Longevidade consciente: por que a prevenção da demência começa antes dos 60?

Autor: Maria Caroline Waldrigues *

Entre 2010 e 2022, a população brasileira cresceu 6,5%, enquanto o grupo de pessoas com 60 anos ou mais aumentou 56%, um ritmo nove vezes superior, segundo o censo IBGE 2022. Esse cenário intensifica a ocorrência de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), como hipertensão, diabetes, osteoartrite e osteoporose, além de transtornos associados ao envelhecimento, como a demência, impondo desafios crescentes para atender às necessidades dessa população.

 As projeções são alarmantes: a cada três segundos, alguém no mundo desenvolve demência, segundo a Alzheimer’s Disease International (ADI). Os impactos são revelados no Estudo Global da Carga de Doenças (GBD), que estimou que mais de 55 milhões de pessoas viviam com demência em 2019, com projeções para ultrapassar 150 milhões até 2050.

No Brasil, esse mesmo estudo apontou que cerca de 1,85 milhão de pessoas convivem com demência, número que pode triplicar nas próximas décadas, e acredita-se que esses dados ainda sejam subestimados. Persistir na ideia equivocada de que a demência é ‘inevitável’ ou restrita à velhice significa abdicar de uma agenda concreta de prevenção, equidade e justiça social, além de configurar um desafio para a saúde pública e ignorar o impacto sobre redes familiares exauridas e sistemas de saúde pressionados.

Vale lembrar que o país é signatário do Plano de Ação Global para as Demências (2017–2025), aprovado pela OMS, e já avançou com a Lei nº 14.878/2024, que institui a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Alzheimer e outras Demências. Além disso, houve a criação da linha de cuidados em demência pelo Ministério da Saúde e o teste do programa iSupport-BR, intervenção online da OMS para apoiar cuidadores familiares.

Apesar desses avanços, ainda há carência de ações efetivas e integradas. É importante lembrar que qualquer pessoa pode desenvolver uma demência, sendo a doença de Alzheimer a forma mais comum, mas há fatores modificáveis que reduzem esse risco. É importante manter educação ao longo da vida, controlar hipertensão e diabetes, praticar atividade física, corrigir perda auditiva e visual, evitar tabagismo e álcool, cuidar da saúde mental, garantir sono adequado e manter engajamento social e cultural, com a dança, a música, a pintura, a universidade da terceira idade, os passeios, viagens, encontros com amigos e leituras.

A prevenção da demência é baseada na modificação de fatores de risco que afetam diretamente a reserva cognitiva, a saúde vascular e a integridade neuronal. Evidências científicas demonstram que estratégias voltadas à educação, ao controle de condições crônicas, à promoção da saúde mental e ao estímulo social e cognitivo contribuem para retardar ou evitar processos neurodegenerativos. Essas intervenções, aplicadas ao longo do curso de vida, reduzem a vulnerabilidade cerebral e fortalecem mecanismos de proteção, tornando a prevenção não apenas possível, mas essencial para garantir qualidade de vida em uma sociedade que envelhece rapidamente.

A velhice chegará para todos, e a longevidade é uma realidade concreta, basta olhar para nossos avós e pais como testemunhas desse avanço. Mas não é no marco cronológico dos 60 anos que você deve começar a alinhar o que precisa; isso deve ocorrer muito antes. Prevenir demência não é utopia, é (ou deveria ser) uma escolha consciente e baseada em evidências cientificas, que implicam em conhecer os fatores modificáveis que reduzem o risco de Alzheimer e outras demências e aplicá-los na vida cotidiana, juntos com os saberes da comunidade.

Assim, fica a reflexão: assumiremos o protagonismo do nosso envelhecimento ou continuaremos a adiar escolhas que definem quem desejamos ser no futuro? O futuro, afinal, já começou! Então, dance, ouça música, contemple a vida, faça pausas e, se puder, alterne com um projeto de musculação. Durma bem, dê boas risadas, saia com seus amigos, conheça sua vizinhança, fale sobre envelhecer, cobre ações políticas para o envelhecimento, invista em um curso, aprenda uma nova língua, beba água, tome o primeiro sol da manhã e use filtro solar.

* Maria Caroline Waldrigues é enfermeira, mestra em Educação e especialista em Gestão Pública de Saúde e em Envelhecimento Saudável. É coautora dos livros Envelhecimento e doenças crônicas: desafios e estratégias (2025) e Direitos e fundamentos sociais no processo de envelhecimento (2024), pela editora InterSaberes. Atua como professora da Escola Superior de Saúde Única da Uninter.

Incorporar HTML não disponível.
Autor: Maria Caroline Waldrigues *
Créditos do Fotógrafo: Geralt/Pixabay


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *