Educação para o clima: até quando a política continuará correndo atrás do desastre?

Autor: Larissa Warnavin e Renata Adriana Garbossa Silva*

Nos últimos anos, eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção para se tornarem parte do cotidiano em diferentes regiões do Brasil. Chuvas intensas, enchentes, deslizamentos, ondas de calor e períodos prolongados de seca vêm se tornando cada vez mais frequentes. O próprio sistema climático global tem dado sinais claros dessa mudança. Em 2025, o planeta registrou um dos anos mais quentes da história recente, consolidando uma sequência de anos com temperaturas médias globais acima dos níveis do período pré-industrial, conforme estudo do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF).

O Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas, celebrado em 16 de março, costuma aparecer no calendário como um alerta ambiental. Mas talvez ele devesse ser entendido, antes de tudo, como um chamado à educação. Não apenas no sentido escolar do termo, mas sobretudo como um processo coletivo de compreensão sobre o mundo que estamos produzindo e seus impactos na vida da população.

Os impactos dos fenômenos são perceptíveis no território brasileiro. Para se ter uma ideia, em 2025, desastres climáticos afetaram mais de 336 mil pessoas no país, entre desalojados, desabrigados e populações diretamente atingidas por eventos extremos como enchentes, enxurradas e deslizamentos, de acordo com o relatório “Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil – 2025”, do CEMADEN. Esses números ajudam a compreender que a crise climática deixou de ser uma projeção científica distante e passou a integrar a realidade social e territorial contemporânea.

Entretanto, os desastres não atingem todas as pessoas da mesma forma. Em muitas cidades brasileiras, populações de baixa renda vivem em áreas mais expostas a riscos ambientais. Locais com encostas instáveis, margens de rios ou territórios com infraestrutura urbana precária. Esse fenômeno, frequentemente descrito como racismo ambiental, evidencia como desigualdades históricas de renda, raça e acesso à terra se refletem também na distribuição dos riscos climáticos.

A dimensão de gênero também atravessa essa discussão. Em contextos de desastre e de vulnerabilidade socioambiental, mulheres frequentemente assumem responsabilidades adicionais relacionadas ao cuidado com crianças, idosos e familiares, ao mesmo tempo em que enfrentam maior insegurança econômica e social.

Nesse contexto, a educação assume um papel central. Compreender as mudanças climáticas não significa apenas conhecer conceitos científicos sobre temperatura média global ou emissão de gases de efeito estufa. Significa entender como o clima se conecta ao território, às formas de ocupação das cidades, às dinâmicas econômicas e às desigualdades sociais que estruturam o espaço.

A conscientização e educação sobre mudanças climáticas, portanto, não devem se limitar às salas de aula. Ela precisa alcançar famílias, crianças, comunidades e também aqueles que tomam decisões sobre políticas públicas e planejamento territorial. Governantes, gestores públicos, legisladores e planejadores urbanos também precisam de alfabetização climática para compreender os riscos associados às mudanças do clima e tomar decisões baseadas em evidências científicas, não apenas no cumprimento de agendas.

Sem um processo consistente de aprendizagem coletiva, há o risco de que políticas urbanas, energéticas e ambientais continuem sendo formuladas a partir de respostas emergenciais e fragmentadas, voltadas mais para administrar crises do que para enfrentar suas causas estruturais. A ausência de alfabetização climática nos espaços de decisão limita a capacidade de compreender a complexidade do sistema climático e sua relação com o território, a infraestrutura urbana, os padrões de produção e as desigualdades sociais. Como consequência, multiplicam-se soluções pontuais, como obras emergenciais, intervenções isoladas ou medidas de curto prazo, que não alteram as dinâmicas que tornam cidades e populações mais vulneráveis aos eventos extremos.

Promover uma cultura de compreensão climática, portanto, não é apenas uma tarefa educativa no sentido tradicional, mas uma condição fundamental para qualificar o debate público e orientar decisões mais responsáveis, capazes de articular ciência, planejamento territorial e justiça social.

A crise climática também é uma crise de compreensão. E nenhuma sociedade enfrenta bem os desafios que não aprende a reconhecer. Educar para o clima nas escolas, nas comunidades e nos espaços de decisão, talvez seja uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo.

* Larissa Warnavin é geógrafa, pedagoga, mestre e doutora em Geografia. Docente da Área de Geociências da Uninter.

* Renata Adriana Garbossa Silva é geógrafa, pedagoga, mestre em geologia e doutora em Geografia. Coordenadora da Área de Geociências da Uninter.

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Autor: Larissa Warnavin e Renata Adriana Garbossa Silva*
Créditos do Fotógrafo: Tânia Rego/Agência Brasil


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