Do campo ao plantão: pressão por performance une futebol e enfermagem no debate da NR-1
Autor: Daiane Cardoso da Silva*
Em tempos de Copa do Mundo, milhões de pessoas acompanham partidas, torcem por suas seleções e analisam o desempenho dos atletas em campo. Entretanto, para além da competição, o futebol também revela uma importante lição sobre trabalho, desempenho e saúde: nenhuma equipe alcança alta performance sem preparo físico, equilíbrio emocional, suporte coletivo e condições adequadas para exercer suas funções.
Essa lógica, embora muitas vezes esquecida, dialoga diretamente com o cotidiano da enfermagem e com as recentes discussões trazidas pela atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir os riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
A enfermagem, assim como um time em campeonato mundial, atua sob pressão constante, necessidade de respostas rápidas e elevada responsabilidade sobre vidas humanas. Ainda assim, é comum que a sobrecarga, o desgaste emocional e o adoecimento desses profissionais sejam naturalizados nos serviços de saúde. Em muitos contextos, trabalhar cansado, emocionalmente exausto e em condições precárias tornou-se parte da rotina.
No futebol, nenhum técnico espera que um atleta lesionado mantenha o mesmo rendimento sem descanso, acompanhamento especializado e estratégias de recuperação. Nos serviços de saúde, porém, frequentemente se espera que profissionais da enfermagem continuem produzindo mesmo diante do esgotamento. A lógica da produtividade acaba se sobrepondo aos limites humanos.
Nesse cenário, a atualização da NR-1 representa um avanço importante ao reconhecer que fatores como estresse ocupacional, assédio, jornadas excessivas, pressão contínua e ambientes organizacionais adoecedores também são riscos relacionados ao trabalho. A medida é especialmente relevante para áreas historicamente marcadas pela intensificação laboral, como a saúde.
Após a pandemia de Covid-19, tornou-se impossível ignorar os impactos do sofrimento psíquico entre profissionais da enfermagem. Medo, ansiedade, insegurança, exaustão e sentimento constante de responsabilização individual passaram a fazer parte da experiência cotidiana de muitos trabalhadores da saúde, frequentemente expostos a estruturas insuficientes e à falta de suporte institucional.
A analogia com o futebol ajuda a compreender essa realidade de forma simples e acessível. Uma seleção campeã não depende apenas do talento individual de seus jogadores. É necessário planejamento, liderança saudável, integração da equipe, treinamento, descanso e apoio contínuo. Da mesma forma, instituições de saúde não podem responsabilizar exclusivamente os trabalhadores pelos resultados assistenciais sem garantir condições dignas de trabalho.
Além disso, equipes emocionalmente adoecidas tendem a apresentar mais conflitos, falhas e dificuldades na comunicação, comprometendo tanto a qualidade do cuidado quanto a segurança do paciente. Cuidar da saúde mental dos profissionais não é apenas uma questão individual, mas uma estratégia essencial para fortalecer os serviços de saúde.
A Copa do Mundo nos lembra que grandes resultados dependem de preparo coletivo e cuidado contínuo com as pessoas. Na enfermagem, essa lógica também precisa ser incorporada aos ambientes de trabalho. Valorizar profissionais da saúde significa reconhecer limites humanos, construir ambientes saudáveis e compreender que não existe cuidado seguro sem trabalhadores cuidados.
Talvez a principal lição que a Copa do Mundo e a NR-1 possam ensinar seja simples: nenhum time vence quando seus jogadores estão emocionalmente lesionados.
* Daiane Cardoso da Silva é enfermeira, doutora em Enfermagem pela UFG, especialista em Saúde do Trabalhador e docente do curso de Enfermagem da Uninter.
Autor: Daiane Cardoso da Silva*Créditos do Fotógrafo: SeppH/Pixabay
