Brasil em transição: o respeito e a biologia
Autor: Sheron Mendes*
O Brasil vive uma transformação social, mas parte de suas estruturas públicas ainda tenta compreender como responder a ela. Talvez o exemplo mais emblemático disso seja o fato de o próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ainda não possuir um levantamento consolidado sobre a população trans brasileira. Em um país onde o debate sobre identidade de gênero ocupa escolas, famílias, redes sociais e tribunais, a ausência desses dados vai além das lacunas, e mostra um sistema que ainda busca caminhos para compreender uma realidade em mudança.
Na medicina, esse desafio parece ser mais delicado. A transição de gênero não envolve apenas nome social, identidade ou expressão individual. Ela frequentemente inclui intervenções hormonais prolongadas, alterações metabólicas, mudanças cardiovasculares, adaptações fisiológicas e acompanhamentos psicológicos contínuos. E justamente por isso, cresce entre especialistas o debate sobre a necessidade de protocolos mais específicos para o cuidado dessa população.
Hoje, muitos atendimentos acabam fragmentados. O endocrinologista acompanha os hormônios. O ginecologista avalia estruturas anatômicas específicas. O psiquiatra acompanha sofrimento emocional. O clínico geral observa alterações metabólicas. Mas nem sempre existe uma integração efetiva entre essas áreas. Em muitos casos, o próprio paciente precisa transitar sozinho entre diferentes profissionais, tentando conectar informações que deveriam estar organizadas dentro de um cuidado multidisciplinar. O problema é que o corpo humano não funciona de forma fragmentada.
Uma mulher trans em terapia hormonal prolongada pode apresentar riscos cardiovasculares, alterações de coagulação, impactos hepáticos e mudanças ósseas que exigem acompanhamento específico. Homens trans também podem necessitar de avaliações ginecológicas, dependendo de sua anatomia e histórico clínico. Ignorar essas variáveis não protege ninguém. Pelo contrário: pode atrasar diagnósticos, dificultar prevenções e aumentar vulnerabilidades de saúde. E talvez este seja o ponto mais sensível do debate atual: considerar fatores biológicos não representa desrespeito à identidade humana. Representa responsabilidade médica.
A medicina baseada em evidências sempre partiu da análise cuidadosa das singularidades de cada paciente. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças raras recebem protocolos específicos justamente porque diferentes condições exigem diferentes formas de cuidado. Com a população trans, a lógica deveria ser a mesma. O que preocupa é que o medo de errar socialmente, somado à ausência de formação estritamente especializada, pode levar profissionais a evitarem discussões clínicas importantes.
O estudo de 2024, publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia, aponta escassez de profissionais preparados e fragmentação no cuidado oferecido à população trans nos serviços de saúde. Já a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, também em 2024, alerta sobre a ausência de formação específica e a limitação de serviços especializados favorecendo automedicação hormonal e acompanhamento fragmentado.
Isso não deveria gerar polarização. Deveria gerar formação. Talvez, o Brasil esteja entrando em um momento decisivo: compreender que acolhimento emocional e rigor científico não são opostos. São complementares. Pessoas trans não precisam escolher entre respeito e segurança clínica. Precisam de um sistema de saúde preparado para oferecer ambos simultaneamente.
O debate não envolve apenas acolhimento social ou linguagem, mas também a necessidade de preparo técnico contínuo diante de alterações fisiológicas, metabólicas e hormonais que exigem monitoramento clínico integrado.
* Sheron Mendes é bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em Educação da Uninter.
Créditos do Fotógrafo: Paulo Pinto/Agência Brasil
