Os próximos passos da polilaminina

Você com certeza viu este nome em uma notícia recentemente: a Polilaminina, é uma substância desenvolvida em laboratório a partir da Laminina, que pode ter impacto positivo no tratamento de lesões na medula espinhal, ou seja, por meio da restauração dos movimentos de pacientes paralisados.

Ela foi criada pela bióloga dra. Tatiana Coelho de Sampaio, uma pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em parceria com o Laboratório Cristália, fruto de mais de 25 anos de pesquisa. Mas quais são os próximos passos necessários para que ela seja usada amplamente na medicina?

Primeiro, vamos entender de onde veio a substância: a Laminina é uma glicoproteína produzida em abundância pela placenta durante a gestação. Ela desempenha um papel essencial na formação do feto, contribuindo para o desenvolvimento do feto, desenvolvimento neuronal e a adesão celular. Além disso, ela é responsável por conectar células, principalmente dentro do sistema nervoso. É importante destacar que o corpo humano produz Laminina após o nascimento, durante toda a vida de um indivíduo.

A partir da Laminina, pesquisadores conseguiram desenvolver uma medicação experimental chamada Polilaminina, que pode ter impacto positivo no tratamento de lesões na medula espinhal. Apesar de estarem relacionadas, Laminina e Polilamina possuem diferenças em sua origem e função no organismo. Enquanto a Laminina é gerada de maneira natural durante a formação do feto, a Polilaminina resulta de uma pesquisa desenvolvida em laboratório.

Atualmente, a Polilaminina está na fase inicial de um Estudo Clínico de Fase I, focando em lesões agudas. Essa etapa é a primeira fase de pesquisa regulatória envolvendo seres humanos, com o propósito principal de garantir a segurança da medicação.

Segundo os estudos realizados, até o presente momento, é possível concluir que o medicamento deve demonstrar tanto eficácia quanto segurança para utilização em pacientes na fase aguda, com um período de aplicação de até 72 horas após a lesão. Os participantes do estudo devem ter entre 18 e 72 anos e apresentar lesões completas na medula espinhal torácica, situadas entre as vértebras T2 e T10, com indicação para cirurgia.

Depois disso, pode haver segurança e eficácia no tratamento de lesões na fase subaguda, aquelas que ocorrem algumas semanas após a lesão. Contudo, a eficácia da Polilaminina tende a diminuir conforme o tempo após a lesão. Para lesões com mais de 90 dias, conhecidas como “lesões crônicas”, os pesquisadores continuam a realizar testes experimentais em animais para determinar como o tratamento poderá ser aplicado em seres humanos. Dependendo dos resultados obtidos em novos ensaios, a medicação pode ser utilizada em pacientes com lesões crônicas.

Dados recentes fornecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) indicam que 33 pessoas receberam a Polilaminina, sendo a maioria delas através de aprovação judicial. Quatro desses pacientes faleceram e a Anvisa já requisitou informações consolidadas para avaliação. Os pacientes estão distribuídos nos estados do Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia e Maranhão.

Um dos casos de sucesso ocorreu em 2018. O jovem Bruno Drummond de Freitas, de 23 anos, sofreu um grave acidente de carro que resultou em uma lesão cervical completa, deixando-o sem movimentos. Após o acidente ele se tornou parte de um estudo na UFRJ e recebeu a aplicação de Polilaminina. Além da aplicação, o jovem participou de diversas sessões de fisioterapia e depois de alguns meses, conseguiu andar. Atualmente ele leva uma vida ativa. Esse caso de recuperação gerou 57 solicitações ao laboratório Cristália, através de processos judiciais, para que a Polilaminina pudesse ser utilizada em caráter compassivo.

Vale ressaltar que o tratamento com Polilaminina consiste na administração de uma única dose aplicada diretamente na região afetada da medula durante um procedimento cirúrgico e a efetividade do produto também depende de um processo de reabilitação com fisioterapia e profissionais multidisciplinares.

* Vera Lucia Pereira dos Santos é doutora em Medicina Interna pela UFPR e professora da Área de Geociências da Escola de Educação, Humanidades e Línguas da Uninter.

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Créditos do Fotógrafo: Taokinesis/Pixabay


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