Uma revolução silenciosa: a busca pela beleza muda o consumo de álcool
Autor: Benísio Ferreira da Silva Filho*
Muito em breve irei completar 46 anos. E entre os 18 e 25 as festas e carnavais eram regados a bastante bebida – o que na época era algo bem comum. Além disso, tínhamos a mídia que incentivava com heróis de cinema e bandas (do pagode ao rock) que falavam sobre a associação da bebida e mais alegria. Hoje em dia, como professor, observo os atuais jovens e percebo uma mudança, positiva por sinal, eles estão bebendo menos.
De acordo com os dados pesquisados pela Mind & Hearts a geração Z (1990 e 2010) é a que menos consome álcool quando comparada as anteriores e o que mais chama atenção é que 88% da Gen Z pretende reduzir ou abandonar a ingestão de bebidas alcoólicas. Esse fenômeno não é apenas uma tendência passageira, mas sim um reflexo de uma mudança comportamental profunda. Cada vez mais, a juventude está se afastando das rodas de festas e dos brindes efervescentes, optando por um estilo de vida que prioriza a saúde e o bem-estar. Essa nova geração está em busca de um corpo mais atlético e de uma vida mais longa, e isso está moldando suas escolhas, inclusive em relação ao consumo de álcool.
Atualmente, a ideia de mais saúde, melhor desempenho físico e estético do corpo com destaque para famosa frase “vou meter o shape” está tão em alta que influenciou a indústria de bebidas e hoje encontramos inclusive, bebidas com menos calorias que fazem questão de informar que são menos calóricas que as demais. Há também uma preocupação com a saúde mental, muito mais discutida que 25 anos atrás, por exemplo. Essa mudança não é apenas uma questão de preferência; é também uma declaração de intenções. Os jovens estão reconhecendo que o consumo excessivo de álcool pode prejudicar não apenas a saúde física, mas também a obtenção do “shape perfeito”, levando a um ciclo de insatisfação, frustração e pressão social, afinal eles querem parecer (e ser) mais saudáveis.
A consciência sobre a importância de uma alimentação balanceada e de exercícios regulares está se espalhando. Com o aumento da popularidade de academias e estratégias que unem dietas e treinos específicos, muitos jovens perceberam que o álcool é um obstáculo em sua jornada fitness. É de conhecimento dos profissionais de saúde, especialmente nutricionistas e educadores físicos que o álcool pode prejudicar a recuperação muscular e processo de hipertrofia, as bebidas são calóricas e criam uma barreira para aqueles que almejam não apenas um corpo bonito, mas também uma saúde robusta. De forma simples, beber não ajuda a conquistar “o shape” perfeito, por isso consumir menos ou não beber faz parte desse comportamento.
Dessa forma, o estigma em torno do consumo de álcool está mudando. Em vez de ser visto como um símbolo de socialização e celebração, o álcool está se tornando um elemento que muitos preferem evitar. As redes sociais desempenham um papel crucial nesse cenário, promovendo estilos de vida saudáveis e mostrando que é possível se divertir sem a necessidade de beber. Influenciadores e atletas estão compartilhando suas experiências, reforçando que a verdadeira alegria pode ser encontrada em atividades que não envolvem bebidas, como esportes, viagens e encontros com amigos.
A busca por beleza, estética atlética, longevidade e envelhecimento saudável também está moldando esse atual comportamento. Fica a pergunta: os jovens estão cada vez mais conscientes de que as escolhas que fazem hoje impactarão na sua saúde no futuro ou apenas é interesse imediato pela beleza estética de um corpo mais atlético? Ao priorizar hábitos saudáveis, muitos estão adotando uma abordagem proativa em relação ao envelhecimento, evitando o álcool como forma de preservar sua saúde a longo prazo e qualquer que seja a pergunta, pouco importa, estamos criando uma geração mais saudável que a anterior e isso é um fato positivo. O meio científico sabe há anos que aqueles que consomem menos álcool têm uma chance significativamente maior de evitar doenças crônicas e desfrutar de uma vida mais longa e saudável.
Em contrapartida, vale lembrar que consumir álcool no Brasil possui raízes na cultura, nas diferentes formas de entretenimento, e por este motivo existem problemas com o consumo excessivo. O que estou apresentando é uma parcela da população que mudou de comportamento, mas o consumo ainda é um grande obstáculo. Segundo o estudo de 2025 da Worldpanel para 63% dos brasileiros houve um aumento de 20% no consumo de álcool fora de casa.
Essa mudança de comportamento é importante em um mundo que muitas vezes glorificava o consumo excessivo de álcool. A nova geração está quebrando essa atitude em nome da beleza e um novo padrão que enfatiza a saúde e o bem-estar. À medida que os jovens continuam a redefinir suas prioridades essa revolução silenciosa está impactando no consumo de bebidas alcoólicas prometendo ser vibrante, saudável e, acima de tudo, livre de excessos.
Para uma geração criticada em muitos aspectos comportamentais, esse merece destaque por ser muito bom e por levar, quem sabe, ao aumento da expectativa de vida do brasileiro. Sinceramente, eu queria que a minha geração tivesse tido esse comportamento e influência em relação ao cuidado com a saúde.
*Dr. Benísio Ferreira da Silva Filho é Biomédico, professor da Escola Superior da Escola de Saúde da UNINTER, mestre em Ciências da Saúde e Doutor em Biologia Celular e Molecular e também Doutor em Biotecnologia.
Autor: Benísio Ferreira da Silva Filho*Créditos do Fotógrafo: Rodrigo Leal/Banco Uninter e Pavel Danilyuk/Pexels


