Primeiro da família a concluir o ensino superior, Lucas aconselha: “Convidem mais pessoas negras a se sentarem à mesa”

Autor: Nayara Rosolen - jornalista

O fenômeno global crescente de polarização e movimentos extremistas, com um bombardeio de desinformação, faz duas áreas de conhecimento serem cada vez mais convocadas para a proteção da democracia: a História e o Jornalismo, que juntos são capazes de apresentar os fatos, evitar que erros sejam repetidos, seja por meio do resgate histórico ou pela checagem de dados e busca da verdade.

Todos os dias, Lucas Cardoso, de 27 anos, sai de casa pela manhã em Planaltina (DF) e, durante o trajeto de 1h30 no transporte público, fica atualizado das notícias do mundo por meio de podcasts como o FT News Briefing, Panorama CBN, The Daily, Axios Today e BBC World Services News, além da newsletter do Poder360. A redação do jornal digital em Brasília (DF) é o destino final do jovem, que é responsável pela segunda das três edições do boletim informativo, enviado no horário de almoço para os leitores.

Historiador e atualmente estudante do curso de Jornalismo da Uninter, Lucas ingressou para a equipe do Poder360 como estagiário em meio à última semana do 2º turno das eleições presidenciais de 2022.

Ao mesmo tempo, um desafio e uma conquista. Como uma pessoa preta e de periferia, o acadêmico nunca se sentiu pertencente às redações dos grandes jornais, “predominantemente brancas e elitizadas”.

O estudante comenta que cresceu sem muitas referências imagéticas negras nos meios de comunicação do Brasil. O surgimento e ampliação de vozes começou com a difusão da internet, principalmente por meio do Youtube. Mas, nas mídias tradicionais, a representatividade ainda é baixa, e na maioria das vezes, estereotipada e negativa.

“Eu estava relutante em enviar meu currículo especificamente para redações (…) Acabei entrando em um processo de autossabotagem. Mas, quando vi no anúncio da vaga que o Poder360 é uma empresa plural e possui uma preocupação com a diversidade, me senti bem em submeter a vaga disponível. Quando cheguei na redação e vi muitas pessoas parecidas comigo, me fez sentir bastante confortável. Um lugar de pertencimento”, conta.

O jovem acredita ainda que “se tratando da eleição mais polarizada que o Brasil já teve desde a redemocratização, foi a melhor maneira possível de estrear. Ainda mais em um veículo que é referência em Política e Economia”.

Com a facilidade que sempre teve com conhecimentos das humanidades, Lucas considera que a História e o Jornalismo são áreas relacionadas em vários aspectos. Para ele, a História é a única que consegue responder e dar contextualização ao mundo atual e, em alguns casos, serve como lembrete para não se tomar novamente algumas decisões que já se provaram inadmissíveis.

 Fazendo e contando histórias

Lucas cresceu em uma comunidade ao lado da Estação Ecológica Águas Emendadas, em Planaltina, e teve uma infância tranquila perto da irmã um ano e meio mais velha, Jaqueline, e os pais, Gilson e Sebastiana.

Com o incentivo dos pais, que sempre enfatizaram a importância da educação, o jovem entrou para a estatística de primeira pessoa do núcleo familiar a concluir o ensino superior com a formação em História.

De acordo com o Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), em 2018 no Brasil, 33,2% dos concluintes de cursos presenciais eram os primeiros da família a conquistar o diploma. Já na educação a distância (EAD), o índice cresce para 38,2%, como mostra a reportagem do Correio Braziliense.

“É um sentimento de ser capaz de dar um passo a mais e entrar em um território que nenhum deles tiveram acesso. Mas, quando entro nesse espaço, não estou lá só. Carrego eles comigo, pois sem eles eu não estaria aqui. É uma conquista coletiva. Inclusive, minha irmã está prestes a concluir a graduação”, revela.

O estudante também diz que o fato se dá graças ao “universo do café”. Para custear as mensalidades da graduação, Lucas trabalhava como barista. O emprego que o ajudou a adquirir o diploma, foi também o que o ensinou sobre a cultura cafeeira e o apresentou inúmeras pessoas, que dividiam suas trajetórias únicas, dentro e fora do balcão.

“Assim como os grãos de café, conheci pessoas de diferentes locais de origem. Nossas vidas se cruzaram nesse lugar incomum. Essas pessoas compartilharam comigo seus sonhos, traumas, medos e alegrias. Aprendi a não fazer pré-julgamentos e estar aberto ao outro. Foi um ótimo processo de escuta, que com toda certeza vai me ajudar na área do Jornalismo. E espero contar as histórias delas um dia”, lembra.

Ainda quando estava finalizando a licenciatura em História, Lucas já estava “de olho” na segunda graduação, que precisava ser a distância por causa do trabalho na época. Ingressou seis meses antes de estourar a pandemia da Covid-19, o que considera uma “escolha correta”, uma vez que já estava adaptado à modalidade de ensino a que todos precisaram se habituar com o isolamento social.

“Escolhi a Uninter, porque foi pioneira na implementação do curso de Bacharelado em Jornalismo na modalidade EAD. Está sendo uma das minhas melhores experiências da vida acadêmica. Por mais que seja EAD, não me sinto sozinho nesse processo de ensino-aprendizagem. A instituição supre as necessidades com o kit multimídia, software como o Adobe e o Pacote Office, e o curso de inglês de alta qualidade com certificação e intercâmbio. Nunca vi nenhuma instituição ofertar isso”, salienta.

Lucas comenta ainda que o que aprende na graduação está intrínseco a ele e que as práticas jornalísticas fazem parte do cotidiano. Além do corpo docente da instituição, diz que está cercado de pessoas “extremamente talentosas, qualificadas e, acima de tudo, competentes” no estágio.

“São uma inspiração. Quero absorver o máximo possível dessa vivência, para que um dia eu possa estar no mesmo nível”, afirma.

E o estudante já busca a especialização e aperfeiçoamento com duas pós-graduações que também cursa atualmente: Economia Internacional e Diplomacia e Arte, Cultura e Educação.

Representatividade

Para Lucas, é importante criar mecanismos que facilitem a entrada de pluralidade nos meios de comunicação e na mídia. Entusiasta do audiovisual, sempre se sentiu incomodado com a baixa diversidade nos meios, por isso o estudo sobre as representações o motivaram como tema de pesquisa no Programa de Iniciação Científica (PIC) da Uninter.

O estudante garantiu a bolsa integral no grupo sobre Gênero, raça e sexualidade no audiovisual: Representações, recepção e consumo midiático, sob coordenação da professora Máira Nunes, que atua no curso de Jornalismo e também é historiadora.

“Isso é uma das coisas incríveis que a Uninter está me proporcionando. Fiz a minha primeira graduação em uma instituição que não incentiva a iniciação científica como a Uninter promove. É o meu primeiro contato com a produção científica e estou adorando”, conta.

Lucas está nas semanas finais da produção de um artigo sobre como os movimentos midiáticos #OscarSoWhite e #Metoo impactaram novas produções e no comportamento de Hollywood e sua reverberação na sociedade. O pesquisador utiliza as produções do ator e diretor Jordan Peele (MonkeyPaws Productios) e da atriz e produtora Margot Robbie (LuckyChap Entertainment) como objeto para analisar essas mudanças. A discussão permeia raça, gênero e interseccionalidade.

Em 2016, reportagens de jornalistas do New York Times expuseram o mecanismo de abuso e silenciamento que o produtor cinematográfico Harvey Weinstein usava com suas vítimas nos bastidores de Hollywood, todas mulheres. Esse foi o ponto de partida para os relatos de violência que vieram no ano seguinte, através da #Metoo, iniciado no Twitter, pela atriz Alyssa Milano.

Na sequência, Hollywood começou a investir em produções lideradas por mulheres, mas o pesquisador diz que “quase seis anos após, vimos que o movimento se limitou a um período (…) Achei que seria um ponto de mudança de comportamento da indústria cinematográfica, mas o tempo está provando o contrário”.

Ainda no ano de 2016, a #OscarSoWhite viralizou, após nenhum ator ou atriz negros estarem entre os 40 indicados na categoria de melhor atuação da 88ª cerimônia do Oscar, o que acontecia pelo segundo ano consecutivo.

A cobrança para maior representatividade na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas parece ter surtido efeito. Lucas diz que percebe uma mudança mais significativa e em como as pessoas não brancas estão sendo representadas. Segundo o pesquisador, filmes como Moonlight, Corra!, Pantera Negra, Parasita e A Mulher Rei “jamais teriam esse reconhecimento se não tivessem tido essa discussão lá atrás”.

“A baixa diversidade sempre me incomodou. Quando tinha personagens de cor ou LGBTQIA+, eram descartáveis para trama ou simplesmente uma representação negativa e problemática. É necessário discutir esses costumes e entender o surgimento delas. Me sinto muito sortudo de ter entrado para o GT da professora Máira Nunes, que tem um vasto conhecimento teórico e sensibilidade ao tratar desses temas. Além de ser uma escritora e editora incrível”, afirma Lucas.

As pesquisas realizadas já estão gerando alguns frutos. Só este ano, o pesquisador participou e apresentou em dois seminários de nível nacional. No 7º Seminário de Pesquisa em Comunicação da Uninter, falou sobre o trabalho O audiovisual após o #Metoo e #OscarSoWhite. Enquanto no 9º Encontro Regional Sul de História da Mídia (Alcar Sul), apresentou sobre a História do Negro no Cinema. Em dezembro, ainda vai participar do 4º Seminário Grupo de Pesquisa História Educação e Sociedade, com um relato sobre as produções acadêmicas.

“Foi muito enriquecedor ter essa experiência e contato com outros pesquisadores da área”, garante.

Daqui para frente, Lucas tem interesse em se manter na área da pesquisa e fazer algo que mescle a História e o Jornalismo. O jovem conta que, depois que parou de planejar os próximos passos, as coisas começaram a acontecer em sua vida e o acaso está abrindo excelentes experiências.

“Sou uma pessoa bastante criativa e tenho ótimas ideias. Quero que as pessoas me deem a oportunidade de colocar minhas ideias em ação. Nos meus antigos trabalhos, sempre fui a última pessoa a ser convidada a sentar na mesa para debater ideias, e sempre as minhas ideias eram o que eles estavam procurando. Meu conselho é: convidem mais pessoas negras a se sentarem à mesa”, finaliza.

A inserção no PIC e o estágio no Poder360 são coisas que não imaginava que pudessem acontecer e que hoje não “motivos de alegria”. Agora, o mais importante para o jovem é que o permitam continuar fazendo o que ama.

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Autor: Nayara Rosolen - jornalista
Edição: Larissa Drabeski


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