A bolsa amarela, a censura e o direito à leitura
Autor: Deisily de Quadros*
Mais uma vez o noticiário nos apresenta a tentativa de censurar obras da nossa literatura. A vez é de Lygia Bojunga, com o clássico “A bolsa amarela”. Publicada em 1976, a obra atravessa gerações de leitores acolhendo inquietações, descobertas e questionamentos tão próprios da infância. Mas, um grupo de familiares de estudantes do 4º ano do Colégio Militar Dom Pedro II, do Distrito Federal, movimentou o grupo de WhatsApp criticando a escolha do livro a partir de questionamentos sobre a incompatibilidade da narrativa com a idade e os valores da família e da escola.
O problema encontrado foi que a personagem Raquel guarda na bolsa as suas três vontades: crescer, ter nascido garoto e escrever: “Nem sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina. Mas hoje tô achando que é a vontade de escrever” (Bojunga, 2012, p. 9). Essa vontade de ser menino foi associada pelas famílias com a questão de identidade de gênero.
Diante desse fato, destaco alguns pontos além do maior deles, que é censurar uma obra literária. O primeiro deles: os familiares leram a obra? Certamente não. Ou então temos um problema imenso de interpretação de texto. Raquel queria ser garoto simplesmente porque os meninos têm liberdade, são mais valorizados pela sociedade e são mais ouvidos. É isso o que a menina problematiza. O segundo: a escola precisa ter um amplo diálogo com as famílias, apresentando não só os conteúdos que serão trabalhados no semestre ou no ano, mas também as obras literárias escolhidas. E, por fim, a falta de entendimento do que é literatura. A arte não tem o papel de reafirmar valores consolidados, mas questionar, incomodar, transformar, movimentar, provocar reflexões. Então, abordar a questão de gênero (por que os meninos podem mais do que as meninas?; por que são levados mais a sério?; por que são mais ouvidos?; por que têm brinquedos mais legais?; é muito importante para questionarmos o lugar da menina/mulher e para que tenhamos uma sociedade mais igualitária.
Já houve tentativa de censura de “A bolsa amarela” em 2019. Com a mesma motivação de tentar proteger os jovens contra a tal “ideologia de gênero”, que não existe. Um vereador da cidade de Limeira/SP pediu à Secretaria Municipal de Educação a retirada da obra da lista de indicações de leitura. Felizmente, não foi atendido e Bojunga segue encantando e provocando. Essa tentativa de censurar livros assusta por sua recorrência: Machado de Assis, Monteiro Lobato, Jefferson Tenório, Jorge Amado já tiveram obras censuradas, provavelmente por pessoas que são contra a regulamentação da Internet e das redes sociais, mas são a favor da censura de livros.
Solicitar a retirada de livros das escolas com base em achismos, preferências pessoais ou desconforto individual – sem qualquer respaldo teórico ou análise crítica – é uma deturpação do papel da literatura e uma leitura enviesada da obra. Um livro é escolhido por um corpo docente, ou seja, professores, pessoas com formação, inclusive leitora, em um território de diálogo e construção coletiva, que é a escola. Ler é um direito, portanto, é urgente problematizar essas tentativas recorrentes de censura, que se tornam cada vez mais perigosas para a formação do pensamento livre e plural na nossa sociedade.
Convido à reflexão: por que a literatura ainda incomoda tanto? O que leva certos temas a provocarem tamanho desconforto a ponto de motivar pedidos de retirada de obras das escolas? A função da arte é justamente essa: nos desacomodar, despertar sentidos, provocar pensamentos e nos fazer enxergar com mais profundidade. Em um país onde se lê tão pouco, a prioridade deveria ser formar leitores, não censurar livros.
* Deisily de Quadros, doutora em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professora da Escola Superior de Educação, Humanidades e Linguas da Uninter.
Autor: Deisily de Quadros*