Incêndios de origem elétrica: pequenos hábitos podem colocar sua casa em risco
Autor: *Eduardo da Silva
Anualmente, a Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel) publica um levantamento sobre os acidentes de origem elétrica registrados no país. A cada nova edição, os números reforçam um alerta importante: muitos acidentes poderiam ser evitados com mudanças simples de comportamento e com uma instalação elétrica adequada.
O Anuário Estatístico 2026 (ano-base 2025) registrou 2.322 acidentes de origem elétrica no Brasil, responsáveis por 725 mortes. Embora os acidentes por choque elétrico sejam mais letais, os incêndios provocados por falhas nas instalações elétricas cresceram aproximadamente 10% em relação ao ano anterior. Esse aumento demonstra que ainda existe um grande desafio na conscientização da população sobre o uso seguro da eletricidade.
Não existe uma única causa para os incêndios de origem elétrica, na maioria das vezes, tudo começa quando uma instalação é submetida a uma corrente elétrica superior àquela para a qual foi projetada. Os fios, tomadas e conexões passam a aquecer além dos limites seguros, comprometendo o isolamento dos cabos.
O incêndio pode iniciar tanto pelo aquecimento dos materiais ao redor da fiação, como por um curto-circuito provocado pelo contato entre dois ou mais fios carregados. O maior perigo é que tudo acontece de forma oculta e silenciosa, dentro do telhado, de um forro ou de um eletroduto, sem que os moradores percebam qualquer sinal, até que o princípio de incêndio já esteja instalado.
Com a chegada do inverno, esse cenário merece uma atenção especial, pois o uso mais frequente de chuveiros elétricos, aquecedores, torneiras elétricas, secadores de cabelo, entre outros aparelhos de alto consumo, aumenta significativamente a carga sobre a instalação elétrica da residência, que quando está envelhecida ou mal dimensionada, oferece uma condição muito favorável para o superaquecimento da fiação.
Compreender esse mecanismo ajuda a entender por que alguns hábitos, aparentemente inofensivos, representam riscos tão elevados. Por isso, vale destacar os cinco principais riscos e soluções para se prevenir de incêndios.
- Tudo em um: o uso de réguas de tomadas e adaptadores do tipo “T” ou benjamins, permitem a conexão de múltiplos equipamentos em um mesmo ponto de tomada. Alguns desses acessórios até podem ser utilizados com segurança, desde que respeitadas suas limitações. Por isso, se um ambiente necessita constantemente de adaptadores para suprir a falta de tomadas, isso indica que a instalação já não atende às necessidades dos moradores. A solução mais segura é ampliar o número de pontos de tomada e buscar um eletricista habilitado para garantir a instalação com circuitos corretamente dimensionados para a nova carga.
- Fino ou grosso? A utilização de adaptadores que permitem conectar aparelhos com plugues de 20 amperes (mais grosso) em tomadas de 10 amperes (comum) é muito comum e esconde um grande problema. Enquanto as pessoas acreditam ter resolvido o problema, na verdade a corrente elevada irá provocar aquecimento excessivo dos contatos e fios elétricos, aumentando, e muito, o risco de incêndio. O contrário também é perigoso, contatos frouxos também provocam aquecimento. Tomadas aquecendo, cheiro de queimado, escurecimento dos contatos ou dificuldade para manter o plugue firme são sinais claros de que algo não está funcionando corretamente e que a instalação precisa ser inspecionada.
Sempre que houver necessidade de instalar um equipamento desse tipo, a instalação deve ser adequada às especificações do fabricante, com tomadas, cabos e dispositivos de proteção compatíveis a ele.
- Chuveiro mais quente: é comum que o consumidor escolha um chuveiro mais potente para ter maior conforto durante o inverno, sem verificar se a instalação suporta essa nova demanda. A substituição do chuveiro elétrico por outro de potência superior, requer que todo o circuito seja redimensionado: cabos, conexões e disjuntores, para não comprometer a segurança da residência.
- Tudo ao mesmo tempo: o uso simultâneo de aparelhos de elevada potência, mesmo que em pontos distintos da instalação, também requer um cuidado especial. Evite o uso de secadores de cabelo, chapinhas e aquecedores portáteis, ao mesmo tempo em que se usam fornos, lavadoras e demais equipamentos que exigem correntes elevadas. Ainda que uma instalação esteja adequada às normas, o uso simultâneo de altas cargas pode provocar o aquecimento dos condutores do circuito geral da instalação.
- Provisório ou definitivo: as extensões elétricas comerciais são desenvolvidas para situações temporárias e não para substituir instalações permanentes. Além disso, muitos modelos comercializados possuem cabos com capacidade inferior à necessária para alimentar equipamentos de maior potência. Quando utilizadas de forma inadequada, as extensões também aquecem e podem se tornar o ponto de início de um incêndio.
Antes de utilizá-las, é importante verificar se a capacidade indicada pelo fabricante é compatível com o equipamento que será ligado. Da mesma forma, extensões não devem permanecer enroladas ou passar sob tapetes e móveis, pois isso dificulta a dissipação do calor e é um risco enorme de princípio de incêndio em materiais inflamáveis.
Quando o uso de extensões passa a fazer parte da rotina da residência, o mais indicado é providenciar novos pontos de tomada, corretamente dimensionados.
A prevenção continua sendo a melhor estratégia para reduzir os acidentes de origem elétrica. Uma instalação bem executada, com materiais certificados e submetida a manutenções periódicas oferece muito mais segurança aos moradores. Observe sempre os primeiros sinais de aquecimento, evite improvisações e procure sempre um profissional habilitado para qualquer modificação na instalação, essas são atitudes que fazem toda a diferença.
A eletricidade é indispensável para o conforto da vida moderna, mas deve ser utilizada dentro dos limites para os quais a instalação foi projetada. Em grande parte dos casos, os incêndios elétricos não acontecem por acaso. Eles são consequência de pequenos hábitos que se repetem diariamente até que a instalação atinja seu limite. Investir em prevenção é uma decisão simples que protege o patrimônio, evita prejuízos e, acima de tudo, preserva vidas.
*Eduardo da Silva – docente no curso de Engenharia Elétrica da UNINTER
Autor: *Eduardo da Silva