as ferramentas. Então, a gente dá as ferramentas para eles. As regras da casa continuam sendo do pai e da mãe. À medida que a criança vai crescendo, vocês podem fazer acordos de convívio. Muitos acham a adolescência difícil, porque esquecem que já foram adolescentes e não se preparam para enfrentar essa fase que é de muitas perturbações psicológicas e mudanças físicas”, acrescenta Marlene.

Formando cidadãos

Preocupados com o rumo que tomava a educação das crianças, em um mundo pós-guerra mundial, um grupo de educadores e religiosos constituíram a Escola de Pais, em 1963, em São Paulo (SP). A ação foi liderada pelo padre Lionel Corbeil, que fundou a associação preocupada com a infância e juventude. Junto dele, outros precursores como Madre Teresa Cristina, padre Paul-Eugène Charbonneau, Maria Junqueira e Maria Alzira. O intuito era ajudar os pais por meio de um trabalho preventivo e orientativo, e a missão da organização ainda hoje é “ajudar os pais, futuros pais e agentes educadores a formar verdadeiros cidadãos”.

“Quando uma família vai bem, as crianças também vão estar [bem]. As crianças, os jovens, até mesmo nós adultos, precisamos de um lar funcional e, para isso, precisa trabalhar em cima”, explica Marlene, que também é atual vice-presidente da EPB nacional ao lado do marido, José Carlos Pereira.

Tão logo, criaram a seccional em Curitiba, a mais antiga ainda ativa, que completa 60 anos em 21 de março de 2024. O lançamento na capital paranaense aconteceu com a presença de Maria Junqueira, no Colégio Estadual do Paraná (CEP), e hoje tem na presidência o casal Zenilda Barbosa Castelo Branco e Alexandre Carlos Castelo Branco.

“Esses precursores são verdadeiras pessoas iluminadas que trouxeram, plantaram e multiplicaram. Era um momento muito difícil no Brasil, na época da ditadura, falando em educação, orientação, coisas que não eram bem-vistas. Hoje estamos em 47 cidades, 11 estados e uma unidade virtual, com mais de 500 associados. É um trabalho que exige investimento de tempo e de estudo, porque não podemos chegar e falar o que pensamos, temos que ter embasamento”, pontua a diretora, que garante que, embora tenha sido fundada por religiosos, a organização não tem vínculo com nenhum credo político ou religioso.

Atualmente, a seccional de Curitiba conta com 15 associados voluntários. Para participar, Marlene explica que o processo passa por fazer o ciclo de debates, em sete encontros, sem nenhuma obrigatoriedade de ser voluntário. Se a pessoa se identificar, pode passar para o estágio dois do programa de integração para aprofundamento e conhecimento da EPB em mais seis encontros. Já apto como associado, pode ser coordenador e passar para a etapa três para levar a mensagem para os pais e cuidadores. A cada quinzena, os voluntários se reúnem para estimular e buscar mais conhecimento e estudo das informações atualizadas.

Quando a EPB surgiu, era voltada apenas para casais. Hoje são incluídos pais separados, viúvos, solteiros, em novos casamentos, além de pastores, padres, educadores, avós e cuidadores em geral. “Cuidadores são todos aqueles que dedicam pelo menos algumas horas do dia para cuidar das crianças”, pontua Marlene.

A diretora afirma que qualquer pessoa pode convidar a organização para fazer o trabalho, mas a maior parceria acontece com escolas, seja na modalidade presencial ou on-line. Além disso, a EPB atua em algumas frentes:

  1. Ciclo de debates: Encontros para promover interação, troca de experiências e conscientização acerca das temáticas “Educar é um desafio”; “Os vínculos afetivos”; “Uma ação educativa”; “Uma boa compreensão”; “Conhecer e respeitar”; “A adolescência”; “Para acompanhar”; e “A cultura da paz”.
  2. Conversas com pais, mães e educadores: Quatro cursos que seguem as fases de desenvolvimento. Fase Infantil, de 0 a 5 anos; Fase Escolar, de 6 a 10 anos; Fase Pré-Adolescência e Adolescência, de 11 a 18 anos; e Filhos Adultos.
  3. Bem envelhecer: Encontros com as temáticas “Conhecendo o processo de envelhecimento”; “Envelhecer no século XXI: Capacidade de adaptar-se”; “Saúde física”; “Saúde mental”; “Projeto de vida”; “Relacionamento social/familiar”; “O papel dos avós”; e “Espiritualidade e sentido da vida”.
  4. Congresso Nacional: Evento anual que traz a reflexão e discussão de temas da vanguarda. O de 2023 foi Adolescência, Família e Sociedade: Saúde Psicoemocional
  5. Webinars: Palestras transmitidas pelo canal da Escola de Pais do Brasil, com especialistas, estudiosos e profissionais reconhecidos sobre os temas abordados.
  6. Seminários e palestras: São abordados temas como a importância da comunicação efetiva, estratégia para fortalecimento de vínculos familiares, desenvolvimento emocional e social das crianças, entre outros. O Seminário 2023 da seccional de Curitiba foi Cuidar e Ser Cuidado.
  7. Revistas: Impressas ou digitais, oferecem conhecimento, orientação, prática e compartilhamento de experiências e atualização. São produzidas pelas seccionais e na realização do Congresso Nacional.

Até o momento são contabilizados mais de nove mil ciclos de debates, dez mil palestras e mais de 600 mil filhos beneficiados. Em agosto de 2023, a EPB Curitiba lançou a revista mais recente, sobre Cuidar e ser cuidado, que está disponível para livre acesso na versão digital. Marlene explica que as temáticas são escolhidas a partir das necessidades demandadas nos debates e segue as discussões do congresso anual. Acesse o site da EPB para maiores informações.

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Autor: Nayara Rosolen - Jornalista
Edição: Arthur Salles - Assistente de Comunicação Acadêmica


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