Desenrola Brasil 2.0: alívio necessário e solução incompleta
Autor: Pedro Henrique Pontes*
Em um país marcado por juros elevados e crédito caro, o endividamento das famílias deixou de ser episódico e tornou-se estrutural. Mais de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, conforme dados recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC/CNC). Em paralelo, cerca de 30% da renda familiar está comprometida com o serviço da dívida, apontam as estatísticas do Banco Central. Números que evidenciam a pressão persistente sobre o orçamento doméstico.
É nesse contexto que surge o Desenrola Brasil 2.0, lançado em 2026 como uma nova rodada de renegociação de dívidas. A iniciativa se apresenta menos como solução estrutural e mais como resposta emergencial a um cenário de inadimplência elevada, renda comprimida e acesso restrito a crédito em condições minimamente sustentáveis.
O programa concentra-se em pessoas físicas com renda de até cinco salários mínimos, com dívidas bancárias em atraso entre 90 dias e dois anos, contratadas até janeiro de 2026. Além das famílias, a nova edição também contempla estudantes com débitos do FIES, microempreendedores individuais, micro e pequenas empresas e produtores rurais, ampliando o escopo em relação à versão de 2023. Ainda assim, o núcleo da política continua sendo o crédito ao consumo.
Entram na renegociação dívidas típicas do cotidiano financeiro, como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. Não por acaso: a própria PEIC aponta o cartão como principal forma de endividamento das famílias, cada vez mais associado ao uso do crédito para despesas correntes, inclusive alimentação, em um ambiente de renda pressionada e preços ainda elevados. Ficam de fora financiamentos imobiliários, crédito rural e operações com garantia real, delimitando claramente os limites do programa.
Tecnicamente, a promessa é substituir dívidas caras por novas obrigações com condições menos onerosas: descontos de até 90%, juros limitados a 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 meses. A principal inovação frente a 2023 é a possibilidade de uso de até 20% do FGTS para quitação ou abatimento da dívida, medida que amplia o alcance do programa, porém, levanta questionamentos sobre o uso da poupança de longo prazo para resolver problemas tidos como imediatos.
Na comparação com o Desenrola de 2023, a diferença está menos nos objetivos e mais na estratégia. A nova edição amplia o público, dá maior protagonismo aos bancos e impõe regras mais padronizadas. E surgem contrapartidas comportamentais, como o bloqueio do CPF para apostas online durante a vigência do novo contrato, na tentativa de reduzir a reincidência do endividamento.
Os efeitos macroeconômicos tendem a ser limitados. Embora a renegociação possa aliviar momentaneamente o fluxo de caixa das famílias, o potencial estímulo ao consumo deve ser mitigado pela perda recente de fôlego do rendimento real do trabalho, conforme indicam dados da PNAD Contínua. Para o sistema financeiro, os ganhos se concentram em uma melhora marginal das carteiras de crédito, sem alterar a estrutura do mercado.
O principal limite do Desenrola 2.0 é que programas de renegociação não enfrentam as causas do endividamento. Juros elevados, crédito rotativo caro e forte comprometimento da renda seguem presentes. Esses juros altos, por sua vez, não decorrem apenas da política monetária, mas também de uma política fiscal centrada no aumento da arrecadação e complacente à expansão dos gastos, o que mantém o risco elevado e restringe quedas mais consistentes da taxa básica.
Assim, o Desenrola Brasil 2.0 pode ser entendido como política de mitigação, não como solução definitiva. Aliviar a dívida é necessário; evitar que ela volte a crescer é o verdadeiro desafio.
* Pedro Henrique Pontes é economista e professor da Uninter.
Créditos do Fotógrafo: Vilkasss/Pixabay
