Como manter a motivação do “Ano Novo” quando a magia do Réveillon acaba

Autor: *Sheron Mendes

Estamos em meados de janeiro de 2026, e o ar ainda cheira a protetor solar e às promessas que fizemos a nós mesmos na virada. A academia, que na primeira semana parecia o camarote principal do Carnaval, já começa a ter seus espaços vazios. Aquele projeto revolucionário que ia sair do papel… bem, o papel continua em branco. Se você se identifica, bem-vindo ao clube. Saiba que você não é fraco nem preguiçoso. Você é apenas humano e seu cérebro está agindo exatamente como foi programado para agir.

A explosão de motivação do Ano Novo é uma das mais severas pegadinhas que a cultura nos prega. Sentimos que podemos conquistar o mundo. O problema? Essa pegadinha tem prazo de validade curto. É como a energia de um fogo de artifício: uma explosão intensa seguida por um lento apagar.

A neurociência ajuda a entender por quê. Nosso cérebro não opera por decretos emocionais, mas por circuitos de recompensa, hábitos e economia de energia. A motivação inicial nasce no sistema límbico, ligada à emoção da promessa. Sustentar mudanças ao longo do tempo, porém, exige a consolidação de hábitos mediados pelo córtex pré-frontal e pelos gânglios da base. É menos paixão e mais arquitetura.

E aqui está o pulo do gato: a gente superestima a paixão e subestima a arquitetura. Mudar um comportamento exige mais do que um “estopim”; exige a construção de uma nova estrada neural. E construir estradas dá trabalho. Seu cérebro, um mestre em economizar energia, sempre preferirá pegar o atalho já asfaltado do hábito antigo (ficar no sofá) em vez de desbravar a mata fechada do hábito novo (vestir o tênis de corrida).

Então, como manter a chama acesa sem depender do Réveillon?

Parando de esperar pela motivação. Ela é instável. A disciplina, ao contrário, pode ser desenvolvida. A neurocientista e autora Lisa Feldman Barrett explica que emoções não são reações, são construções. O mesmo vale para a motivação. A ação e o sentimento caminham de mãos dadas. Vá para a academia mesmo sem vontade.

Em vez de “ler 20 livros no ano”, sua meta deveria ser “ler uma página por dia”. Em vez de “correr 5 km todo dia”, comece com “calçar o tênis e sair pela porta”. O psicólogo BJ Fogg chama isso de “Tiny Habits”. O objetivo não é a performance, mas a consistência. É pavimentar o início daquela estrada neural, tornando a resistência do cérebro quase nula.

Entenda sua recompensa real. Você não quer “emagrecer”. Chega a soar como um constructo inatingível ou mesmo como um trauma. Você quer se sentir mais confiante, ter mais energia para brincar com seus filhos ou ter mais saúde. O cérebro precisa de um “porquê” forte para justificar o gasto de energia.

Então, que tal trocar a lista de resoluções por uma única meta para 2026: a de entender como você funciona e começar a construir, tijolo por tijolo, a vida que você quer, mesmo quando a magia do Ano Novo já tiver virado abóbora.

*Sheron Mendes é Bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em Educação na Uninter.

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Autor: *Sheron Mendes
Créditos do Fotógrafo: Rodrigo Leal/Banco Uninter e Moe Magners/Pexels


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