Conflitos têm face: por que o embate entre Venezuela e EUA precisa ser visto com humanidade

Autor: (*) Crisbelli Domingos

O conflito entre Venezuela e Estados Unidos evidencia, mais uma vez, como disputas internacionais costumam ser narradas a partir de interesses estratégicos, enquanto as consequências humanas permanecem em segundo plano. Sanções econômicas, discursos sobre democracia, acusações de autoritarismo e alegações de violação da soberania nacional circulam com força no debate público, mas raramente são analisados em sua complexidade histórica e social. É justamente nesse ponto que um olhar crítico e humanizado se torna indispensável.

As tensões entre os dois países não surgem no vazio. Elas se inscrevem em uma longa trajetória de intervenções, disputas ideológicas e interesses econômicos na América Latina, especialmente ligados ao petróleo, à energia e à influência geopolítica. Quando esse histórico é ignorado, o conflito tende a ser reduzido a narrativas simplificadoras, que pouco contribuem para a compreensão do presente e ainda menos para a construção de saídas responsáveis.

Um dos aspectos mais graves desse embate são os efeitos concretos das sanções econômicas sobre a população venezuelana. Medidas apresentadas como instrumentos diplomáticos produzem, na prática, escassez, colapso de serviços públicos, migração forçada e aprofundamento das desigualdades sociais. Ao mesmo tempo, reconhecer esses impactos não significa ignorar os problemas internos do país, que envolvem desafios de governança, participação política e garantias democráticas. A complexidade do cenário exige análises que escapem tanto da demonização externa quanto da absolvição acrítica.

Diante desse quadro, a defesa da negociação e do multilateralismo não pode ser confundida com ingenuidade política. A experiência histórica da América Latina mostra que a militarização de conflitos e a imposição de soluções externas resultam, quase sempre, em perdas humanas, instabilidade institucional e dependência. Apostar no diálogo é reconhecer que a paz é uma construção política trabalhosa, mas necessária, sobretudo em regiões marcadas por desigualdades estruturais.

A integração latino-americana também se coloca como elemento central nesse debate. A fragmentação da região fragiliza a capacidade de resposta dos países diante de pressões globais e reforça assimetrias de poder. Uma postura articulada, baseada na cooperação e na solidariedade regional, amplia as possibilidades de mediação e afirma a América Latina como sujeito político no cenário internacional.

Nesse contexto, o Brasil tem uma responsabilidade particular. Sua tradição diplomática, fundada na não intervenção, na defesa da paz e na solução negociada de conflitos, oferece um caminho consistente para lidar com tensões como a que envolve Venezuela e Estados Unidos. Manter essa posição é resistir a alinhamentos automáticos e reafirmar o compromisso com a estabilidade regional e com a dignidade dos povos envolvidos.

Refletir sobre esse conflito, portanto, não é apenas discutir geopolítica, mas lembrar que decisões internacionais incidem sobre vidas concretas. Um debate público mais qualificado exige ir além de slogans nas redes sociais e polarizações, reconhecendo que não há solução duradoura que prescinda do diálogo, da cooperação regional e do compromisso ético com a paz.

* Crisbelli Domingos é Doutora e Mestre em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Coordenadora da Área de Línguas e Sociedade da Uninter.

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Autor: (*) Crisbelli Domingos
Créditos do Fotógrafo: Pexels


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