A professora que nunca deixou de ensinar conquista o diploma aos 60

Autor: Yasmin Guedes - Estagiária de Jornalismo

Em janeiro de 2026, Leila Ali Darwiche segurou nas mãos um diploma que não simbolizava apenas o fim de um curso, mas a legitimação de uma vida inteira dedicada a ensinar. A formação em Licenciatura em Pedagogia pela Uninter veio para dar nome e reconhecimento a um trabalho de 30 anos dedicados de forma direta e indireta à educação, em salas improvisadas, territórios vulneráveis e contextos em que a educação insistia em sobreviver.

Antes mesmo de vestir novamente o papel de aluna aos 55 anos, Leila já carregava consigo o propósito que hoje norteia o centro universitário: levar o conhecimento a quem mais precisa, como ferramenta de dignidade e transformação. O diploma coroou a história de uma infância entre dois países.

Leila nasceu em 16 de julho de 1965. Aos 7 anos, a família mudou-se para o Líbano, país de origem do pai. Dois anos depois, voltaram ao Brasil devido aos reflexos regionais da Guerra dos Seis Dias entre Israel e países árabes (Egito, Síria e Jordânia).

A história com a educação começa então em Guarapuava, no Paraná. Ela cursou o primeiro grau na Escola Adventista e guarda memórias afetivas daquela época, entre elas o hinário adventista “Mãos”. O hino diz logo no início: “Estas mãos que Deus me deu, foram feitas para servir o vizinho ao meu lado”, e demonstra seu propósito para a educação.

Segundo Leila, havia outras expectativas de futuro para as mulheres devido à cultura libanesa. “As meninas se preparavam para se casarem e serem donas de casa. Foi uma vitória concluir o segundo grau”.

A vida adulta a levou para o Mato Grosso em 1995, motivada pela união com o esposo. No ano seguinte, foi para o assentamento Japuranã, no município de Nova Bandeirantes. Foi lá que teve seu primeiro contato direto com a sala de aula.

O encantamento pela sala de aula

No Brasil, um assentamento rural é uma área destinada à reforma agrária, onde famílias de trabalhadores rurais sem-terra são assentadas pelo governo para produzir e morar. Geralmente surgem em áreas que, apesar de terem um dono, não cumpriam uma “função social” produtiva, como prevê a Constituição.

O Japuranã está situado no município de Nova Bandeirantes, no Mato Grosso. Em 1996, a infraestrutura era praticamente inexistente, e a chegada das famílias foi descrita como repentina e com pouca estrutura de apoio. As condições de vida eram desafiadoras.

Foi no assentamento que Leila assumiu uma turma multisseriada. A expressão técnica, que pode parecer distante, traduz uma realidade dura e comum em regiões afastadas: alunos de diferentes idades e séries dividem o mesmo espaço e o mesmo professor.

“Era uma turma formada por alunos de várias séries juntas, do 1º ao 4º ano. Priorizávamos o ensino da língua portuguesa e matemática”, explica. As crianças, de 7 e 15 anos, moravam em tendas e estudavam primeiro em uma estrutura de lona, depois de madeira.

Foi naquelas condições que ela se apaixonou pela educação. Mesmo sem formação, mesmo sem estrutura. “O momento em que tive contato com a educação foi que me levou a tomar gosto”, conta. “A ausência de condições para formação impediu que isso acontecesse.” Além de lecionar, tinha de fazer a merenda. Foram quatro anos no assentamento, até que problemas de saúde a obrigaram a se mudar para a cidade.

A carreira e a maternidade

Na cidade de Nova Bandeirantes, Leila continuou na educação, mas como auxiliar, por não ter o diploma. Entre 2020 e 2023, trabalhou como auxiliar na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Enquanto isso, em casa, fazia o possível para que os filhos tivessem o caminho que ela não pôde trilhar antes.

O mais velho, que foi seu aluno na sala multisseriada do assentamento, fez tecnólogo em corretagem de imóveis e hoje atua na área. O caçula, nascido no assentamento, formou-se em Direito. “Primeiro formei meus filhos e, agora, finalmente, com a ajuda deles alcancei minha formação”, resume.

Foi por meio deles que a oportunidade chegou. A nora, Marciele, trabalhava com a Uninter em Nova Bandeirantes e apresentou a instituição a Leila.

O contato com a Uninter

Aos 55 anos, Leila voltou a ser aluna. Entre fevereiro e março de 2021, iniciou o curso de Licenciatura em Pedagogia da Uninter no polo de Alta Floresta (MT). O objetivo era claro: entendia que faltava o diploma e a melhoria salarial, e que poderia melhorar sua imagem e ser mais bem valorizada.

A volta aos estudos, no entanto, exigiu adaptação. “Ter contato com a educação pela tecnologia foi bem diferente, não foi fácil”, admite. A rotina precisou ser reorganizada: estudava no polo, em casa à noite e nos finais de semana. O maior desafio, avalia, não é a distância física, mas o isolamento. “Um dos bloqueios é o acesso à tecnologia, outro é estudar sozinho. O ensino pode ser longe ou perto, o que vai determinar a aprendizagem é o empenho do aluno.”

O curso de Pedagogia, no formato semipresencial, tem duração mínima de 48 meses e exige 400 horas de estágio supervisionado, conforme determina o MEC. O setor de estágios da instituição auxilia na busca e inserção dos alunos.

Em 27 de janeiro de 2026, Leila apresentou o Trabalho de Conclusão de Curso. Uma hora de defesa que encerrava um ciclo de quatro anos, mas também coroava quase uma década de dedicação ao ensino sem o devido reconhecimento formal.

“Uma sensação de vitória e superação”, contou sobre receber o diploma. “Hoje, após trilhar tanto tempo como auxiliar, sou professora. Finalmente, graças a Deus e à Uninter.” A frase, dita com a simplicidade de quem sempre exerceu a função, agora tem respaldo. Agora, Leila já planeja dar um passo além: cursar o mestrado.

O orgulho das professoras

Gisele do Rocio Cordeiro, a coordenadora do curso de Pedagogia da Uninter, destaca o valor de trajetórias como a de Leila para o ambiente acadêmico. Para ela, a troca entre a vivência prática do estudante e o conhecimento teórico é profundamente formadora, tanto para o aluno quanto para o curso.

“A experiência da Leila em salas de aula improvisadas, em um contexto de assentamento, proporcionou um contato direto com a diversidade e com os desafios reais do ensinar”, afirma Gisele. “Quando essa prática é confrontada com a teoria no espaço universitário, ela deixa de ser apenas uma experiência vivida e passa a ser objeto de reflexão crítica. A teoria ajuda a nomear, compreender e problematizar aquilo que já foi experimentado.”

Sobre o desejo de Leila de cursar mestrado, Gisele afirma que é um passo coerente com a trajetória construída. A coordenadora aconselha que a estudante reconheça que sua história de vida e sua prática docente não são apenas ponto de partida, mas potencial investigativo. Para Gisele, transformar a própria trajetória em pesquisa é também um ato de valorização da educação pública, popular e comprometida com a transformação social.

A professora Jucimara de Barros Bandeira, que integra o corpo docente da Uninter, conta que conhecer a história de Leila durante a banca de TCC foi especialmente marcante. “Ao descobrir que ela estava se formando aos 60 anos, não enxerguei apenas o encerramento de um curso, mas uma vida atravessada por desafios, interrupções e recomeços. Sua história revela um compromisso com a aprendizagem, com a sua formação e o desejo de ocupar, com legitimidade, seu espaço na educação.”

O sentimento, diz, foi de profunda admiração pela coragem de nunca desistir de um sonho, independentemente da idade ou das condições adversas. Para a professora, a história de Leila reafirma que a educação transforma não apenas trajetórias profissionais, mas também projetos de vida, fortalece a autoestima e promove o sentimento de pertencimento.

“Histórias como a da Leila reforçam que aprender é um direito ao longo de toda a vida e que a universidade se fortalece quando acolhe percursos diversos. Ela nos ensina que nunca é tarde para recomeçar e que o conhecimento ganha ainda mais sentido quando se encontra com a experiência e a persistência de quem acredita na educação como caminho de transformação.”

Determinação e predestinação

Há, na história de Leila, algo que vai além da superação. É como se ela sempre tivesse sido professora, mesmo quando não tinha o diploma. A sala de aula a encontrou antes que pudesse se preparar formalmente para ela. E Leila correspondeu. Não desistiu. Fez a merenda, ensinou, cuidou, formou os filhos e, só depois, formou a si mesma. Antes de qualquer teoria, compreendeu o verdadeiro significado de ensinar.

Gisele resume o que a trajetória de Leila ensina a todos: “Nunca é tarde para aprender, sonhar e se reinventar. A universidade não é um espaço reservado apenas aos jovens; ela é, ou deveria ser, um espaço de encontros entre gerações, histórias e saberes. Leve sua história para a universidade com orgulho. Ela não é um obstáculo, é um diferencial.”

Leila Ali Darwiche finaliza deixando um conselho aos que duvidam se ainda há tempo para recomeçar: “A idade não fecha portas e a Uninter abre possibilidades.”

 

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Autor: Yasmin Guedes - Estagiária de Jornalismo
Edição: Mauri König
Créditos do Fotógrafo: Arquivo pessoal Leila Ali Darwiche


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