Inclusão no esporte: ainda estamos longe do ideal?
Autor: *Paloma Herginzer
Em 19 de fevereiro, é celebrado o Dia do Esportista, a data nos convida a reconhecer e valorizar a prática do esporte em todas as suas dimensões seja ela profissional ou amadora. Em meio às celebrações, uma pergunta precisa ser feita: quem realmente tem acesso a essa prática no Brasil?
Quando falamos em inclusão no esporte, especialmente no contexto das pessoas com deficiência, ainda há uma distância significativa entre o discurso e a prática. O Brasil conta com 18,5 milhões de pessoas com deficiência, conforme o IBGE (2022), isso considerando todos os tipos, sejam físicas, sensoriais, intelectuais ou psicossociais — número que corresponde a 8,9% da população. Estamos falando de quase um décimo do país. Ainda assim, a participação desse público em espaços esportivos, especialmente no ambiente escolar, enfrenta barreiras estruturais, pedagógicas e atitudinais.
O país avançou em termos legais, com políticas públicas, diretrizes educacionais e marcos como a Lei Brasileira de Inclusão, que asseguram o direito à participação em atividades esportivas e educacionais. Contudo, garantir o direito na legislação não significa, necessariamente, garanti-lo na realidade cotidiana. Nas escolas, o esporte deveria ser um dos principais espaços de vivência inclusiva. A Educação Física, por sua natureza, promove interação, cooperação, respeito às diferenças e desenvolvimento integral. Entretanto, muitos professores enfrentam desafios concretos: turmas numerosas, falta de materiais adaptados, ausência de formação continuada específica e escassez de apoio multiprofissional. Nesse cenário, a inclusão, muitas vezes, acaba ocorrendo de forma superficial.
É comum que estudantes com deficiência estejam fisicamente presentes nas aulas, mas que não participem de maneira efetiva. A atividade é adaptada apenas parcialmente ou, em alguns casos, o aluno é direcionado a funções secundárias, sob a justificativa de proteção ou limitação. Ainda que não haja intenção de excluir, o resultado pode ser o mesmo: afastamento simbólico e perda de experiências fundamentais para o desenvolvimento social, emocional e motor.
A inclusão esportiva vai além da adaptação de regras ou da oferta de modalidades paralímpicas; ela exige mudança de mentalidade. O esporte não deve ser visto apenas como rendimento e competição, mas como espaço de pertencimento e formação cidadã. Quando uma criança com deficiência participa de forma significativa, ela ocupa um espaço social historicamente negado. Além disso, a inclusão transforma toda a comunidade escolar, promovendo empatia, respeito às diferenças e o desenvolvimento de valores essenciais para a vida em sociedade.
Celebrar o Dia do Esportista, em 19 de fevereiro, portanto, não deve se limitar ao reconhecimento de medalhas ou ao alto rendimento. Se a data homenageia todos que praticam esporte, do atleta profissional ao praticante amador, ela também precisa nos provocar a refletir sobre aqueles que ainda enfrentam barreiras para participar. A verdadeira inclusão acontece quando o sistema se adapta às pessoas, e não quando as pessoas precisam se adaptar sozinhas ao sistema.
*Paloma Herginzer é formada em Licenciatura em Educação Física, Especialista em Educação Especial e Inclusiva e Formação Docente EAD. Professora Tutora dos Cursos da área da Educação e Desportiva de Pós-graduação do Centro Universitário Uninter.
Autor: *Paloma HerginzerCréditos do Fotógrafo: Rodrigo Leal/Banco Uninter e Jannes Glas/Unsplash


