A Selic caiu, a dívida ficou

Autor: Olívia Resende*

A notícia chegou em setembro, quando o Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano. Para quem carrega uma dívida vencida, porém, o alívio não aparece automaticamente. Em agosto, 83,98 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, segundo a Serasa.

Há uma distância entre o juro que cai na política monetária e aquele que continua crescendo na conta de quem atrasou o pagamento. Os números parecem contar a mesma história, mas não contam. A pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) encontrou 82% das famílias com dívidas a vencer em agosto e 29,9% com contas em atraso.

Ter uma prestação a vencer não equivale a deixar de pagá-la. A Serasa acompanha consumidores com débitos registrados em atraso, enquanto a CNC mede, por meio de pesquisa, a situação financeira das famílias. As duas medidas mostram um país que usa amplamente o crédito e uma parcela expressiva da população com dificuldades para manter os pagamentos em dia.

A melhora de um indicador econômico tampouco resolve sozinha o orçamento doméstico. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou deflação de 0,32% em agosto, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas os preços ainda acumulavam alta de 4,22% em doze meses. A deflação de um mês não faz o supermercado voltar aos preços de anos atrás.

Quando o salário entra e encontra aluguel, compras parceladas e contas básicas, sobra pouco para corrigir um atraso. Sobre esse saldo incidem encargos, e a dívida passa a disputar espaço com as despesas do mês seguinte. É nesse ponto que a queda da Selic precisa ser entendida sem promessas fáceis.

A taxa básica influencia o custo do crédito ao longo do tempo, mas não altera automaticamente um empréstimo contratado a juros fixos nem elimina multa e juros de uma fatura vencida. As taxas oferecidas ao consumidor também dependem do risco da operação e das condições de cada instituição. Esperar novos cortes para procurar o credor pode sair caro se, nesse intervalo, o débito continuar aumentando.

Renegociar, portanto, faz sentido quando o novo acordo custa menos e cabe no mês seguinte, não apenas no dia da assinatura. Antes de aceitar uma oferta, vale pedir o saldo discriminado, conferir encargos e comparar o valor total da quitação com a soma de todas as parcelas propostas. Uma prestação menor obtida à custa de muitos meses adicionais pode encarecer o pagamento.

Se houver outra proposta de crédito, a comparação deve incluir o custo efetivo total, que reúne juros e demais despesas da operação. Para dívidas bancárias, a portabilidade também pode abrir uma alternativa. A escolha da primeira conta a pagar exige mais cuidado do que seguir o maior desconto anunciado. Moradia e serviços essenciais precisam ser preservados. Entre os outros débitos, aqueles que acumulam juros mais altos pedem atenção, especialmente se uma quitação à vista interromper essa cobrança.

Descontos percentuais vistosos pouco dizem sem o valor final por escrito. E uma parcela incompatível com a renda apenas troca uma dívida antiga por um novo atraso. O décimo terceiro pode ajudar a romper esse ciclo, desde que não seja tratado como dinheiro inteiramente livre. O planejamento começa pela estimativa do valor líquido e pelas despesas inevitáveis do início do ano.

Com o que restar, a família pode procurar os credores, comparar propostas e priorizar as dívidas em que a quitação trouxer maior economia. Reservar alguma margem para imprevistos também evita recorrer novamente ao crédito diante da primeira emergência. A Selic menor pode abrir espaço para negociação, mas a melhora concreta depende do custo do acordo e, sobretudo, da capacidade de cumpri-lo.

* Olívia Resende é especialista em Educação Financeira, Economista, mestre e doutora em Administração, professora da Uninter.

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Autor: Olívia Resende*
Créditos do Fotógrafo: Vladimir Srajber/Pexels


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