Além da tela: o “efeito Disney” e a humanização na docência EaD

Autor: Beatriz Maria Zoppo*

Em 2014, circulou na mídia a história de uma adolescente que esqueceu seu ursinho de pelúcia em um resort da Disney. Não era um brinquedo qualquer. Aquele ursinho carregava um valor afetivo profundo, pois guardava lembranças de seu pai. Por isso, ela costumava levá-lo em todas as viagens, como quem leva consigo uma parte da própria história.

Ao retornar para casa, a adolescente percebeu que o ursinho havia ficado para trás e a família entrou em contato com o resort e, depois de uma mobilização, o brinquedo foi encontrado.  Em vez de colocar o ursinho em uma caixa e enviá-lo pelo correio, os funcionários criaram uma narrativa afetiva. Fotografaram o ursinho em diferentes lugares da Disney, como se ele tivesse vivido pequenas aventuras antes de voltar para casa. Junto com o brinquedo, enviaram as fotos e uma carta em que o próprio ursinho “pedia desculpas” por ter ficado mais tempo na Disney, dizendo que queria aproveitar mais o lugar e que tinha registros para comprovar sua estadia.

Esse episódio nos lembra que alguns gestos vão muito além da obrigação. A equipe poderia ter feito apenas o esperado: localizar o ursinho e devovê-lo, já resolveria o problema. Mas, eles escolheram fazer diferente. Transformaram uma situação de angústia e tristeza em um momento de cuidado, surpresa e emoção. É justamente aí que nasce o chamado “efeito Disney”: a capacidade de colocar humanidade nos pequenos gestos e transformar uma ação simples em uma lembrança que permanece.

Em uma analogia com a docência na Educação a Distância, muitas vezes o trabalho pode se resumir à organização de conteúdos, correção de atividades, cumprimento de prazos, mediação em fóruns e acompanhamento de plataformas.  Claro que a obrigação envolve isso também, mas, vai além. Ser professor na EaD é reconhecer que, por trás de cada nome na tela, existe uma vida em movimento cheia de histórias, sonhos e expectativas. Muitos encontram na educação não apenas um caminho para obter um diploma, mas uma possibilidade real de recomeço.

A entrega do ursinho nos convida a olhar com mais sensibilidade para a entrega na EaD: quantas vezes um estudante também não se sente “esquecido” do outro lado da tela? Talvez em uma turma numerosa, diante de uma atividade que não compreendeu bem, inseguro sobre um processo avaliativo, desmotivado pela demora de um retorno ou simplesmente invisível em uma plataforma que, muitas vezes, parece fria e impessoal. É justamente nesses momentos que a presença docente faz diferença, não limitando-se a cumprir protocolos, mas optando por transformar a ação cotidiana em uma experiência de acolhimento, cuidado e humanidade.

Recentemente, ao assistir a uma palestra de António Nóvoa, o pesquisador se posicionou sobre a necessidade de colocar humanidade em tudo o que fazemos, dialogando com o verso de Fernando Pessoa: “Põe quanto és no mínimo que fazes”. Colocar humanidade na EAD significa não permitir que a mediação tecnológica apague a dimensão afetiva, ética e relacional do ensinar, mas, lembrar que educar é também cuidar dos vínculos.

O “efeito Disney” não precisa ser entendido como espetáculo no qual os professores precisam ser artistas ou mágicos.  Na educação, ele pode ser traduzido como atenção aos detalhes e compromisso em transformar interações comuns em experiências significativas. Não se trata de romantizar a docência trata-se de reconhecer que, mesmo em meio aos desafios, pequenos gestos podem produzir grandes impactos humanos.

A história do ursinho de pelúcia nos ensina que o cuidado está na forma como fazemos aquilo que precisa ser feito. Devolver o brinquedo era a obrigação, mas, criar uma experiência afetiva foi a diferença. Da mesma maneira, ensinar conteúdos, corrigir atividades e acompanhar estudantes são responsabilidades docentes. Já humanizar esse percurso é o que pode transformar a EaD em uma experiência verdadeiramente formadora.

A docência na Educação a Distância nos convoca a ir além da tela, compreendendo que cada estudante carrega consigo uma história que talvez não conheçamos por completo. Mesmo assim, podemos escolher uma prática pedagógica mais sensível, ética e humana. Transformando procedimentos em encontros, mensagens em acolhimento, feedbacks em possibilidades de crescimento.

Talvez o grande ensinamento do “Efeito Disney” seja este: um gesto simples, quando feito com humanidade, pode permanecer para sempre na memória de alguém. E, na educação, poucas coisas são tão poderosas quanto deixar marcas positivas na vida de uma pessoa.

*Beatriz Maria Zoppo é Doutora em Educação, professora no setor de estágios da Escola Superior de Educação, Humanidades e Línguas da Uninter.

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Autor: Beatriz Maria Zoppo*
Créditos do Fotógrafo: Pexels


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