O aumento do etanol na gasolina: ganho ou perda econômica para os consumidores?

Autor: *Marcos Baroncini Proença

A geopolítica e sua influência na economia global nos leva mais uma vez a discutir  a decisão do governo de aumentar a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, agora de 30% para 32%. O cerne desta discussão é: Quais os impactos econômicos dessa política para quem tem veículos que usam este combustível?

 O governo apresenta a decisão como uma medida econômica estratégica, por proteger o país das oscilações do mercado internacional de petróleo e reduzir a dependência de gasolina importada, o que, sob a ótica da macroeconomia, é uma medida que se espera. Porque o aumento do teor do etanol na mistura reduz significativamente a necessidade de importação de gasolina, diminuindo a exposição do Brasil às crises geopolíticas que elevam os preços do petróleo. Estima-se, conforme divulgação recente do Ministério de Minas e Energia, que este aumento de 30% para 32% possa evitar a importação de cerca de 900 milhões de litros de gasolina por ano.

No entanto, mudando o foco para quem tem veículos que usam este combustível, a análise se torna mais complexa. O etanol, embora possua maior octanagem e uma combustão mais limpa, ou seja, com menor emissão de poluentes, tem menor conteúdo energético por litro que a gasolina. Isso significa que, usando a mistura de etanol na gasolina, o motor consumirá uma quantidade maior de combustível que consumiria apenas com a gasolina para percorrer a mesma distância. Com um aumento de 2% na adição do etanol na gasolina, o que é relativamente pouco, existe uma discreta redução na autonomia dos veículos.

Assim, para que a decisão do governo resulte em uma vantagem econômica para quem tem veículos a gasolina, esta perda de autonomia precisa ser compensada por uma redução correspondente no preço do combustível nas bombas dos postos. Caso a gasolina E32 chegue às bombas com valor igual ou muito próximo ao da gasolina E30 atual, o custo por quilômetro rodado poderá aumentar. Por outro lado, se a substituição da gasolina E30 pela E32 permitir reduzir pressões externas sobre os preços dos combustíveis, o consumidor poderá ser beneficiado no médio prazo. Trata-se, portanto, de uma questão econômica cuja resposta dependerá do comportamento futuro da geopolítica e, por consequência, dos preços praticados pelo mercado.

Outro aspecto relevante diz respeito à manutenção dos veículos. Embora o governo divulgue estudos de que a gasolina E32 apresenta comportamento semelhante ao observado em misturas anteriores, sem impactos relevantes para o funcionamento dos veículos, inclusive os não Flex, representantes de segmentos do setor de distribuição de combustíveis e da indústria automotiva defendem cautela, especialmente em relação a veículos mais antigos ou importados, que têm componentes originalmente projetados para teores menores de etanol. Desgastes prematuros em mangueiras, vedações ou sistemas de alimentação, podem levar a custos de manutenção que poderão superar eventuais ganhos obtidos com o preço do combustível.

Na minha opinião, o aumento de 30% para 32% é sem dúvida uma medida econômica estratégica favorável para o país, mas que não necessariamente acarretará benefícios econômicos para o consumidor. O ganho nacional decorrente da redução das importações e da menor dependência do petróleo é evidente. Entretanto, para que esta medida resulte em ganho econômico para o consumidor, uma pergunta deverá ser respondida: o preço da gasolina na bomba conseguirá compensar a perda de autonomia dos veículos e gastos com manutenção? Se a resposta for positiva, haverá vantagem econômica. Caso contrário, o consumidor, mesmo pagando praticamente o mesmo valor por litro, estará, novamente, em desvantagem econômica.

*Marcos Baroncini Proença é Professor da Uninter, graduado em Engenharia Química pela UFPR, com mestrado em Engenharia Metalúrgica pela USP-EESC e doutorado em Engenharia Mecânica pela UNICAMP

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