Nem vendo para crer: o papel da comunicação na era da realidade manipulada
Autor: Nayara Caroline Rosolen*
É comum que vídeos manipulados viralizarem nas redes sociais, especialmente quando se tratam de montagens dos famosos “memes”. Essas criações audiovisuais adulteradas e realistas, desenvolvidas com a ajuda de inteligência artificial (IA), ficaram conhecidas como deepfakes, colocando pessoas em situações inusitadas, sejam engraçadas ou constrangedoras.
Porém, quando essas produções deixam de ser uma brincadeira que coloca dois jogadores de futebol, Vini Jr. (seleção brasileira) e Erling Haaland (seleção norueguesa), em uma cena cômica do filme “As Branquelas”, por exemplo, como ocorreu durante a Copa do Mundo de 2026, e passam a influenciar assuntos de relevância e interesse comum para a sociedade, o debate muda. Há casos que ultrapassam o compartilhamento para entretenimento e migram para a esfera da responsabilização civil e das plataformas que disseminam esses conteúdos, assim como impõem desafios maiores ao trabalho de profissionais que atuam contra a desinformação.
Uma pesquisa realizada pela Mobile Time/Opinion Box mostra que a maioria dos usuários do Brasil já confundiu deepfake com realidade (70,2%) e menos de um quinto se considera capaz de identificar se imediato (18,7%). No mesmo mês, uma emissora de TV precisou se pronunciar a respeito de manipulações que estavam sendo realizadas a partir de vídeos de seus profissionais. No entanto, as situações se tornam mais graves e emergentes quando crimes passam a ser praticados inclusive contra jovens e crianças, através de montagens em escolas que os sexualizam.
Quando personalidades públicas também começam a utilizar esses artifícios para justificar ou desmentir acontecimentos reais, ou então criam materiais desse tipo para “plantar” inverdades nas diferentes mídias, não se trata “somente” da aceitação de um conteúdo falso. Em ano eleitoral, aos prejuízos reputacionais pessoais soma-se uma ameaça à democracia do país. Com a aceleração dos avanços de técnicas e ferramentas capazes de gerar imagens, a checagem se torna exaustiva e cada vez mais inalcançável. O vídeo e o áudio, que até então serviam como provas seguras, são desmontados enquanto evidências legítimas.
Desde 2023, o PL do Marco Legal da Inteligência Artificial (nº 2338/2023) propõe, entre outras medidas, a sinalização clara de conteúdo gerado por IA e estabelece regras para sistemas de IA considerados de alto risco. O PL nº 3066, de 2025, também foi aprovado pelo Congresso e encaminhado à sanção presidencial, com medidas para combater e punir a violência sexual contra crianças e adolescentes, inclusive no ambiente digital e com uso de inteligência artificial. No mesmo dia, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) firmou uma parceria para a criação de mecanismos de proteção para bloquear clonagens não autorizadas de vozes de candidatos e autoridades, com a empresa britânica de IA ElevenLabs. O acordo visa preservar as Eleições Gerais de 2026.
Esse cenário demonstra de forma ainda mais efetiva que a ameaça de substituição de cargos de trabalho pelas máquinas torna o fator humano ainda mais relevante. A educação midiática e o letramento digital se tornam não só um diferencial, mas uma necessidade. Quanto mais acessível a manipulação de rostos e vozes, mais valiosa a checagem humana, a credibilidade autoral e a reputação dos meios que valida as informações veiculadas.
*Nayara Caroline Rosolen é Jornalista e Especialista em Jornalismo Digital e Produção Audiovisual para Web, professora mediadora dos cursos de Pós-graduação em Comunicação do Centro Universitário Internacional (Uninter).
Autor: Nayara Caroline Rosolen*Créditos do Fotógrafo: Pexels


