Quando o corpo também enxerga
Autor: Ketlyn Laurindo da Silva - Estagiária de Jornalismo
Nos dias 27 e 30 de agosto aconteceu o 11º Encontro do Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e com Baixa Visão (MBMC), realizado em Blumenau-SC. O evento contou com a mediação cultural da professora do curso de Artes Visuais da Uninter Andréia Rocha, que desenvolveu uma oficina artística inspirada na exposição O Sentido do Olhar, da artista visual paranaense Teca Sandrini.
O encontro busca reunir mulheres com deficiência visual de diversas partes do país, promovendo debates sobre os direitos, a autonomia, a saúde mental, a participação social e as vivências cotidianas de cada uma delas. Durante as conversas, algumas das participantes compartilharam suas experiências pessoais e os desafios do deslocamento e da ocupação dos espaços urbanos e sociais, assim como as estratégias construídas por elas para transitar pelo mundo por meio de referências táteis, sonoras e corporais.
A oficina ministrada pela professora Andréia Rocha convidou as participantes a explorarem o desenho utilizando as mãos e os pés como instrumentos de criação, ampliando as possibilidades de percepção e produção visual para além da experiência exclusivamente ocular. “O maior desafio, e isso sempre acontece, foi pensar em uma proposta de expressão visual para pessoas cegas. Nós, que enxergamos, precisamos fazer um exercício enorme para nos aproximarmos de quem não enxerga, porque são realidades muito diferentes”, explica Andréia sobre a proposta do exercício.
Ela também destaca a reação de uma participante durante a atividade. “Uma delas comentou sobre a pouca estimulação dos professores da educação básica na disciplina de artes, justamente por não entenderem a importância de abordar artes visuais com pessoas cegas”.
A ação revelou diferentes modos de criação e participação. Algumas escreveram seus nomes, outras desenvolveram formas abstratas ou figurativas, demonstrando que o desenho ultrapassa a dimensão exclusivamente visual e pode emergir do tato, da memória, do movimento e da relação sensível com o espaço. A liberdade de escolha e a valorização das singularidades favoreceram processos criativos significativos e reafirmaram a potência da arte como instrumento de expressão e pertencimento.
Para Andréia, iniciativas como essas são importantes para que a arte possa romper barreiras e que nós, como sociedade, possamos pensar a partir de diferentes perspectivas. Ela também reforça a importância do ensino pedagógico em coautoria. “Professor, artista e mediador de arte precisam buscar produzir em coautoria com as pessoas com deficiência visual, entre outras. Afinal, como falar de deficiência sem experiência?”
Autor: Ketlyn Laurindo da Silva - Estagiária de JornalismoEdição: Mauri König
Créditos do Fotógrafo: Acervo Andréia Rocha





