Copa do Mundo, turismo e exclusão: quando o espetáculo deixa o torcedor do lado de fora

Autor: *Grazielle Ueno

A Copa do Mundo costuma ser apresentada como uma vitrine global: atrai turistas, movimenta a economia, projeta cidades e fortalece a imagem internacional dos países-sede. Mas há uma pergunta que precisa ser feita com mais frequência: para quem, afinal, esse espetáculo está sendo organizado?

O caso brasileiro, em 2014, mostra a força turística de um megaevento esportivo. Estimativas do Ministério do Turismo apontavam a circulação de cerca de 3,7 milhões de visitantes durante o Mundial, entre brasileiros e estrangeiros, com projeção de R$ 6,7 bilhões em movimentação econômica. No balanço anual, o Brasil recebeu 6.429.852 turistas internacionais, crescimento de 10,6% em relação ao ano anterior. Esses números demonstram que a Copa tem capacidade real de impulsionar fluxos turísticos, aquecer setores como hospedagem, alimentação, transporte e entretenimento, além de ampliar a visibilidade internacional do destino. Megaeventos podem, sim, funcionar como catalisadores de desenvolvimento, desde que acompanhados de planejamento, infraestrutura permanente e políticas públicas capazes de distribuir seus benefícios.

O problema é que, junto com o discurso do legado, cresce uma contradição difícil de ignorar: o evento que mobiliza paixões populares torna-se cada vez menos acessível ao próprio público que sustenta sua força simbólica. A Copa nasceu do futebol, mas sua experiência presencial caminha para um modelo cada vez mais elitizado.

A edição de 2026 explicita essa tendência. Com a adoção da precificação dinâmica, os valores dos ingressos passaram a variar conforme a demanda, em lógica semelhante à praticada por companhias aéreas e grandes eventos de entretenimento. Na prática, isso tem levado a preços extremamente elevados, especialmente para jogos decisivos.

Não se trata apenas de preço. Trata-se de compreender que o turismo esportivo, quando submetido exclusivamente à lógica da maximização de receita, pode impulsionar a exclusão. A controvérsia sobre a venda de ingressos para 2026 ultrapassa a insatisfação individual dos torcedores e entra no campo da defesa do consumidor, da transparência e do direito de acesso. Mesmo com avanços em infraestrutura, a acessibilidade econômica continua sendo uma barreira concreta: um evento pode ter rampas, assentos reservados e sinalização adequada, mas permanecer inacessível se o custo total da experiência for proibitivo.

Por isso, o legado turístico da Copa precisa ser analisado para além dos indicadores de chegada de visitantes e volume de gastos. O verdadeiro legado não pode ser medido apenas pelo quanto se arrecada, mas também por quem consegue participar, circular, usufruir e reconhecer-se nesse acontecimento. Se a Copa movimenta cidades, economias e imaginários, ela também deve preservar algo essencial: o futebol como experiência coletiva, popular e socialmente compartilhada. Caso contrário, celebraremos um espetáculo global cada vez mais distante daqueles que fazem dele uma paixão universal.

*Grazielle Ueno é professora e coordenadora de curso no Centro Universitário Internacional Uninter. Administradora e Turismóloga, especialista em Educação, mestre em Turismo e Doutora em Tecnologia e Sociedade.

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Autor: *Grazielle Ueno
Créditos do Fotógrafo: Pexels


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