A comunicação está se ajustando aos tempos incomuns

Autor: Fillipe Fernandes - Estagiário de Jornalismo

Os cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Uninter realizam desde 2016 o Seminário de Comunicação Uninter, que neste ano chegou à sua quinta edição com novidades. Essa foi a primeira vez em que o evento foi feito de forma inteiramente online. Você pode conferir a íntegra da mesa de debates clicando aqui.

O tema do evento foi ajustamentos comunicativos em tempos incomuns e contou com a participação de dois pesquisadores convidados. Raquel Longhi, na área de Jornalismo, e Eneus Trindade, na área de Publicidade e Propaganda. A mediação da mesa de debates ficou a cargo da professora Monica Fort.

Além desse momento, os grupos de pesquisa Comunicação, Consumo e Cibercultura e Jornalismo, Mídia e Tecnologia tiveram sessões de apresentação de trabalhos que ocorreram durante dois dias. Ao todo foram 60 trabalhos apresentados por estudantes de graduação e pós-graduação de todo o Brasil.

Na mesa de abertura do evento, antes da fala dos convidados, estavam presentes os professores Guilherme Carvalho, coordenador do curso de Jornalismo, e Alexandre Correia dos Santos, coordenador do curso de Publicidade e Propaganda. Além deles, a coordenadora de pesquisa da Uninter, professora Desiré Dominschek Lima, e Ben Hur Gaio, reitor da instituição.

Os professores relembraram a importância da pesquisa na área de comunicação e como os tempos atuais são desafiadores para a produção de conhecimento em uma área que se transforma tão rapidamente. “A nossa função aqui é acolher vocês todos, de todo o Brasil, aqui na nossa casa. Mesmo que em um formato completamente novo. De 2016 para cá, temos um crescimento contínuo no que diz respeito à aprovação de trabalhos de nossos alunos nos mais diferentes congressos. Ano passado ganhamos prêmios nacionais inéditos na Uninter. Isso tem despertado a veia científica dos alunos”, comentou Alexandre.

Desiré Dominschek fez menção aos grupos de pesquisa que acontecem na Uninter e que alcançam estudantes de todo o país. “Acho muito bacana a presença de trabalhos de várias partes do Brasil. Quando se fala na Uninter, a gente não está falando de uma presença local, mas sim de uma presença nacional e também dos nossos polos internacionais. Trabalhos interessantíssimos, desde a iniciação científica até o mestrado e doutorado. Em todos os níveis de produção científica. A Uninter tem 14 grupos de pesquisa ativos no momento. Nós temos mais de 700 alunos em iniciação científica”, explica Desiré.

O reitor Ben Hur Gaio fechou a mesa de abertura relembrando o tamanho da Uninter e sua contribuição para a educação superior no Brasil. “O Seminário de Comunicação está cada vez maior, cada vez melhor. Essa é a perspectiva do nosso trabalho. A Uninter tem hoje aproximadamente 270 mil alunos, em cerca de 700 polos divididos em todo o território nacional. 110 cursos de graduação e mais 250 cursos na pós-graduação. A Uninter tem cursos inovadores para atender à sociedade de forma geral, cursos que nem eram pensados há pouco tempo. 95% deles acontecem a distância”, aponta o reitor.

Novos formatos no fazer jornalístico

Raquel Longhi iniciou a mesa de debates. Ela é professora e jornalista, doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Realizou estágio pós-doutoral junto ao Centro de Investigação de Mídia e Jornalismo na Universidade Nova de Lisboa, em Portugal. Escreveu e organizou vários livros sobre jornalismo e comunicação.

Sua apresentação contextualizou o momento atual do jornalismo e a necessidade de se ter criatividade e resiliência para lidar com o que ela denominou “plataformização de conteúdo jornalístico”, que está levando o fazer jornalístico a desenvolver novos formatos, adequados para veiculação nas mídias sociais e plataformas digitais agregadoras de conteúdo.

A professora trouxe conceitos de Robert Bresson, Carl Jung e Erich Fromm, entre outros autores, em sua fala. “Vivemos tempos difíceis de entender. Vivemos tempos incomuns, onde parece que se estabeleceu sobre todos nós o véu da incerteza. Nossas experiências mudaram drasticamente. De certa forma, isso impacta em todas as nossas atividades. Somos heróis. Nosso trabalho em comunicação é de resistência e resiliência”, comenta Raquel.

A professora também respondeu à pergunta de um ouvinte sobre a predileção de imagens em detrimento do texto e como isso se relaciona com o jornalismo hoje. “Num momento em que a notícia efêmera se visualiza e se configura muito pelos stories, parece que o texto escrito é colocado em segundo plano. A gente tem que pensar sobre essa questão levando em consideração que não somos um país de leitores. E que em países que tem maior nível de leitura, o consumo de textos longos é maior. Se pensarmos em termos de Brasil, pode-se dizer que tem uma juventude que não consome texto e está priorizando a imagem. Por isso é importante investigar microformatos”, explica Raquel. Jornal da Record, Estadão, USA Today e The Telegraph foram citados como exemplos de uso do TikTok para divulgação jornalística, além de mostrar os bastidores da produção de notícias.

Sobre o momento de crise econômica e política agravada pela pandemia de Covid-19, Raquel foi taxativa: no Brasil, as ações governamentais aumentam a insegurança, o desespero e o caos. “Criatividade e resiliência devem ser a base de um movimento para conseguirmos passar por esse momento complicado no Brasil e no mundo. A gente está vivendo uma pandemia sem precedentes e sob o pior governo da nossa história. Temos que lidar quase que diariamente com situações como ataque a instituições democráticas, o descaso com a educação, saúde e meio-ambiente, que são áreas vitais para nós. E o pior: temos que lidar com a negligência com o que de mais grave nos acometeu nesse nosso tempo, que é a ameaça assustadora de um vírus que está fora de controle”, pontua.

Resiliência e criatividade ecoam no jornalismo contemporâneo. Especialmente pela forma como o jornalismo tem enfrentado o grande desafio de passar do impresso para o digital. Esse eco se deu em muitos aspectos. “O surgimento de tecnologias para criação de conteúdos nos meios digitais, a consolidação das redes sociais como porta de entrada para conteúdos noticiosos e o consequente processo de plataformização são parte deste conjunto”, finaliza Raquel.

Comunicação e consumo na mediação algorítmica

A mesa continuou com a participação de Eneus Trindade, que é professor e publicitário, doutor em Ciências da Comunicação pela USP e pós-doutor em Antropologia Visual pela Universidade Aberta de Portugal. Em 2018, atuou como professor convidado na Chair Numeratie Publicitaire au CELSA Sorbonne Universités, na França.

Eneus começou sua fala ponderando sobre a produção de pesquisas em comunicação. “A ideia de um evento que discuta pesquisa, cada vez mais isso tem ficado restrito às universidades públicas. Isso mostra a importância que a pesquisa em comunicação na Uninter tem no sentido de revitalizar o pensar e o saber sobre a área, inclusive estimulando determinadas práticas profissionais que são oriundas de uma reflexão e conhecimento de pesquisa”.

Sua apresentação refletiu sobre as novas formas de fazer publicidade, que já não se desenham mais como uma década atrás, por exemplo. Novamente, as plataformas digitais e mídias sociais perpassam o processo comunicacional. O convidado ainda fez considerações sobre consumo, inteligência artificial e a produção de riquezas por meio da construção de bancos de dados imensos (big data) capturados por aplicativos que usamos cotidianamente, que compilam e cruzam nossos dados sem explicitar a que se destina seu uso.

“A nossa midiatização digital do mundo se materializa organicamente numa perspectiva interacional complexa que vai implicar em um conhecimento sobre essa forma de escrita, que para nós é uma abstração. Por isso ficamos alheios a essa perspectiva dos dados, da privacidade dos dados. A gente quer usar a plataforma, a gente não quer saber se ela vai coletar todos os dados, se sabe de tudo que a gente tem no computador. Isso se expande para uma série de relações, inclusive a educacional”, argumenta.

Com a pandemia, as redes sociais, que já tinham um poderoso papel na comunicação, se tornaram essenciais. É por meio delas que as relações interpessoais continuaram existindo em um contexto de distanciamento social. “Nas redes se dá a criação de um espaço onde toda a mediação da realidade é constituída numa relação interacional do digital. O cálculo algorítmico passa a criar ajustamentos em função das nossas predileções e consumos mais recorrentes. Aí a coisa do machine learning vai se consolidando como forma de resposta. Essa forma de resposta ainda não chegou na dimensão afetiva ou em uma condição de existência. As máquinas não sentem, elas não são capazes de experienciar, de ter consciência”, comentou Eneus.

Ao final da apresentação, a professora Monica Fort, mediadora da mesa, agradeceu a presença de todos e relembrou que toda essa estrutura dos novos tempos já é uma realidade na Uninter há bastante tempo. “Nós somos uma instituição EAD. O ensino remoto não foi exatamente uma novidade para a instituição, pois temos os recursos para desenvolver esse tipo de aula. Nós já tínhamos os estúdios e a tecnologia. Mas mesmo assim foi preciso reconhecer e adaptar algumas coisas”, finalizou Fort.

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Autor: Fillipe Fernandes - Estagiário de Jornalismo
Edição: Mauri König
Revisão Textual: Jeferson Ferro
Créditos do Fotógrafo: Expect Best/Pexels


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