A entrega de Juliane ao bem comum

Autor: Valéria Alves – Assistente Multimídia

“Hoje, a palavra para mim é: melhor o feito do que o perfeito. Às vezes, temos medo de agir porque ficamos pensando em ter todos os recursos, ou em fazer o melhor, mas precisamos realmente começar e ir se aperfeiçoando com o tempo. As nossas metas, as nossas crenças, militâncias, devem ser trabalhadas dentro de nós, e devemos pensar no bem comum, no outro”.

Essa frase de de Juliane Andrade da Silva sintetiza a sua filosofia de vida. Empreendedora social na Cluster Agência de Eventos e Projetos, ela é captadora de recursos, formada em administração de empresas com habilitação em marketing e propaganda, especialista em administração do terceiro setor e idealizadora do projeto EmpregAção. Também é articuladora da Rede do Terceiro Setor em Santa Catarina.

Hoje, aos 36 anos, Juliane acumula muitas conquistas na vida profissional, mas o percurso não foi fácil. O caminho que a levou ao terceiro setor, por exemplo, teve início aos 13 anos, quando teve o primeiro contato com o trabalho voluntário. Ela integrava o projeto Jocum (Jovens Com Uma Única Missão), movimento cristão internacional e interdenominacional que mobiliza as pessoas para a obra missionária e, entre suas atividades, realiza a prevenção e amparo a menores de idade em situação de risco, o apoio e recuperação de dependentes químicos e o desenvolvimento comunitário.

O despertar de Juliane se deu quando a equipe do Jocum se apresentou na igreja que ela frequentava. Chamou a atenção o fato de o projeto possuir impactos evangelísticos e ser um trabalho em prol de pessoas em situação de vulnerabilidade social. Participou do projeto de 2001 a 2014. “O primeiro impacto foi quando fui para Belo Horizonte. Eu era menor [de idade] e minha mãe assinou uma carta de responsabilidade. Então fui com eles, fiquei 15 dias em Belo Horizonte. Nesse evento, eles foram até o presídio e eu, por ser menor de idade, não pude ir, mas fiquei no suporte vendo todo o impacto que aquilo causava”, lembra.

A partir dali, os momentos marcantes como voluntária foram se multiplicando. Juliane recorda de uma iniciativa em sua igreja, em 2006, quando, ainda adolescente, foi com um grupo entregar comida para as pessoas em situação de rua. Os homens acolhidos foram levados a uma casa de recuperação e as mulheres, para a igreja. “Fiquei uma semana dormindo com três mulheres na igreja e as levei no posto de saúde para fazer preventivo e outros exames. O resultado é que uma voltou para as ruas, outra foi acolhida por uma família, onde trabalhou por muitos anos. A outra não tinha mais documentos pessoais, então a gente fez as documentações. Ela reencontrou a família e voltou para casa”, relata.

Em 2012, Juliane esteve em outro trabalho da Jocum, desta vez no Peru, para ajudar na fundação de uma ONG. O projeto trouxe uma nova visão de mundo e ela decidiu que iria se dedicar a ele após terminar o ensino médio. Quando compartilhou a ideia com uma das líderes do Jocum, recebeu o conselho de que poderia fazer muito mais pelas pessoas ao se dedicar aos estudos e fazer um curso superior. Então, absorveu essas palavras e se preparou para o vestibular. Tinha três opções: Serviço Social, Jornalismo e Administração.

Novo capítulo e início da trajetória no terceiro setor

Ao prestar vestibular, Juliane conseguiu vaga para Administração na Uninter. Decidiu ingressar no curso mesmo não sendo a graduação que mais desejava. Mas algo a surpreendeu positivamente e a fez criar uma conexão com o curso. Era a proposta de criação de um projeto social em uma aula de empreendedorismo. Os estudantes precisavam identificar a necessidade de uma instituição, captar recursos e então aplicar o projeto. Juliane escolheu uma ONG e, junto com seus colegas, percebeu a necessidade de uma biblioteca na instituição.

“Começamos a fazer campanha na faculdade, arrecadamos livros e alguém do grupo falou: ‘Nós precisamos dar algo para as crianças, não só livros, contar histórias, mas também ter alguma atividade’. Foi então que a gente pensou em lanche, cama elástica etc. Na igreja em que eu participava tinha uma fantasia da Priscilla, da TV Colosso [extinto programa da TV Globo], e aí fomos na faculdade para juntar dinheiro. Eu vesti a fantasia e fui em todas as turmas pedir doações. Foi bem legal, porque a gente fez esse apelo em nome das crianças”, lembra.

“No dia, a gente foi com fantasia, outro colega também vestiu uma. Contamos história para as crianças, e a biblioteca permaneceu. É um trabalho que teve continuidade, as crianças vão poder ter uma pedagoga para ler história pra elas, os maiores podem pegar livros. Então a gente sugeriu que fosse feita uma brinquedoteca. Fomos fazendo melhorias e ficou muito legal, e aquilo despertou algo em mim”, descreve.

Para Juliane, foi um momento empolgante por promover a mobilização de várias pessoas, como os alunos da faculdade, pessoas da família e da instituição. Para além do momento de catarse com as crianças atendidas pela ONG, foi algo que permaneceu em Juliane e teria continuidade. “Foi o ponto de conexão com o meu curso, e vi uma oportunidade de trabalhar com projetos sociais, de entender, buscar conhecer o terceiro setor, conhecer esse outro lado da Administração até então pouco explorado. Fiz o curso sempre voltado pra essa área, pensando nisso e projetando”.

Em cada lugar, uma oportunidade de ajudar ao próximo

Para pagar a faculdade (ela tinha bolsa de 50%), Juliane começou a trabalhar de forma independente com cerimonial e eventos na Cluster Agência de Eventos e Projetos, em 2009. Este acabou sendo o tema do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Administração. Nessa etapa, precisou enfrentar o desafio da escrita.

Segundo ela, pensar rápido demais faz com que escreva muito rápido, e muitas vezes as palavras no texto ficam sem contexto. Quando enviava para o professor, ele corrigia e voltava o trabalho para ser reescrito, o que fazia com que Juliane se sentisse mal. Não conseguia concluir o trabalho e, certo dia, foi conversar com a coordenadora do curso, Vanessa Rolon. Após a conversa, a professora Maria Del Carmen tomou a iniciativa de encaminhá-la para uma orientação da psicopedagoga da Uninter, que atendia no Campus Garcez da instituição.

“Falei com a psicopedagoga. Ela disse que estava tudo certo e que eu não precisava ser boa e acertar em tudo. Foi um aprendizado. Ela disse: ‘Você fez um projeto, você escreveu seu TCC, não está copiado e colado, você o desenvolveu, então agora você pode buscar alguém que faça uma revisão. Foi o que fiz e fui aprovada na banca. A dificuldade não era nem escrever, era contextualizar, então aprendi isso. Através da faculdade, aprendi a entender meus pontos fracos e não ficar focando neles, a realmente buscar ajuda. Isso me ajudou muito hoje, no network, no desenvolvimento, captação de recursos, na mobilização, no voluntariado”.

Na Cluster, Juliane viu uma oportunidade de ajudar a tornar realidade os sonhos das pessoas. Dentro da empresa, começou a trabalhar na área de Negócios Sociais, até que, em 2017, ela idealizou o EmpregAção como projeto social da Cluster, que tem como missão conectar pessoas e empresas no mundo do trabalho.

Segundo pesquisa realizada por Fredy Machado no aplicativo Survey Monkey, 36,52% dos profissionais estão insatisfeitos com o trabalho, enquanto 64,24% gostariam de mudar o que fazem hoje para atingir a felicidade. Por essa razão, o EmpregAção auxilia as pessoas a descobrirem o seu DNA profissional, trabalhando diferentes habilidades, como desenvolvimento pessoal e profissional, colocação e adaptação no primeiro emprego ou nova carreira, outplacement, preparação para a aposentaria, entre outros.

A visão é de que até 2030 o EmpregAção (que trabalha também com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU) seja uma referência em recolocação e desenvolvimento de profissionais para o mercado de trabalho no Brasil. O projeto realiza ações há 5 anos e já ajudou mais de 10 mil pessoas. Em sua participação em um stand na Feira de Profissões da Uninter, em 2018, recebeu mais de 8,5 mil dos 22 mil participantes do evento, realizado em Curitiba (PR).

“O meu DNA é social, sou empregadora social porque descobri isso, descobri que minha profissão faz sentido se ela gerar impacto, se eu estiver ajudando pessoas, transformando de alguma forma e fazendo algo pelo outro. Isso é o que me satisfaz. É tentar descobrir na pessoa o que ela de fato ama, e a gente procura desenvolver isso nela, trabalhar essa questão para que ela se descubra profissionalmente. O trabalho tem essa ideia, e trabalhamos também com oportunidade, ferramentas, indicações e sugestões para que a pessoa gere renda, gerando no grupo um network também”, explica Juliane.

Dentro do EmpregAção (@empreg.acao no Instagram) existe o programa 60D, que oferece curadoria e assessoria, que funciona da seguinte forma: No início, uma turma com no máximo 25 profissionais é formada, que tem aulas e encontros semanais através por live durante dois meses, divididas em quatro módulos. Esses encontros são realizados em grupo, porém a avaliação e o plano de ação são individuais. Como serviço opcional, são indicados especialistas para quem tiver necessidade, que podem ajudar a pessoa através de mentoria, consultoria, coaching e consultas.

A Uninter faz parte das parceiras do projeto, e Juliane escreveu um artigo sobre o EmpregAção para sua pós-graduação na instituição em MBA em Administração do Terceiro Setor. Hoje o EmpregAção é um Negócio Social e está em sua versão 2.5. Tudo começou com uma pequena iniciativa, a partir das próprias experiências.

“Em 2016, eu estava desempregada e comecei a divulgar vagas para pessoas na mesma situação. Estava procurando pra mim e, quando achava uma vaga que não me interessava, mandava para alguém que poderia se interessar. Criei um grupo no WhatsApp, comecei a divulgar e vimos que havia pessoas com dificuldade de entrar no grupo, usar e-mail, vários problemas pontuais. Com isso, criamos palestras em instituições do terceiro setor, fazíamos parceria com instituições que tinham programas de empregabilidade e realizamos eventos internos nessas instituições, pedíamos doações”, explica.

Um grande diferencial foi apresentar para as pessoas desempregadas o voluntariado como forma de desenvolver novas competências e habilidades, como o trabalho em equipe, liderança, entre outros. Isso abria oportunidades de colocar a experiência no currículo e não deixar lacunas sobre os potenciais de trabalho.

“Entre as pessoas que participaram, havia uma muito especial. Ela trabalhava na área de qualidade, era super assídua e uma grande profissional. Estava meio perdida na área profissional, então foi fazer o voluntariado, se engajou e se descobriu. Descobriu outras questões, acabou fazendo pós em serviço social e ajudou uma instituição a formalizar toda a questão da qualidade”, pontua Juliane.

Com ela, Juliane e os colegas aprenderam que o primeiro passo para grandes realizações é a iniciativa, fazer acontecer. Por isso, uma das histórias que mais marcaram Juliane foi quando um amigo falou sobre um campo de futebol e disse hipoteticamente que gostaria de trabalhar com um grupo em um campo. “Do que você precisa? Você só precisa de uma bola e dos meninos. Não precisa ser um espaço completo, comece com a bola. Quantas vezes na infância você brincou disso utilizando chinelos no gol, por exemplo? Comece, depois você vai buscando recursos e constrói o projeto até onde você quiser”, disse ao amigo.

Para Juliane, ao se pensar em terceiro setor é preciso pensar não só em ajudar as pessoas, mas também em empoderá-las. “O grande segredo é o empoderamento das pessoas. No caso do futebol, envolver os meninos pra ajudar a pensar no campo, ajudar a fazer, participar. É uma questão de ajudar as pessoas, mas mostrar também que elas podem, não torná-las dependente do sistema ou qualquer coisa. Quando você quer ensinar um menino a jogar futebol, por exemplo, não é só isso, é também tirá-lo das ruas, o trabalho em equipe. É trabalhar a essência, e as coisas vão acontecendo. Às vezes, os recursos vêm das pessoas que você menos imagina”, conclui.

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Autor: Valéria Alves – Assistente Multimídia
Edição: Mauri König


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