A história de Maurício e como nunca é tarde para realizar sonhos

Autor: Barbara Carvalho - Jornalista

Seria a educação à distância uma facilitadora de sonhos? Fato é que graças a ela, milhares de pessoas que antes não puderam começar ou completar o ensino superior – seja por falta de tempo, condições financeiras ou porque simplesmente decidiram mudar de área – hoje ostentam o diploma da profissão tão almejada.

Às vezes, essa realização vem depois de muitos anos de espera. É o caso do engenheiro civil Maurício Côrtes que, após aposentar-se aos 59 anos, decidiu retomar os estudos em busca da profissão dos sonhos. Educação Física foi o curso escolhido, uma vez que a prática esportiva sempre o acompanhou no seu cotidiano.

Maurício faz parte de uma parcela que cresce a cada ano. Entre 2015 e 2019, aumentou em quase 50% o número de idosos no Brasil que ingressaram no ensino superior. Segundo dados do Censo de Educação Superior de 2019, o mais recente disponibilizado pelo Ministério da Educação, hoje 27 mil idosos cursam este nível de ensino no país. O aumento da expectativa de vida e a busca por uma velhice mais ativa devem alavancar ainda mais esses números e possibilitar mais histórias inspiradoras.

É de família

Campos dos Goytacazes (RJ) possui a característica de ter sido pioneira em diversos aspectos. A cidade, por exemplo, foi a primeira brasileira a ter luz elétrica nas ruas, devido à instalação de uma usina termoelétrica em 1883.

O pioneirismo da cidade natal também se aplica à vida de Maurício. Seu pai, Alencar Azevedo Côrtes, foi um dos primeiros jogadores de futebol profissional do Brasil. Atuava em um modesto time da cidade e, apesar do salário pequeno, podia dizer que vivia da profissão. Além do futebol, ainda jogava vôlei amador. Dessa forma, foi passando a sua paixão pelos esportes aos seus quatro filhos.

Os três irmãos de Maurício fizeram da paixão do pai também a sua profissão. Formados em licenciatura plena em Educação Física, são professores e seguem esse caminho desde jovens. Entre eles, Eliane Côrtes foi campeã brasileira de handebol, Guilherme Côrtes já foi convocado para seleção brasileira juvenil de basquete e Valéria Côrtes também atua na área esportiva.

Maurício foi o único a não seguir os passos do pai na primeira formação. “Na época do vestibular, eu cheguei a fazer a minha inscrição em Educação Física, eu já tinha uma irmã que estava formando em licenciatura plena em educação física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que era um curso muito tradicional, não tinha a quantidade de cursos que hoje tem no Brasil. Só que eu não tinha a vocação para dar aula, eu via a minha mãe como professora de Geografia em uma luta muito grande e com um salário muito baixo naquela época, então dar aula não me atraiu. Eu rasguei a ficha de inscrição e fui fazer Engenharia que era outra coisa que eu gostava”, conta Côrtes.

Mas, como o esporte faz parte do DNA da família Côrtes, a paixão seguiu gerações. Patrícia, filha de Maurício, também bebeu da fonte e não seguiu muito longe dos passos do avô. Cadeirante, ela praticou diversos esportes, como hipismo e judô adaptados, e sempre se manteve ativa. Hoje ela é jornalista, porém o esporte segue sendo um dos seus maiores focos. Ela trabalhou como estagiária no Comitê Olímpico Brasileiro nas Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016 e agora faz parte do Comitê Paraolímpico Brasileiro atuando na área de mídias sociais.

A mudança na carreira

Formado em Engenharia Civil em 1980, pela UFRJ, Maurício possui pós-graduação lato sensu em gerência de energia pela fundação Getúlio Vargas e uma especialização realizada da Universidade de São Paulo (USP). Seu currículo ainda possui diversos cursos realizados enquanto esteve trabalhando na Petrobras, durante quase 30 anos de uma história que concluiu em 2015 com a aposentadoria como engenheiro.

Porém, em 2017, a tranquilidade da aposentadoria foi ameaçada por cortes realizados no valor de pagamento. De acordo com Maurício, foram retirados 30% da quantia do salário líquido dos aposentados para pagar um equacionamento de dividas realizado pelo seu plano de aposentadoria. A ameaça do fim deste plano, da perda do salário e toda a instabilidade acarretou em um ano estressante. Contudo, foi em meio à turbulência que surgiu a ideia de juntar o útil ao agradável. “Comecei a pensar em fazer algo que eu gostasse e também para ganhar dinheiro, então eu não entrei na Educação Física só porque sempre gostei de esporte, eu queria ter uma renda.”, complementa.

Faculdade x terceira idade

Maurício completou sua primeira graduação durante o período da ditatura militar, e cursar uma faculdade nos tempos atuais foi um choque para ele. Matérias como sociologia e psicologia do esporte, que estudou no curso de Bacharelado em Educação Física da Uninter, eram uma realidade distante e que, inicialmente, para ele, não faziam sentido serem estudadas por alguém que pretendia trabalhar com esporte.

“Durante a minha nova formação houve um choque, porque eu nasci e me formei na época do regime militar, então era uma Educação Física para o gesto técnico. No caso da EAD foi um impacto enorme, eu tive acesso a muita tecnologia, e isso para mim foi muito legal, a EAD me impressionou por causa disso”, conta Côrtes.

Foram quatro anos de intenso envolvimento com o curso, período no qual o estranhamento inicial se tornou empolgação. “A educação física da Uninter me ajudou na parte humana. Eu venho de uma formação técnica, só que o mundo mudou e foi muito bom porque eu passei a entender uma série de coisas, diminuiu muito aquelas questões de choque de gerações. Quando eu entrei na Educação Física eu comecei a entender rapidamente tudo o que os meus irmãos falavam, porque hoje a educação física é outra coisa totalmente diferente, então isso para mim foi muito legal. O que eu aprendi na Uninter a todo momento estou colocando em prática”, ressalta.

Maurício se formou em fevereiro de 2022 e segundo ele, surgiu até uma certa melancolia após a finalização. Incentivado pelos irmãos, seu trabalho de conclusão de curso (TCC) tratou da área qual ele trabalha hoje, treinamento intervalado de alta intensidade.

Uma história de sucesso no esporte

Antes do início da faculdade de Educação Física, Maurício já era muito ligado à área esportiva. Mesmo com o antigo trabalho ocupando boa tarde de seu tempo, isso não o impediu de fazer o que mais gostava, pois sempre esteve por dentro de competições em diversos lugares do Brasil e do mundo. Nessas andanças esportivas, já precisou dormir em aeroportos a fim de conseguir participar de todas elas. Com isso, o EAD foi essencial para a sua formação, pois a possibilidade de estudar em qualquer lugar possibilitou que ele não abrisse mão de todas as atividades as quais almejava completar.

Maurício comemorou seus 60 anos participando de umas das competições de mountain bike mais difíceis do mundo, o Transandes Chile, em 2018. Foram cinco dias pedalando entre as Cordilheiras dos Andes, o que lhe resultou o quarto lugar na categoria acima dos 60. Em 2014, aos 56 anos, foi campeão brasileiro de mountain bike, momento que segundo ele foi a realização de um sonho, pois o que ele almejava era “ser o melhor do Brasil em alguma coisa”. Também participou do Rally Piocerá em 2015, outra grande conquista devido à dificuldade da competição, que consiste em uma competição de 4 a 7 dias de intenso trajeto de rali entre os estados do Ceará e Piaui. Ao todo, Maurício conta com cerca de 90 maratonas em seu currículo.

Apaixonado por esportes radicais, hoje ele trabalha com consultoria online e treinamento para ciclistas e corredores, com foco em esporte de rendimento, condicionamento, qualidade de vida e, com uma pitada da época da engenharia, o treinamento com planilhas. “Quando eu comecei o ciclismo, eu comecei uma oportunidade de trabalhar com treinamento, então se eu não gosto de dar aula, a parte de treinamento me atraia bastante”.

Para o futuro, Maurício pretende intensificar o trabalho já realizado, mas sem trabalhar com horários fixos e sem uma rotina programada, além de continuar nos estudos com uma especialização em treinamento ou em fisiologia do esporte. Os sonhos não acabam por aí, ele pretende disputar mais competições e conquistar ainda mais vitórias.

“Eu resumo o esporte em três pilares: o físico que é o mais conhecido, onde trabalhamos a força, músculos, e etc. Tem o pilar mental, porque se eu vou fazer qualquer atividade física eu tenho que pensar, concentrar, treinar, e a vontade fazer, mantendo a mente ativa e isso é desafiador. E o pilar social, que é conhecer e mudar a vida de pessoas”, finaliza Côrtes.

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Autor: Barbara Carvalho - Jornalista
Edição: Larissa Drabeski
Créditos do Fotógrafo: arquivo pessoal


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