Os empregos que a máquina nunca vai roubar

Autor: *Daniel Guimarães Tedesco

A profecia de que a inteligência artificial vai varrer o trabalho humano é tão velha quanto a própria IA, e sempre erra no mesmo ponto. Em 2016, um dos pais da IA moderna disse que era hora de parar de formar radiologistas, porque em cinco anos as máquinas leriam exames melhor que qualquer médico. Quase dez anos depois, falta radiologista no mundo inteiro, os salários subiram e a profissão segue firme. A profecia errou, mas nos deixou uma lição útil sobre a diferença entre um ofício e uma tarefa, que é o pecado original de quase todo anúncio sobre o fim dos empregos.

Esse medo nasce da percepção de que o trabalho é um bolo de tamanho fixo, e cada fatia que a máquina abocanha some do prato dos humanos, mas esse bolo não tem tamanho fixo. Quando o primeiro programa de planilhas chegou no fim dos anos 1970, profetizaram a extinção dos contadores, que não desapareceram, para a tristeza de uns e a alegria de outros. Os escriturários que somavam colunas minguaram, mas o número de contadores explodiu, porque calcular ficou tão barato que toda empresa queria análises que antes não cabiam no orçamento. A planilha devorou o tédio e promoveu o humano para um degrau acima.

A IA de hoje funciona como um estagiário brilhante, rápido, incansável, seguro de si, e de vez em quando, redondamente errado. Estagiário precisa de supervisão, de alguém que confira, decida e assine embaixo. O gargalo se desloca do fazer para o checar e responsabilizar-se, e esse degrau, por enquanto, é humano. A razão é simples. Alguém precisa ser demitido quando a conta dá errado, e não se demite um software.

Ainda por cima, esse estagiário muitas vezes sai mais caro do que o funcionário, um detalhe que o discurso da substituição prefere ignorar. Um vice-presidente da Nvidia admitiu que a conta de processamento já supera a folha de pagamento. Trocar um trabalhador por uma IA, se troca um salário por uma fatura de uso que não para de subir. Os economistas chamam isso de automação “mais ou menos”, quando se substitui uma pessoa com menor custo por uma máquina cara, para fazer um serviço apenas um pouco melhor. Por isso, as empresas têm usado a IA, mais para evitar novas contratações do que para demitir quem já está dentro.

Dois grupos têm interesse direto em inflar essa história. Um vende a tecnologia com a promessa de cortar a folha de pagamento, e o outro é o profeta do apocalipse, que vive da atenção que o terror rende. Os números esvaziam o roteiro. Depois da chegada do ChatGPT, vagas para tarefas repetitivas recuaram cerca de 13%, enquanto as que exigem análise e criatividade subiram perto de 20%, com projeções apontando mais vagas criadas do que destruídas até 2030.

O problema real está em outro lugar. As vagas para iniciantes encolheram cerca de 15%, e a contratação de jovens esfriou justamente nas áreas mais expostas à IA. A máquina é ótima exatamente naquilo que o trabalho júnior tinha de repetitivo, e era esse trabalho que servia de escola. O risco concreto está no jovem radiologista que nunca é contratado para um dia tornar-se o experiente. Uma economia que exige julgamento maduro enquanto automatiza o aprendizado que o produzia puxa a escada para cima atrás de quem já subiu.

A pergunta certa tem duas partes. Enquanto a máquina custar mais que a pessoa para fazer um serviço apenas um pouco melhor, a substituição em massa é mais argumento de vendas do que ameaça concreta. O problema mais sério é saber se teremos a sabedoria de reconstruir o degrau de entrada que a máquina acabou de serrar. Confundir tarefa com ofício, e o preço do salário com o custo real da máquina, é o mecanismo pelo qual se vende o pânico. Enxergar essa diferença é o mecanismo pelo qual se sobrevive a ele.

*Daniel Guimarães Tedesco é Doutor em Física pela UERJ, Professor da Escola Superior de Educação, Humanidades e Línguas e do Programa de Pós-Graduação em Educação e Novas Tecnologias na UNINTER.

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Autor: *Daniel Guimarães Tedesco
Créditos do Fotógrafo: Imagem gerada por IA (Gemini)


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